sábado, 25 de outubro de 2008

A Professora que Emocionou um Blog

1: Uma professora de escola pública. 2: Um filme para ser assistido com lencinho. 3: Dezoito alunos que tiraram nota dez em redação. 4: Um blog quase como outro qualquer. 5: A internet sempre encurtando distâncias. 6: Lágrimas que transbordam nas entrelinhas. 7: Dedos voluntários que multiplicam lições.

Quando temos uma situação difícil, não podemos deixar que frustrem nossos sonhos
(Tailaine e Zoraide)

Calma, não desistam de ler esse texto. Não se trata de um conto fantástico de Jorge Luís Borges nem de outros escritores com imaginação quilométrica. Tudo que aqui será dito teve lugar no município baiano de Conceição do Coité, que abriga em suas fronteiras 60.835 habitantes (ou coiteenses), segundo nos confidencia o censo populacional de 2007 do IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (www.ibge.gov.br).

Decidiram estudar a doença para tentar ajudar as vítimas da ADL
(Lucivânia, Antônio Marcos, Geórgia e Jardel)
Mas pulemos maiores detalhes, pois não sou professor, seja de literatura, geografia ou outra matéria escolar. Me chamem apenas de um blogueiro iniciante e idealista. Também podem me considerar seu amigo, pelo menos em potencial, neste mundo virtual. Eis a crônica motivada por uma professora de redação, merecedora da minha mais profunda gratidão. Um lindo exemplo a ser partilhado e celebrado.

Essa história é uma lição de vida que deve ser seguida e imitada por todos
(Edinelma, Rosilene e Wilson)

Em meus tempos de vestibulando, devo contar que a minha criatividade chegou a ser castrada e banalizada por um professor. “Pablo, não inventa. Seja mais objetivo nas redações. Quanto mais você enfeitar as palavras, maior será sua chance de perder pontos”. Parecia um soco em meu estômago cultural, demasiadamente humano.

Os médicos estavam mais preocupados com o dinheiro do que com o aprofundamento nos estudos
(Aline, Itamara e Wenderson)
Entendi o recado daquele indigesto professor. Sua amarga mensagem era: “Faça o mínimo que precisa ser feito para passar no Vestibular”. Aposto que esse suposto educador, lamentavelmente, é daqueles que acham que é proibido sonhar, que defendem impunemente que mudar o mundo é impossível. Mentira. Joguemos suas lições na lata de lixo. Não estudemos para nos tornar gados indo para o matadouro.

Não devemos desistir de lutar nunca, mesmo que pareça ser uma coisa impossível
(Lucileide, Lucicleide e Valdinéia)
Desculpa, professora Selma. Não queria manchar esta narrativa com tristes lembranças de uma década atrás. Por outro lado, você e seus alunos de redação me orgulharam nesta semana. Souberam louvar o nobre ofício do professor, que há poucos dias fez aniversário. Chegaram ao ponto de emocionar, espontaneamente, o meu blog, cujo grito (pacífico; e, se quiser, amoroso) ficou grog de contentamento, ao ver os seis comentários que dezoito alunos seus deixaram entre os dias 21 e 24 de outubro de 2008.

Descobriram a produção de um óleo que prolongou a vida de Lorenzo
(Daniele Santana, Elâine Silva e Rutimeury Almeida)
Óleo de Lorenzo? Sim, esse produto foi a gota d´água. Passou longe quem marcou a opção protetor solar. Nota um para quem imaginou que a água escorrida uma linha atrás vem do mar. Sua fonte vem dos olhos, depois de fazer escala no coração. Parêntesis rápido: eu só dou nota zero para o sistema neoliberal que está causando um naufrágio mundial. Quem não viu, verá. Quem já viu, vale a pena ver de novo (e derramar novas lágrimas). Refiro-me a um filme para ser assistido com lencinho.

E o Oscar redacional deste ano vai para a professora Selma Mascarenhas
(Pablo Robles)

Afinal, o que aconteceu? Pergunta o jornal intitulado “Paulo Freire não morreu”. E o entrevistado assim resume o tratado. Cena I: uma professora de redação passou o filme Óleo de Lorenzo aos seus alunos de redação. Cena II: dezoito alunos se dividiram em equipes, fizeram redações sobre o filme e postaram em meu blog. Cena III: produzi esse texto para homenagear e incentivar esse brilhante gesto educativo. Cena IV: os destinatários dessa mensagem irão reencaminhá-la para todos os seus contatos.

http://gritopacifico.blogspot.com/2008/07/filme-social-o-leo-de-lorenzo_12.html
(Grito Pacífico)
Ao clicar no link acima, seus olhos serão levados ao resumo e às resenhas originais que eu fichei sobre o filme. Abaixo, dispostos verticalmente, cintilam seis resenhas adicionais, impressas pela sensibilidade de dezoito alunos do terceiro ano do ensino médio de uma escola pública da cidade de Conceição do Coité: filha do Estado da Bahia, sobrinha do Estado do Ceará e neta da Região Nordeste do Brasil.

A educação sozinha não transforma a sociedade; sem ela, tampouco a sociedade muda
(Paulo Freire, maior educador brasileiro, 1921-1997)
Enquanto a internet encurta cada vez mais distâncias, há professores, tantas vezes anônimos e geralmente mal remunerados (atenção, governantes e cidadãos) que continuam prolongando exemplos de talento e dedicação, usando a tecnologia como aliada de um país que se espera mais justo, sensível e solidário; bendita seja nossa vontade e maldita seja a omissão de quem ignora essa reflexão somente porque ela não cai no Vestibular – ou então, trocando de refrão ou de estação, não cai nas provas de Concurso Público.

"Me responda, o que eu seria se tivesse seguido o conselho daquele professor impostor?"
(um estudante da vida tentando fugir dos matadouros)

Dedos voluntários (através dos quais você digita) que multiplicam (reenviam pela internet) lições (o exemplo de Selma e seus alunos, documentado nesta crônica). Pronto. Legendando assim, fica bem mais fácil entender o papel de um dos personagens apresentados no primeiro parágrafo, cujo ato (a pedidos) se cumprirá na última (ou penúltima) cena deste enredo.
Cena V (bônus): "A professora Selma distribui, lê e debate esta crônica com seus alunos"
(um pedido feito pela blogosfera à professora Selma)
Um último esclarecimento, que só se aplica a quem não teve dois minutos de paciência para visitar meu blog e conferir a autenticidade desse relato que ora se despede. A maioria das citações que se intercalam entre os parágrafos são amostras ilustrativas de cada comentário (coiteense) ecoado no Grito Pacífico. Desnecessário verbalizar (até porque basta sentir) a existência de lágrimas que transbordam nas entrelinhas – e se denunciam silenciosamente.

10 comentários:

Darcy Mendes disse...

Bela crônica, amigo! Fiquei imaginando o seu orgulho em ter seu trabalho reconhecido, através desses alunos e da iniciativa da professora.

Parabéns e muito sucesso prá você!

Ainda bem que não deu ouvidos ao "suposto" educador dos tempos de falculdade!

joselito disse...

Pablo

É sempre importante fazer alguma coisa que nos fazem sentir um certo aperto no peito, que não parece de todo bom, mas, deve ser o melhor sentimento do mundo, que é verter uma lágrima por felicidade, por mais triste que pareça o quadro.

Wander Veroni disse...

Oi, Pablo!

Também fico admirado quando vejo ações como essa, tanto a sua de promover esse belíssimo trabalho, quanto o da professora de incentivar os alunos a produção textual.

Abraço,

=]

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http://cafecomnoticias.blogspot.com

PABLO ROBLES disse...

Amigos Darcy, Joselito e Wander

Obrigado pelos comentários!

1) Há dois tipos de educadores: os reais, que nos ensinam o que deve ser aprendido; e os fictícios, os que nos ensinam o que não deve ser aprendido. Fico com os primeiros, como a profa. Selma.

2) Muitas vezes, a lágrima é um atalho para melhores sorrisos.

3) Gestos educativos como esse, realizado quase sempre por pessoas anônimas, devem ser divulgados aos quatro ventos.

Abraços solidários e uma ótima semana!

Kilvia disse...

Pablo!
Fiquei muito feliz pela experiência tão edificante que você teve através de seu blog. No geral, a idéia deste seu espaço já em si fenomenal. Mas quando nós percebemos que uma pequena gota no oceano pode fazer sim, toda a diferença, e quando ela, de repente, começa a aumentar de dimensões e fazer rebuliços no mar e, mais além, começa a ensaiar uma onda... quem sabe não é prelúdio de tempestade? Com sua pequena iniciativa, quantos mares não podem ser descolados de lugar? Os fenômenos que realmente fazem diferença no universo começam assim. E, depois, são responsáveis por dividir o mundo. Depois deles, nada fica no lugar e pode ser o mesmo. Parabéns e espero que continue provocando esses pequenos vendavais. E, quem sabe (e estou totalmente com você nesse aspecto), de simples em simples (pelo menos para alguns) indisposições climáticas, nós não transformamos de vez a realidade?
Abraços,

Eric disse...

Como é bom ter exemplos positivos da educação ainda sendo instrumento para o Desenvolvimento Humano.

Fiquei emocionado e orgulhoso de vc, amigo, da professora e dos educandos baianos.

Vamos disseminar esse exemplo e agregar outros tão quão positivos.

Abração!

PABLO ROBLES disse...

Transcrevo para cá o comentário de uma amiga recebido por e-mail, que revisitou com a ajuda da crônica algumas alegrias escolares de sua formação :)

Pablo,
Adorei a cronica e o trabalho feito pela professora Selma. Precisamos ter mais professores e escolas que formem pessoas, cidadão e não penas rôbores para passar no vestibular. Eu e meu irmão tivemos a felicidade de estudar com professores e no colégio que nos preparou para Vida - O Marista Cearense. Que saudades das aulas de arte, teatro, semana cultura, feira de ciências, passeios a Maranguape, da missa as quintas enfim que saudade de um passado que me formou para o futuro. Hoje sinto que sou uma pessoa comum, mas diferente no sentido de ver a vida e vive -la. Embora a razão precise muitas vezes guiar nosso passos, me dou ao luxo de sonhas, de ir e chorar se assim me der vontade.
Obrigada por me lembrar do meu passado.
E aqui vai a minha homenagem a tantos educadores que passaram em minha vida:Irmão Urbano, Professor e tio Anchieta (in memorium) Professora Francinete, Professora Cansundé, Prof Cleister,Prof Assis (in memorium), e tantos outros que fizeram a historia do nosso querido Cearense.
Um abraço faterno

PABLO ROBLES disse...

Grande Kilvia,

Que honra de um blogueiro em receber um comentário tão estimulante e transbordante de inspiração. Sintoma inegável de suas habilidades comunicativas...

Pois é, amiga, ser alguém é diferente de não ser ninguém. E se somos alguém, somos sujeitos de alguma mudança, portadores de alguma mensagem, peregrinos de alguma missão (ainda que não saibamos o enredo e conheçamos os personagens)

...a serviço de um mundo sempre melhor!!!

Saudações fraternais!

Selma disse...

Olá, Sou Selma Mascarenhas, professora da rede pública do estado da Bahia. Ao passar o filme "O Óleo de Lorenzo" para a turma do 3º ano do Ensino médio, percebi o interesse sobre a tématica do mesmo, por isso resolvi trabalhar de forma diferente. Na sala, discutíamos sobre a mensagem de vida transmitida pelo filme. E com isso, os alunos fizeram, oralmente e por escrito, resumos da obra,resenhas e análise crítica. Ao pesquisar na internet algo sobre filmes encontrei esse blog e o achei interessante, por isso resolvi publicar o que tínhamos trabalhado em sala. Levei essa turma- as outras trabalham com o orkut-Comunidade de Língua Portuguesa-para visitar o blog, ler as sinopses e reescreverem as resenhas já feitas em sala. Não imaginávamos que seríamos tão bem recebidos no mundo virtual e fico realmente feliz em saber que outros podem aproveitar o exemplo e trabalhar com suas turmas. O resultado foi gratificante, os alunos gostaram muito dessa atividade. O meu objetivo maior era fazê-los refletir sobre a vida, tornando-os críticos, persitentes, e lutadores.
Parabéns a você que idealizou este blog, eu já selecionei outros itens para trabalhar com outras turmas, e certamente plantaremos uma sementinha que dará algum dia frutos.

PABLO ROBLES disse...

Oi, Selma (e demais leitores)

Esta homenagem, enriquecida com seu depoimento, foi continuada e amplida em outra crônica minha neste blog: "Abram Alas para a Professora Selma"

Saudações solidárias aqui do Ceará!!!