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terça-feira, 2 de agosto de 2011
MENÇÃO HONROSA: "Abraça-me Enquanto Vives"
ABRAÇA-ME ENQUANTO VIVES
Tanta imensidão no espaço
E a gente querendo abraço.
Tanta tecnologia a nos conectar,
Mas a sede de humanidade continua.
A amizade sempre a nos aproximar,
Integrando o povo desabrigado da rua.
Montamos tantos planos mirabolantes,
Adiando ou reprimindo pequenos gestos;
Economizamos até o simples aperto de mão!
Mal sabemos que vamos ficando distantes
Da essência mesma que nos faz repletos
Do amor desinteressado e sem ilusão.
Abraçar é cumprimentar a alma do próximo,
Renovando o sorriso embotado pela correria.
Os corpos não podem prescindir dessa energia
Tão gratuita, tão universal, tão saudável, tão boa.
Quem abraça distribui sempre algum carinho;
Planta sempre algum amor no coração vizinho;
Compartilha sempre algum pedaço de alegria,
Impedindo que a vida seja tocada pela apatia.
Tanta imensidão no espaço
E a gente querendo abraço.
Mundo veloz, tempo caro, contatos formais,
Mas ninguém quer se manter no isolamento.
Nossa vocação é unir, multiplicar, ajudar, amar,
Abraçando inclusive quem sequer tem alimento.
A arte também necessita abraçar o imponderável:
Cada poema é um abraço entre olhares sensíveis;
Cada rima é uma parceria entre palavras amigas,
Entrelaçadas pela incrível internet do indizível.
Em tempos difíceis de individualismo e competição,
Abraçar constitui o remédio mais potente e eficaz,
Derrubando os muros da indiferença e da exclusão
Para dar espaço à humanidade deixada para trás.
POETA DO SOCIAL (pablodosocial@gmail.com)
OBS.: Poesia selecionada entre as 100 melhores no I Concurso Literário das Farmácias Pague Menos, dedicado à temática do abraço e que recebeu mais de 3.000 inscrições de todo o Brasil. Fui homenageado com Menção Honrosa e a co-autoria na publicação desta coletânia, disponibilizada para download no link: http://portal.paguemenos.com.br/concursoliterario/
DEDICO ESTA HOMENAGEM A TODAS AS PESSOAS SENSÍVEIS QUE JÁ ABRACEI E ABRAÇAREI NA VIDA.
(Fortaleza, Ceará – em 29/05/2011)
PS.: Parafraseando Renato Russo na canção Monte Castelo, "sem poesia eu nada seria" (PR)
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segunda-feira, 9 de agosto de 2010
CONTO: A Experiência da Convivência
De repente ela (re)apareceu. Dessa vez em toda sua essência e eloqüência. Seu instinto de sobrevivência estava ferido. A gaiola familiar estava sufocando a Lanny. A relação mãe e filha estava estremecida, o suficiente para ela querer fugir, voar, partir. Por um acaso da vida, o lar de Querque foi lembrado, consultado e indicado. Querque empreendeu esse passo há um ano atrás. As motivações pessoais mudam, mas muitos dramas familiares se repetem.
Em menos de 24 horas, Lanny e Querque se encontraram e conversaram longamente sobre suas histórias, seus anseios, receios... A proposta era inédita e intrigante para ambos: dividirem o lar do Querque por algum tempo, enquanto Lanny reorganizava a sua vida, desde que longe da órbita doméstica em torno da qual girara até então. Entre o almoço num restaurante e a cerveja num bar, o rapaz de 30 anos apresentou à moça de 22 anos sua simples quitinete.
Se ela topasse morar algumas semanas ali, teria que se despir de eventuais frescuras, que poderiam esbarrar, de cara, na arquitetura e aparelhagem do lugar: vão único e sem televisão. Mas havia atrativos: dois quarteirões da faculdade dela e custo de moradia bem camarada. A grande questão que os preocupava, no entanto, dizia respeito à privacidade deles caso assumissem o risco inesperado dessa experiência teoricamente gratificante.
Experiência interessante, bacana, quase mística; pensaria um empolgado Querque. Experiência emergencial, emancipatória, praticamente irreversível; ponderaria uma confusa Lanny. Impossível que decisão tão conseqüente viesse a ser tomada logo. Coube então aos próximos dias diminuir o entusiasmo do homem e aumentar a segurança da mulher. Uma semana depois, independentemente do desfecho dessa sensível negociação, uma certeza começava a se esboçar entre os dois: um passaria a morar dentro das lembranças do outro.
Tornaram-se bons amigos, companheiros imprevisíveis de uma cumplicidade sem medos, sem pudores, sem lacunas. Como conseguiriam dormir sob o mesmo teto sem nenhum vínculo anterior de relacionamento interpessoal? Antes que uma amiga comum de Querque e Lanny os colocasse em contato telefônico e os encorajasse a interagirem, o rapaz só havia visto a moça uma vez, em menos de um mês atrás e de uma forma bem ligeira, algo protocolar.
Assim é a vida, essa desplanejada e imprevisível chama que anima e contorna as trajetórias retilíneas, curvilíneas e circulares da humanidade. Em busca angustiada por um novo eixo que pudesse - mediante uma nova moradia, convivência e rotina - dar um rumo solidário e transitório à sua vida de mulher independente em gestação, Lanny encontrou em Querque uma oportunidade inicial de “libertação”, um convite explícito para uma espécie de recomeço, ou melhor, para a execução de um novo ciclo na biografia da garota, cuja energia pulsante se incompatibilizara com os padrões incompreensivos e repressores do lar em que crescera.
Querque se viu de repente agitado por uma súbita idéia. Uma proposta típica dos enredos de cinema e que mereceria no mínimo um conto. Os bastidores e desdobramentos da história estarão agora reservados ao universo real destas duas personagens. O destino adora pregar peça em suas vítimas. As pessoas geralmente levam anos para edificar sólidos laços. Essa travessia, por força das circunstâncias intermediadas pela amiga comum, acabou sendo conduzida em um intervalo mínimo de tempo. Dividindo ou não o mesmo território geográfico, nenhum abismo humano, doravante, deveria separar a ponte que o universo estendeu entre Lanny e Querque.
Em menos de 24 horas, Lanny e Querque se encontraram e conversaram longamente sobre suas histórias, seus anseios, receios... A proposta era inédita e intrigante para ambos: dividirem o lar do Querque por algum tempo, enquanto Lanny reorganizava a sua vida, desde que longe da órbita doméstica em torno da qual girara até então. Entre o almoço num restaurante e a cerveja num bar, o rapaz de 30 anos apresentou à moça de 22 anos sua simples quitinete.
Se ela topasse morar algumas semanas ali, teria que se despir de eventuais frescuras, que poderiam esbarrar, de cara, na arquitetura e aparelhagem do lugar: vão único e sem televisão. Mas havia atrativos: dois quarteirões da faculdade dela e custo de moradia bem camarada. A grande questão que os preocupava, no entanto, dizia respeito à privacidade deles caso assumissem o risco inesperado dessa experiência teoricamente gratificante.
Experiência interessante, bacana, quase mística; pensaria um empolgado Querque. Experiência emergencial, emancipatória, praticamente irreversível; ponderaria uma confusa Lanny. Impossível que decisão tão conseqüente viesse a ser tomada logo. Coube então aos próximos dias diminuir o entusiasmo do homem e aumentar a segurança da mulher. Uma semana depois, independentemente do desfecho dessa sensível negociação, uma certeza começava a se esboçar entre os dois: um passaria a morar dentro das lembranças do outro.
Tornaram-se bons amigos, companheiros imprevisíveis de uma cumplicidade sem medos, sem pudores, sem lacunas. Como conseguiriam dormir sob o mesmo teto sem nenhum vínculo anterior de relacionamento interpessoal? Antes que uma amiga comum de Querque e Lanny os colocasse em contato telefônico e os encorajasse a interagirem, o rapaz só havia visto a moça uma vez, em menos de um mês atrás e de uma forma bem ligeira, algo protocolar.
Assim é a vida, essa desplanejada e imprevisível chama que anima e contorna as trajetórias retilíneas, curvilíneas e circulares da humanidade. Em busca angustiada por um novo eixo que pudesse - mediante uma nova moradia, convivência e rotina - dar um rumo solidário e transitório à sua vida de mulher independente em gestação, Lanny encontrou em Querque uma oportunidade inicial de “libertação”, um convite explícito para uma espécie de recomeço, ou melhor, para a execução de um novo ciclo na biografia da garota, cuja energia pulsante se incompatibilizara com os padrões incompreensivos e repressores do lar em que crescera.
Querque se viu de repente agitado por uma súbita idéia. Uma proposta típica dos enredos de cinema e que mereceria no mínimo um conto. Os bastidores e desdobramentos da história estarão agora reservados ao universo real destas duas personagens. O destino adora pregar peça em suas vítimas. As pessoas geralmente levam anos para edificar sólidos laços. Essa travessia, por força das circunstâncias intermediadas pela amiga comum, acabou sendo conduzida em um intervalo mínimo de tempo. Dividindo ou não o mesmo território geográfico, nenhum abismo humano, doravante, deveria separar a ponte que o universo estendeu entre Lanny e Querque.
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sábado, 12 de dezembro de 2009
Uma literária possibilidade real
De repente ela apareceu para ele. Ou vice-versa. Passaram a existir um para o outro. Os nomes principais dos dois cabem numa mesma quantidade de letras. Embora também identificados pela mesma idade, apresentam mundos necessariamente diferentes. Na verdade únicos, pois a singularidade sem limites da espécie humana não admite cópias.
Meia hora depois que se falaram à distância, ele se põe a ouvir a voz dela por telefone. O timbre um pouco ansioso dele foi dissolvido pela candura infantil exalada no outro lado da linha. Rápida no gatilho, acionado pela troca de mensagens via celular, ela vai ao encontro dele, de modo que um dia depois, no palco convidativo de uma praça, as personagens começavam a se revelar, se descobrir, se medir.
As impressões iniciais entre os dois se confrontam e se ajustam, mas possivelmente um segundo encontro será necessário para que as imagens que um está metabolizando sobre o outro se tornem mais nítidas e reveladoras. Enfim, não tardará para que o clima de estranhamento ganhe personalidade e seja nocauteado pela espontaneidade.
O que falaram quando se sentaram juntos pela primeira vez? Certamente priorizaram temas mais objetivos: estudos, trabalho, famílias, afazeres, namoros anteriores. Afinal de contas, a subjetividade precisa de mais tempo para ser desembrulhada. Palavras subtraídas por silêncios. Silêncios sacudidos por palavras. Dialética essa realçada por gestos denunciadores e testemunhada por olhares avaliadores.
O tempo dessa vez não foi generoso para esse par experimental de amigos, pois já estava tarde e tiveram que se apressar. Voltaram saboreando sorvetes, ao mesmo tempo em que degustavam suas preferências musicais e literárias. E assim despediram-se. Por enquanto ou para sempre? Ainda é muito cedo para um palpite razoável. Dormiram, sonharam e acordaram embalados por uma miríade consciente e inconsciente de incertezas.
Já não seria surpresa informar que ele e ela estavam solteiros, o que significa dizer que o magnetismo da esperança, no sentido afetivo do termo, desde o princípio os unira. Mas tal expectativa não foi administrada de forma idêntica: ele, mais idealista e decididamente mais explícito em seus anseios; ela, mais realista e sobretudo implícita em suas intenções. A empolgação do homem foi neutralizada pela cautela da mulher.
Quem é ele? Quem é ela? Por que não outro? Por que não outra? Dúvidas, naturalmente, dominavam os primeiros passos de destinos imprevisíveis e talvez conciliáveis. O fato é que o convite do amanhã houvera sido feito. Era uma vez uma possibilidade fecundada pelo tempo presente de ambos, nublado pelo desconhecimento quase total de seus passados.
Mereciam avançar, vencer eventuais medos e lançar os dados da sorte? O desafio do novo é a resistência do antigo. O risco é o ingrediente inevitável da felicidade. Sem a cor poética e democrática do mistério, o futuro não seria tão colorido e belo. Ela e ele, jovens já moldados pelas responsabilidades adultas, não embarcariam em armadilhas efêmeras.
Estariam habilitados a partilhar um mesmo horizonte, nem que fosse apenas durante uma estação, uma espécie de estágio probatório? Esta moça e este jovem beirando os trinta anos aprovariam o processo de metamorfose que seus mundos afetivos teriam que passar? Ou tudo não passaria de ilusões perdidas? Uma legião de dilemas tão agitados como a rotina urbana rondava o labirinto de suas mentes - ou, melhor dizendo, corações.
Estariam dispostos a sincronizar seus sorrisos e deslizarem algumas lágrimas nas mãos um do outro? Saberiam inventar carícias e colecionar emoções para o acervo de suas almas? Ou não! Alguma incompatibilidade, preconceito ou insensibilidade cortaria, sem paciência e sem piedade, as asas da esperança deste casal em potencial?
Há momentos em que a ficção literária confunde-se com a realidade da vida, como se um movimento atraísse o outro para virarem sinônimos. Caberão aos protagonistas anônimos deste breve conto, baseado a propósito numa cena verídica e bem recente, escolherem o desfecho que julgarem mais apropriados. No entanto, se ambos enxergarem nos próximos dias e conversas um atalho comum e convergente dentro de si mesmos, a vida, em vez de se contentar imitando a arte, poderá efetivamente transcendê-la.
Assim sendo, para a alegria dos leitores que acreditam na humanidade do amor (visto que sua essência original tem algo de divino e imponderável), um conto aparentemente sem pretensão poderá, nos bastidores da blogosfera, dar as boas-vindas para um romance autêntico, maduro, promissor e apaixonadamente real.
Meia hora depois que se falaram à distância, ele se põe a ouvir a voz dela por telefone. O timbre um pouco ansioso dele foi dissolvido pela candura infantil exalada no outro lado da linha. Rápida no gatilho, acionado pela troca de mensagens via celular, ela vai ao encontro dele, de modo que um dia depois, no palco convidativo de uma praça, as personagens começavam a se revelar, se descobrir, se medir.
As impressões iniciais entre os dois se confrontam e se ajustam, mas possivelmente um segundo encontro será necessário para que as imagens que um está metabolizando sobre o outro se tornem mais nítidas e reveladoras. Enfim, não tardará para que o clima de estranhamento ganhe personalidade e seja nocauteado pela espontaneidade.
O que falaram quando se sentaram juntos pela primeira vez? Certamente priorizaram temas mais objetivos: estudos, trabalho, famílias, afazeres, namoros anteriores. Afinal de contas, a subjetividade precisa de mais tempo para ser desembrulhada. Palavras subtraídas por silêncios. Silêncios sacudidos por palavras. Dialética essa realçada por gestos denunciadores e testemunhada por olhares avaliadores.
O tempo dessa vez não foi generoso para esse par experimental de amigos, pois já estava tarde e tiveram que se apressar. Voltaram saboreando sorvetes, ao mesmo tempo em que degustavam suas preferências musicais e literárias. E assim despediram-se. Por enquanto ou para sempre? Ainda é muito cedo para um palpite razoável. Dormiram, sonharam e acordaram embalados por uma miríade consciente e inconsciente de incertezas.
Já não seria surpresa informar que ele e ela estavam solteiros, o que significa dizer que o magnetismo da esperança, no sentido afetivo do termo, desde o princípio os unira. Mas tal expectativa não foi administrada de forma idêntica: ele, mais idealista e decididamente mais explícito em seus anseios; ela, mais realista e sobretudo implícita em suas intenções. A empolgação do homem foi neutralizada pela cautela da mulher.
Quem é ele? Quem é ela? Por que não outro? Por que não outra? Dúvidas, naturalmente, dominavam os primeiros passos de destinos imprevisíveis e talvez conciliáveis. O fato é que o convite do amanhã houvera sido feito. Era uma vez uma possibilidade fecundada pelo tempo presente de ambos, nublado pelo desconhecimento quase total de seus passados.
Mereciam avançar, vencer eventuais medos e lançar os dados da sorte? O desafio do novo é a resistência do antigo. O risco é o ingrediente inevitável da felicidade. Sem a cor poética e democrática do mistério, o futuro não seria tão colorido e belo. Ela e ele, jovens já moldados pelas responsabilidades adultas, não embarcariam em armadilhas efêmeras.
Estariam habilitados a partilhar um mesmo horizonte, nem que fosse apenas durante uma estação, uma espécie de estágio probatório? Esta moça e este jovem beirando os trinta anos aprovariam o processo de metamorfose que seus mundos afetivos teriam que passar? Ou tudo não passaria de ilusões perdidas? Uma legião de dilemas tão agitados como a rotina urbana rondava o labirinto de suas mentes - ou, melhor dizendo, corações.
Estariam dispostos a sincronizar seus sorrisos e deslizarem algumas lágrimas nas mãos um do outro? Saberiam inventar carícias e colecionar emoções para o acervo de suas almas? Ou não! Alguma incompatibilidade, preconceito ou insensibilidade cortaria, sem paciência e sem piedade, as asas da esperança deste casal em potencial?
Há momentos em que a ficção literária confunde-se com a realidade da vida, como se um movimento atraísse o outro para virarem sinônimos. Caberão aos protagonistas anônimos deste breve conto, baseado a propósito numa cena verídica e bem recente, escolherem o desfecho que julgarem mais apropriados. No entanto, se ambos enxergarem nos próximos dias e conversas um atalho comum e convergente dentro de si mesmos, a vida, em vez de se contentar imitando a arte, poderá efetivamente transcendê-la.
Assim sendo, para a alegria dos leitores que acreditam na humanidade do amor (visto que sua essência original tem algo de divino e imponderável), um conto aparentemente sem pretensão poderá, nos bastidores da blogosfera, dar as boas-vindas para um romance autêntico, maduro, promissor e apaixonadamente real.
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quarta-feira, 29 de julho de 2009
O voo grandioso de Patativa
Segue fichamento de um interessante texto sobre o grande poeta Patativa, elaborado como exercício da disciplina de Produção e Compreensão Textual de minha graduação em Ciências Sociais, ministrada pelas professoras Tércia Montenegro e Lavínia.
Percebam os impulsos sociais embutidos na veia poética de Patativa do Assaré!
FICHAMENTO DE TEXTO SOBRE PATATIVA DO ASSARÉ
TEXTO-BASE: JUNIOR, Gonçalo. O vôo de Patativa do Assaré. Revista Pesquisa Fapesp. São Paulo, edição 158, abril 2009. Disponível em: www.revistapesquisafapesp.br
Nascido no município cearense de Assaré, Antônio Gonçalves da Silva ganhou o pseudônimo de Patativa aos 20 anos “porque sua poesia era comparável à beleza do canto dessa ave”. Perdeu o pai cedo e teve que trabalhar como agricultor aos 8 anos, só podendo freqüentar a escola aos 12, alfabetizando-se em poucos meses.
Foi poeta popular, compositor, cantor e improvisador. É considerado o maior poeta nordestino do século XX. Possuía prodigiosa memória poética e sua obra é banhada de sabedoria popular. “Não por acaso, recebeu diversas premiações, títulos e homenagens – foi cinco vezes nomeado doutor honoris causa”.
Tornou-se conhecido com o poema A triste partida, composto em 1958 e gravado em 1964 por Luiz Gonzaga. A letra aborda a migração causada pela seca e “se tornou um marco da música popular brasileira” por conter ousadias como a presença de 19 estrofes e ter sido gravada em múltiplos canais, “como se fosse ao vivo”.
“Essa gravação inspirou Cláudio Henrique Sales de Andrade a defender na USP o doutorado Aspectos e impasses da poesia de Patativa do Assaré. Cursou Letras nessa universidade e também fez mestrado sobre o poeta. Ele trabalhou na cidade do poeta e freqüentou sua casa por dois anos.
O doutorado empreendeu quatro passos: “mapeamento formal de sua obra”; descrição da “diferença de sua poesia para com a tradição que o formou”; identificação das vertentes culta e popular; e estudo da “dialética entre modernização e tradicionalismo”. Andrade “detectou inúmeros erros em todas as edições das obras do poeta”.
O estudioso justifica a relevância e originalidade de Patativa: “ele mantém viva e atualizada uma poesia de raízes populares, nutrida no regime da oralidade, mas amplifica os limites temáticos e formais dessas tradições ao acrescentar um forte componente autoral e um refinado lirismo, além de uma atitude reflexiva pouco usual”.
“Crítico das formas de dominação paternalistas”, Patativa desmistifica a idéia de progresso e suas contradições, sendo “ao mesmo tempo capaz de resgatar e divulgar a poesia e o humanismo inerentes aos modos de vida arcaico e tradicional”. Essa perspectiva, segundo Andrade, ilustra “a riqueza do ponto de vista do poeta”.
Patativa não deve ser considerado um autor de cordel, pois só produziu três poemas nesse gênero. “Sua obra se divide em três vertentes: lírica, narrativa e reflexiva”. Sua poesia expressa dois registros lingüísticos: o português popular e a norma culta.
O poeta “foi um atualizador do esquema dualista da peleja poética dos desafios de cantadores (...), criando vários poemas em que dá voz a dois pontos de vista distintos e em oposição”. Também foi um grande sonetista e musicou alguns poemas.
Andrade selecionou e estudou três sonetos do poeta com o objetivo de “apreender a singularidade da produção de Patativa, compreender a natureza e delimitar os contornos de sua poética”. Com isso, o estudioso verificou que a riqueza temática, simbólica e estilística de sua poesia vai muito além do status de poesia sertaneja.
Patativa, “além de uma formação fundamentada nas poéticas da oralidade”, interessou-se por poetas cultos como Camões, Castro Alves, Casimiro de Abreu, Olavo Bilac e Gregório de Matos, demonstrando particular afinidade com este último, devido seu espírito de sátira e o uso da métrica decassílaba, típica dos repentistas.
Sua poesia contém ainda traços de lirismo e “uma abertura para temas universais e mais abstratos” (a exemplo dos direitos humanos). Ademais, chegou a elaborar “uma poesia mais reflexiva, não narrativa, em que o poeta toma distância e enuncia avaliações e juízos críticos sobre as questões sociais”.
Andrade, por fim, revela que “a obra de Patativa ainda espera por reconhecimento dos grandes centros do Sudeste brasileiro”. Mas tal interesse vem aumentando bastante.
Percebam os impulsos sociais embutidos na veia poética de Patativa do Assaré!
FICHAMENTO DE TEXTO SOBRE PATATIVA DO ASSARÉ
TEXTO-BASE: JUNIOR, Gonçalo. O vôo de Patativa do Assaré. Revista Pesquisa Fapesp. São Paulo, edição 158, abril 2009. Disponível em: www.revistapesquisafapesp.br
Nascido no município cearense de Assaré, Antônio Gonçalves da Silva ganhou o pseudônimo de Patativa aos 20 anos “porque sua poesia era comparável à beleza do canto dessa ave”. Perdeu o pai cedo e teve que trabalhar como agricultor aos 8 anos, só podendo freqüentar a escola aos 12, alfabetizando-se em poucos meses.
Foi poeta popular, compositor, cantor e improvisador. É considerado o maior poeta nordestino do século XX. Possuía prodigiosa memória poética e sua obra é banhada de sabedoria popular. “Não por acaso, recebeu diversas premiações, títulos e homenagens – foi cinco vezes nomeado doutor honoris causa”.
Tornou-se conhecido com o poema A triste partida, composto em 1958 e gravado em 1964 por Luiz Gonzaga. A letra aborda a migração causada pela seca e “se tornou um marco da música popular brasileira” por conter ousadias como a presença de 19 estrofes e ter sido gravada em múltiplos canais, “como se fosse ao vivo”.
“Essa gravação inspirou Cláudio Henrique Sales de Andrade a defender na USP o doutorado Aspectos e impasses da poesia de Patativa do Assaré. Cursou Letras nessa universidade e também fez mestrado sobre o poeta. Ele trabalhou na cidade do poeta e freqüentou sua casa por dois anos.
O doutorado empreendeu quatro passos: “mapeamento formal de sua obra”; descrição da “diferença de sua poesia para com a tradição que o formou”; identificação das vertentes culta e popular; e estudo da “dialética entre modernização e tradicionalismo”. Andrade “detectou inúmeros erros em todas as edições das obras do poeta”.
O estudioso justifica a relevância e originalidade de Patativa: “ele mantém viva e atualizada uma poesia de raízes populares, nutrida no regime da oralidade, mas amplifica os limites temáticos e formais dessas tradições ao acrescentar um forte componente autoral e um refinado lirismo, além de uma atitude reflexiva pouco usual”.
“Crítico das formas de dominação paternalistas”, Patativa desmistifica a idéia de progresso e suas contradições, sendo “ao mesmo tempo capaz de resgatar e divulgar a poesia e o humanismo inerentes aos modos de vida arcaico e tradicional”. Essa perspectiva, segundo Andrade, ilustra “a riqueza do ponto de vista do poeta”.
Patativa não deve ser considerado um autor de cordel, pois só produziu três poemas nesse gênero. “Sua obra se divide em três vertentes: lírica, narrativa e reflexiva”. Sua poesia expressa dois registros lingüísticos: o português popular e a norma culta.
O poeta “foi um atualizador do esquema dualista da peleja poética dos desafios de cantadores (...), criando vários poemas em que dá voz a dois pontos de vista distintos e em oposição”. Também foi um grande sonetista e musicou alguns poemas.
Andrade selecionou e estudou três sonetos do poeta com o objetivo de “apreender a singularidade da produção de Patativa, compreender a natureza e delimitar os contornos de sua poética”. Com isso, o estudioso verificou que a riqueza temática, simbólica e estilística de sua poesia vai muito além do status de poesia sertaneja.
Patativa, “além de uma formação fundamentada nas poéticas da oralidade”, interessou-se por poetas cultos como Camões, Castro Alves, Casimiro de Abreu, Olavo Bilac e Gregório de Matos, demonstrando particular afinidade com este último, devido seu espírito de sátira e o uso da métrica decassílaba, típica dos repentistas.
Sua poesia contém ainda traços de lirismo e “uma abertura para temas universais e mais abstratos” (a exemplo dos direitos humanos). Ademais, chegou a elaborar “uma poesia mais reflexiva, não narrativa, em que o poeta toma distância e enuncia avaliações e juízos críticos sobre as questões sociais”.
Andrade, por fim, revela que “a obra de Patativa ainda espera por reconhecimento dos grandes centros do Sudeste brasileiro”. Mas tal interesse vem aumentando bastante.
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sábado, 16 de maio de 2009
Assim estamos com o mito Obama
Assim estamos com o mito Obama
Passados os cem dias iniciais de Obama na Casa Branca e enquanto o espetáculo da gripe suína despontava, negociações sujas de lama começaram a mostrar melhor o cheiro do caráter de Obama: verniz progressista de pop-star com essência mais conservadora que o mundo pensava.
Não é à toa que no começo do mês mais de 100 civis do Afeganistão foram atingidos pelo “espirro” letal dos bombardeiros americanos. Para que autorizar os soldados norte-americanos a combaterem na lama, no chão a chão? Só se fosse para arriscarem morrer ou pelo menos arranharem os broches do Obama que alguns iludidos devem ostentar em suas fardas.
Vamos acompanhar a metamorfose ambulante do sujeito político mais poderoso do planeta, tomando emprestado notícias publicadas na internet pela Folha de S. Paulo:
Era uma vez (em 27/01/2009)
"Após Guantánamo, Obama terá de lidar com prisão no Afeganistão"
“Bastaram 48 horas na Casa Branca para que o novo presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, ordenasse o fechamento do polêmico centro de detenção da base militar americana em Guantánamo”
Perceberam o entusiasmo da matéria que futuramente se revelaria etérea?
(mas então...)
Não muito tempo depois (em 15/05/2009)
“Obama anuncia manutenção dos tribunais para suspeitos de terrorismo”
Percebam que, como informa essa mesma matéria, o mito Obama se desfez duas vezes em uma única semana, para o desespero dos crédulos de todas as democracias:
“Esta é a segunda decisão controversa de Obama em menos de uma semana. O presidente rejeitou a divulgação das fotos de torturas cometidas por agentes americanos contra prisioneiros no Iraque e Afeganistão alegando que as imagens colocam em risco os soldados americanos.”
O que podemos aprender com essa frustrante notícia?
Lanço uma hipótese pedagógica:
Obama, ao decidir manter os tribunais criminosos, parece que não leu nem o prefácio do livro do jornalista e escritor uruguaio Eduardo Galeano (Veias abertas da América Latina), entregue pessoalmente por Hugo Chavez no encontro de Cúpula das Américas em Trinidad e Tobago.
As veias mudaram (em grande parte) de endereço e agora o sangue do imperialismo vaza das artérias do Afeganistão, como vimos, e também das tubulações desumanas do Iraque, onde os atentados pipocam tão corriqueiramente que a mídia ocidental ou esquece vez por outra de noticiá-los ou já deve estar enjoada de tanto mostrá-los.
Pois bem - voltando a falar de literatura - não faltaram ilustres escritores que, embarcando no sedutor otimismo falsamente inspirado por Obama, reforçassem a dica venezuelana, como foi o caso de José Saramago:
"Agora só nos falta ver como aproveitará Barack Obama a leitura das veias abertas. Bom aluno parece ser", conclui o Nobel português.
Ah, entendi... acho que matei a charada: os “professores pragmáticos” (leia-se assessores) de Obama negaram-lhe a oportunidade de ler previamente o livro Ensaio sobre a cegueira, de Saramago, pré-requisito indispensável para tornar o pop-star menos míope.
E por ter a honra de mencionar o Galeano, despeço-me com as palavras afiadas dele, mil vezes mais precisa do que a pontaria daqueles disparos no Afeganistão:
"Os cinco principais fabricantes de armas são os encarregados da paz do mundo... Assim estamos! [inclusive com o mito Obama, acrescentaria eu]".
Passados os cem dias iniciais de Obama na Casa Branca e enquanto o espetáculo da gripe suína despontava, negociações sujas de lama começaram a mostrar melhor o cheiro do caráter de Obama: verniz progressista de pop-star com essência mais conservadora que o mundo pensava.
Não é à toa que no começo do mês mais de 100 civis do Afeganistão foram atingidos pelo “espirro” letal dos bombardeiros americanos. Para que autorizar os soldados norte-americanos a combaterem na lama, no chão a chão? Só se fosse para arriscarem morrer ou pelo menos arranharem os broches do Obama que alguns iludidos devem ostentar em suas fardas.
Vamos acompanhar a metamorfose ambulante do sujeito político mais poderoso do planeta, tomando emprestado notícias publicadas na internet pela Folha de S. Paulo:
Era uma vez (em 27/01/2009)
"Após Guantánamo, Obama terá de lidar com prisão no Afeganistão"
“Bastaram 48 horas na Casa Branca para que o novo presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, ordenasse o fechamento do polêmico centro de detenção da base militar americana em Guantánamo”
Perceberam o entusiasmo da matéria que futuramente se revelaria etérea?
(mas então...)
Não muito tempo depois (em 15/05/2009)
“Obama anuncia manutenção dos tribunais para suspeitos de terrorismo”
Percebam que, como informa essa mesma matéria, o mito Obama se desfez duas vezes em uma única semana, para o desespero dos crédulos de todas as democracias:
“Esta é a segunda decisão controversa de Obama em menos de uma semana. O presidente rejeitou a divulgação das fotos de torturas cometidas por agentes americanos contra prisioneiros no Iraque e Afeganistão alegando que as imagens colocam em risco os soldados americanos.”
O que podemos aprender com essa frustrante notícia?
Lanço uma hipótese pedagógica:
Obama, ao decidir manter os tribunais criminosos, parece que não leu nem o prefácio do livro do jornalista e escritor uruguaio Eduardo Galeano (Veias abertas da América Latina), entregue pessoalmente por Hugo Chavez no encontro de Cúpula das Américas em Trinidad e Tobago.
As veias mudaram (em grande parte) de endereço e agora o sangue do imperialismo vaza das artérias do Afeganistão, como vimos, e também das tubulações desumanas do Iraque, onde os atentados pipocam tão corriqueiramente que a mídia ocidental ou esquece vez por outra de noticiá-los ou já deve estar enjoada de tanto mostrá-los.
Pois bem - voltando a falar de literatura - não faltaram ilustres escritores que, embarcando no sedutor otimismo falsamente inspirado por Obama, reforçassem a dica venezuelana, como foi o caso de José Saramago:
"Agora só nos falta ver como aproveitará Barack Obama a leitura das veias abertas. Bom aluno parece ser", conclui o Nobel português.
Ah, entendi... acho que matei a charada: os “professores pragmáticos” (leia-se assessores) de Obama negaram-lhe a oportunidade de ler previamente o livro Ensaio sobre a cegueira, de Saramago, pré-requisito indispensável para tornar o pop-star menos míope.
E por ter a honra de mencionar o Galeano, despeço-me com as palavras afiadas dele, mil vezes mais precisa do que a pontaria daqueles disparos no Afeganistão:
"Os cinco principais fabricantes de armas são os encarregados da paz do mundo... Assim estamos! [inclusive com o mito Obama, acrescentaria eu]".
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domingo, 26 de abril de 2009
Iniciativas e Livros que Fazem Diferença

O ser humano, mesmo quando economicamente carente, não perde (necessariamente) sua fome de leitura. Talvez, através do mundo mágico da leitura, tais pedientes possam descobrir emoções novas, ausentes na vida real; e confidenciar sorrisos íntimos para sua alma, tão digna de alimento cultural quanto qualquer outro par da espécie humana.
(Iniciativa aplaudida pelo Grito Pacífico, mudando o mundo com você)
VALE MAIS QUE UM TROCADO
Por Rodrigo Ratier
FONTE: http://revistaescola.abril.uol.com.br/gestao-escolar/diretor/vale-mais-trocado-432764.shtml
"É preciso saber viver..."
Ambulantes, pedintes e moradores de rua não esperam só por dinheiro dos motoristas parados no sinal vermelho. Sem pagar pra ver, eu vi.
CAMINHO LIVRE: A cada livro oferecido em vez de esmola, um leitor descoberto.
"Dinheiro eu não tenho, mas estou aqui com uma caixa cheia de livros. Quer um?" Repeti essa oferta a pedintes, artistas circenses e vendedores ambulantes, pessoas de todas as idades que fazem dos congestionamentos da cidade de São Paulo o cenário de seu ganha-pão. A ideia surgiu de uma combinação com os colegas de NOVA ESCOLA: em vez de dinheiro, eu ofereceria um livro a quem me abordasse - e conferiria as reações.
Para começar, acomodei 45 obras variadas - do clássico Auto da Barca do Inferno, escrito por Gil Vicente, ao infantil divertidíssimo Divina Albertina, da contemporânea Christine Davenier - em uma caixa de papelão no banco do carona de meu Palio preto. Tudo pronto, hora de rodar. Em 13 oferecimentos, nenhuma recusa. E houve gente que pediu mais.
Nas ruas, tem de tudo. Diferentemente do que se pode pensar, a maioria dessas pessoas tem, sim, alguma formação escolar. Uma pesquisa do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, realizada só com moradores de rua e divulgada em 2008, revelou que apenas 15% nunca estudaram. Como 74% afirmam ter sido alfabetizados, não é exagero dizer que as vias públicas são um terreno fértil para a leitura. Notei até certa familiaridade com o tema. No primeiro dia, num cruzamento do Itaim, um bairro nobre, encontrei Vitor*, 20 anos, vendedor de balas. Assim que comecei a falar, ele projetou a cabeça para dentro do veículo e examinou o acervo:
- Tem aí algum do Sidney Sheldon? Era o que eu mais curtia quando estava na cadeia. Foi lá que aprendi a ler.
Na ausência do célebre novelista americano, o critério de seleção se tornou mais simples. Vitor pegou o exemplar mais grosso da caixa e aproveitou para escolher outro - "Esse do castelo, que deve ser de mistério" - para presentear a mulher que o esperava na calçada.
Aos poucos, fui percebendo que o público mais crítico era formado por jovens, como Micaela*, 15 anos. Ela é parte do contingente de 2 mil ambulantes que batem ponto nos semáforos da cidade, de acordo com números da prefeitura de São Paulo. Num domingo, enfrentava com paçocas a 1 real uma concorrência que apinhava todos os cruzamentos da avenida Tiradentes, no centro. Fiz a pergunta de sempre. E ela respondeu:
- Hum, depende do livro. Tem algum de literatura?, provocou, antes de se decidir por Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis.
As crianças faziam festa (um dado vergonhoso: segundo a Prefeitura, ainda existem 1,8 mil delas nas ruas de São Paulo). Por estarem sempre acompanhadas, minha coleção diminuía a cada um desses encontros do acaso. Érico*, 9 anos, chegou com ar desconfiado pelo lado do passageiro:
- Sabe ler?, perguntei.
- Não..., disse ele, enquanto olhava a caixa. Mas, já prevendo o que poderia ganhar, reformulou a resposta:
- Sim. Sei, sim.
- Em que ano você está?
- Na 4ª B. Tio, você pode dar um para mim e outros para meus amigos?, indagou, apontando para um menino e uma menina, que já se aproximavam.
Mas o problema, como canta Paulinho da Viola, é que o sinal ia abrir. O motorista do carro da frente, indiferente à corrida desenfreada do trio, arrancou pela avenida Brasil, levando embora a mercadoria pendurada no retrovisor.
Se no momento das entregas que eu realizava se misturavam humor, drama, aventura e certo suspense, observar a reação das pessoas depois de presenteadas era como reler um livro que fica mais saboroso a cada leitura. Esquina após esquina, o enredo se repetia: enquanto eu esperava o sinal abrir, adultos e crianças, sentados no meio-fio, folheavam páginas. Pareciam se esquecer dos produtos, dos malabares, do dinheiro...
- Ganhar um livro é sempre bem-vindo. A literatura é maravilhosa, explicou, com sensibilidade, um vendedor de raquetes que dão choques em insetos.
Quase chegando ao fim da jornada literária, conheci Maria*. Carregava a pequena Vitória*, 1 ano recém-completado, e cobiçava alguns trocados num canteiro da Zona Norte da cidade. Ganhou um livro infantil e agradeceu. Avancei dois quarteirões e fiz o retorno. Então, a vi novamente. Ela lia para a menininha no colo. Espremi os olhos para tentar ver seu semblante pelo retrovisor. Acho que sorria.
* os nomes foram trocados para preservar os personagens.
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domingo, 21 de dezembro de 2008
Primeiro Impulso Poético

Cada verso é uma ponte entre a magia e a realidade. Em toda rima jaz uma nota cristalina de subjetividade, compondo qual tijolo a arquitetura lingüística de mais uma estrofe, esculpida pela inspiração e sensibilidade dos poetas, que estão sempre de almas abertas para captar o que muitos não conseguem expressar ou sequer enxergar.
Mas engana-se quem pensa que a poesia é um mero escape ultrapassado da razão ou uma esfera povoada unicamente pelo lirismo de gente apaixonada. Os versos também existem para questionar esse mundo pelo avesso, contaminado por valores perversos como o egoísmo e a indiferença. Vivemos uma sociedade afetivamente asfixiada pela ditadura da razão.
O neoliberalismo pode afundar o planeta e explodir a economia, mas nunca deixarei que sistemas suicidas e excludentes arranhem sequer um centímetro de minhas utopias e arranquem pelo menos uma pétala de altruísmo dos jardins de minha alma. Dentro de mim idealizo cenários belos e perfeitos: mundos mais humanos, pessoas mais felizes, relações mais sinceras, povos mais unidos, países mais solidários, líderes mais atuantes.
E foi assim, de tanto sonhar, que comecei a desabafar, me armando de versos para protestar e militar através da arte poética. Essa tendência ganhou concretude quando tive a idéia de criar a seção Minuto Poético em meu Orkut, onde me identifico como “Pablo Robles”. Desde então, sem exceção, venho postando uma nova poesia a cada semana no meu perfil de apresentação desta rede social (na parte “quem sou eu?”... me localizem e confiram!).
Contudo, tem um grande detalhe que fez e faz toda a diferença para mim. Optei por priorizar, neste espaço e em minha práxis literária, a produção e difusão de poesias de caráter social, a fim de promover reflexões, atitudes e mensagens em prol de um mundo melhor. Apesar de me empolgar com diferentes coisas e ter uma vida profissional pouco estável, nunca abandonei tal compromisso virtual. Prova disso é que já publiquei 86 poesias desde março de 2007.
Para fixar e consolidar minha imagem como poeta de conteúdos e causas sociais, tomei então a liberdade de adotar um pseudônimo que fizesse jus inequívoco a esta finalidade. Dessa forma nasceu o “Poeta do Social”. Preparei certa feita um artigo destinado a me apresentar poeticamente para o mundo, inicialmente junto aos meus amigos e depois na blogosfera. Foi uma espécie de anúncio de um novo poeta. Algo amador, mas bem intencionado.
Meses depois tive a grata oportunidade de ser convidado, através do próprio Orkut, a participar como co-autor da terceira edição de uma Antologia dos Poetas Virtuais, um Projeto de ousada envergadura levado a cabo por Magali Oliveira, uma batalhadora mulher que, além de escritora e poeta, também vem materializando sua veia empreendedora no campo da cultura. Vejam maiores informações no site: http://www.poetasvirtuais.com.br.
O excelente incentivo ensejado por esta antologia, que já se encontra em sua terceira edição, permitiu que oito poemas meus fincassem seus versos e recados sociais em uma primeira publicação impressa: “Dialogando com a sensibilidade”, “Pingos do céu”, “Resto de fé”, “Parábola das indagações”, “Castelos de Areia”, “Seja a sua metamorfose”, “Podemos mudar o mundo”, “Irmãos de utopia”. Algumas destas peças estão hospedadas aqui em meu blog, no marcador “Poesias Especiais”, em homenagem a comemorações marcantes.
Não posso deixar de registrar a presença dos vinte poetas (co-autores) da referida obra coletiva - quem tiver blog/site será guiado para lá: Magali Oliveira, Thony Pereira, Mone Carmo, Jane Rossi, Neneca Barbosa, Rosane Silveira, Soninha Porto, Eliza Gregio, Delince, Maira Cervi, Poeta do Social, Marineves Rodrigues, Andrea Lucia, O Trovador, Pavann, Sandra L. Stabile, Espedita Barros, Sigrid Spolzino, Monica Rosenberg e Leila Wermeling.
Encontram-se neste volume poetas de três quadrantes do sertão nordestino (Catunda - CE; Cocal - PI; e Riacho dos Cavalos - PB) e de oito recantos estaduais do Brasil: CE, PA, SP, RJ, PE, RS, PR e MG. O lançamento aconteceu em novembro, em Santo Antônio de Pádua - RJ. Eis a referência da obra: Antologia dos poetas virtuais: 3.° livro de poesias dos poetas virtuais (208 p.) - Organização de Magali Oliveira / Fortaleza: Premius, 2008. O valor de aquisição do livro pelo correio, incluindo frete, custa R$ 25,00 (vinte e cinco reais) e pode ser encomendando junto a Magali, através do e-mail magalioliveira@poetasvirtuais.com.br.
Um grande mérito do Projeto reside em encorajar e projetar novos talentos e dizeres poéticos, consagrados pela singularidade de quem os teceu e decidiu espalhá-los, rompendo o anonimato de escritos que poderiam morrer empoeirados e frustrados. A jornalista Marília Falcão, ao apresentar a antologia, enaltece sua inevitável diversidade: “alguns, essencialmente românticos, colocam algo como mel em suas palavras (...) outros falam de coisas da vida com tal profundidade que (...) sempre encerram grandes lições”.
Para não esticar mais o texto, cabe a mim uma promessa que você, amigo(a) leitor(a), deverá ser o(a) primeiro(a) a me cobrar no futuro: pretendo lançar, possivelmente em 2009, um primeiro livro solo de poesias sociais, de modo que esta publicação coletiva representa uma poderosa alavanca capaz de me impulsionar para vôos e desafios maiores.
Por fim, devo ainda confessar que eu não planejava exatamente chegar até aqui desse jeito. Quando lancei o Minuto Poético em meu Orkut, fazia seis meses que eu tinha terminado um longo namoro de seis anos, que foi bonito e poético enquanto durou. Mas a roleta do destino girou e aqui estou. Outro acontecimento foi a perda do meu acervo de poesias da mocidade, varridas por um vírus que infectou um computador insensível para backups. Sem falar que minha trajetória profissional no campo das ONGs passou por tropeços e superações.
Afinal de contas, não é fácil voltar a escrever cem poesias, nos atribulados anos de 2007 e 2008 que tive, quando você descobre que a grande maioria das poesias de seu passado (mais de cem), que remonta aos tempos áureos e férteis de adolescência, se evaporou por um descuido evitável. Foi nesse espírito que dei à luz uma das poesias inaugurais desta minha nova empreitada artística. “Consolos e Recomeços”. Acabei de socializá-la, em primeira mão, aqui em meu blog. Quem a ler, captará melhor a dimensão do que expus.
Transcrevo enfim, sem por nem tirar uma só interjeição, o depoimento que recebi de uma gentil e querida amiga, cujas palavras me tocaram tanto que nunca as demiti da caixa postal de torpedos do meu celular: “Fiquei feliz por ter me enviado suas poesias...são lindas e sensíveis e conseguem atingir a alma...vc escreve mto bem, parabéns! Não apenas pela escrita mas principalmente pelo conteúdo!! Vc tem que publica-las!!! Bjos!! Tudo de bom pra vc! Fica bem!” Despeço-me com um PS que não quer calar: Obrigado a todas e todos que, com os olhos de sua alma, educaram e engrandeceram minha sensibilidade e militância poética.
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segunda-feira, 7 de julho de 2008
COMENTÁRIOS: Julgamento de um Poeta
JULGAMENTO DE UM POETA*
*Trecho do livro Liberdade, liberdade, de Millôr fernandes & Flávio rangel, editado em 2006 pela L&PM (coleção Pocket Plus). A obra, que inaugurou no país um gênero baseado em fragmentos históricos, é o roteiro da famosa peça de teatro de mesmo nome, montada em 1965 e censurada depois pela ditadura. Os atores citados referem-se ao Paulo Autran, Vianna Filho e Tereza Rachel.
VOZ GRAVADA – No ano passado foi julgado na União Soviética o poeta Joseph Brodsky. Aqui estão trechos taquigráficos de seu julgamento.
PAULO – Qual é o seu nome?
VIANA – Joseph Brodsky.
PAULO – Qual é a sua ocupação?
VIANNA – Escrevo poemas. Traduzo. Suponho que...
PAULO – Não interessa o que o senhor supõe. Fique em pé respeitosamente. Não se encoste na parede. Olhe para a corte. Responda com respeito. O senhor tem um trabalho regular?
VIANNA – Pensei que fosse um trabalho regular.
PAULO – Dê uma resposta precisa.
VIANNA – Eu escrevia poemas: julguei que seriam publicados. Supus...
PAULO – Não interessa o que o senhor supõe. Responda porque não trabalhava.
VIANNA – Eu trabalhava; eu escrevia poemas.
PAULO – Isso não interessa. Queremos saber a que instituição o senhor estava ligado.
VIANNA – Tinha contratos com uma editora.
PAULO – Há quanto tempo o senhor trabalha?
VIANNA – Tenho trabalhado arduamente.
PAULO – Ora, arduamente! Responda certo.
VIANNA – Cinco anos.
PAULO – Onde o senhor trabalhou?
VIANNA – Numa fábrica, em expedições geológicas...
PAULO – Quanto tempo trabalhou na fábrica?
VIANNA – Um ano.
PAULO – E qual é seu trabalho real?
VIANNA – Eu sou um poeta. E tradutor de poesia.
PAULO – Quem reconheceu o senhor como poeta e lhe deu um lugar entre eles?
VIANNA – Ninguém. E quem me deu um lugar entre a raça humana?
PAULO – O senhor aprendeu isso?
VIANNA – O quê?
PAULO – A ser poeta? Não tentou ir para uma Universidade onde as pessoas são ensinadas, onde aprendem?
VIANNA – Não pensei que isso pudesse ser ensinado.
PAULO – Então como...?
VIANNA – Eu pensei que... Por vontade de Deus...
PAULO – É possível ao senhor viver do dinheiro que ganha?
VIANNA – É possível. Desde que me prenderam sou obrigado a assinar um documento, todos os dias, declarando que gastam comigo quarenta copeques. Eu ganhava mais do que isso por dia.
PAULO – O senhor não precisa de ternos, sapatos?
VIANNA – Eu tenho um terno. É velho, mas é um bom terno. Não preciso de outro.
PAULO – Os especialistas aprovaram seus poemas?
VIANNA – Sim, fui publicado na Antologia dos Poetas Inéditos e fiz leituras de traduções do polonês.
PAULO – Seria melhor, Brodsky, que explicasse à corte por que não trabalhava no intervalo de seus trabalhos.
VIANNA – Eu trabalhava. Eu escrevia poemas.
PAULO – Mas existem pessoas que trabalham numa fábrica e escrevem poemas ao mesmo tempo. O que o impediu de fazer isso?
VIANNA – As pessoas não são iguais. Mesmo a cor dos olhos, dos cabelos... a expressão do rosto.
PAULO – Isso não é novidade. Qualquer criança sabe disso. Seria melhor que explicasse qual a sua contribuição para o movimento comunista.
VIANNA – A construção do comunismo não significa somente o trabalho do carpinteiro ou o cultivo do solo. Significa também o trabalho intelectual, o...
PAULO – Não interessam as palavras pomposas. Responda como pretende organizar suas atividades de trabalho no futuro.
VIANNA – Eu queria escrever poesia e traduzir. Mas se isso contraria a regra geral, arranjarei um trabalho... e escreverei poesia.
PAULO – O senhor tem algum pedido a fazer à corte?
VIANNA – Eu gostaria de saber por que fui preso.
PAULO – Isso não é um pedido; é uma pergunta.
VIANNA – Então não tenho nenhum pedido.
TEREZA – Brodsky foi condenado a cinco anos de trabalhos forçados, numa fazenda estatal de Arcangel, na função de carregador de estrume. O poeta tinha vinte e quatro anos.
MEUS COMENTÁRIOS
Triste mundo esse para condenar uma das expressões mais subjetivas, autênticas e comoventes da vida: a arte poética. Em uma sociedade dominada pela ditadura da razão e organizada com base nas relações instrumentais de interesse, o valor substantivo da poesia incomoda e não encontra espaço para desabrochar.
Por uma ironia infeliz, o impulso libertador, criativo e transcendental de Brodsky, sublimado e potencializado através da poesia, foi punido impiedosamente e submetido à escravidão, ao cerceamento das energias emocionalmente autônomas e produtivas do poeta. Um julgamento sem rima, sem alma e sem compaixão.
Por que a arte é tão vilipendiada, maltratada e incompreendida? A poesia permeia todo o mistério da vida, a beleza da natureza e a harmonia do universo. Em todo território não invadido pelo arbítrio monopolizante da razão, eis que a poesia conseque respirar, dançar e cantar, celebrando múltiplos sentidos e ativando sensibilidades de todas as cores.
Ainda que a esmagadora maioria da humanidade quase insensível não saiba valorizar e honrar as virtudes e dimensões da poesia, é preciso se render ao fato de que tal arte jamais será extinta e banida do planeta, pois tudo aquilo que não tem tradução objetiva e duração definida tem necessariamente um quê de poesia, algo de magia, um verso inapreensível de eternidade.
*Trecho do livro Liberdade, liberdade, de Millôr fernandes & Flávio rangel, editado em 2006 pela L&PM (coleção Pocket Plus). A obra, que inaugurou no país um gênero baseado em fragmentos históricos, é o roteiro da famosa peça de teatro de mesmo nome, montada em 1965 e censurada depois pela ditadura. Os atores citados referem-se ao Paulo Autran, Vianna Filho e Tereza Rachel.
VOZ GRAVADA – No ano passado foi julgado na União Soviética o poeta Joseph Brodsky. Aqui estão trechos taquigráficos de seu julgamento.
PAULO – Qual é o seu nome?
VIANA – Joseph Brodsky.
PAULO – Qual é a sua ocupação?
VIANNA – Escrevo poemas. Traduzo. Suponho que...
PAULO – Não interessa o que o senhor supõe. Fique em pé respeitosamente. Não se encoste na parede. Olhe para a corte. Responda com respeito. O senhor tem um trabalho regular?
VIANNA – Pensei que fosse um trabalho regular.
PAULO – Dê uma resposta precisa.
VIANNA – Eu escrevia poemas: julguei que seriam publicados. Supus...
PAULO – Não interessa o que o senhor supõe. Responda porque não trabalhava.
VIANNA – Eu trabalhava; eu escrevia poemas.
PAULO – Isso não interessa. Queremos saber a que instituição o senhor estava ligado.
VIANNA – Tinha contratos com uma editora.
PAULO – Há quanto tempo o senhor trabalha?
VIANNA – Tenho trabalhado arduamente.
PAULO – Ora, arduamente! Responda certo.
VIANNA – Cinco anos.
PAULO – Onde o senhor trabalhou?
VIANNA – Numa fábrica, em expedições geológicas...
PAULO – Quanto tempo trabalhou na fábrica?
VIANNA – Um ano.
PAULO – E qual é seu trabalho real?
VIANNA – Eu sou um poeta. E tradutor de poesia.
PAULO – Quem reconheceu o senhor como poeta e lhe deu um lugar entre eles?
VIANNA – Ninguém. E quem me deu um lugar entre a raça humana?
PAULO – O senhor aprendeu isso?
VIANNA – O quê?
PAULO – A ser poeta? Não tentou ir para uma Universidade onde as pessoas são ensinadas, onde aprendem?
VIANNA – Não pensei que isso pudesse ser ensinado.
PAULO – Então como...?
VIANNA – Eu pensei que... Por vontade de Deus...
PAULO – É possível ao senhor viver do dinheiro que ganha?
VIANNA – É possível. Desde que me prenderam sou obrigado a assinar um documento, todos os dias, declarando que gastam comigo quarenta copeques. Eu ganhava mais do que isso por dia.
PAULO – O senhor não precisa de ternos, sapatos?
VIANNA – Eu tenho um terno. É velho, mas é um bom terno. Não preciso de outro.
PAULO – Os especialistas aprovaram seus poemas?
VIANNA – Sim, fui publicado na Antologia dos Poetas Inéditos e fiz leituras de traduções do polonês.
PAULO – Seria melhor, Brodsky, que explicasse à corte por que não trabalhava no intervalo de seus trabalhos.
VIANNA – Eu trabalhava. Eu escrevia poemas.
PAULO – Mas existem pessoas que trabalham numa fábrica e escrevem poemas ao mesmo tempo. O que o impediu de fazer isso?
VIANNA – As pessoas não são iguais. Mesmo a cor dos olhos, dos cabelos... a expressão do rosto.
PAULO – Isso não é novidade. Qualquer criança sabe disso. Seria melhor que explicasse qual a sua contribuição para o movimento comunista.
VIANNA – A construção do comunismo não significa somente o trabalho do carpinteiro ou o cultivo do solo. Significa também o trabalho intelectual, o...
PAULO – Não interessam as palavras pomposas. Responda como pretende organizar suas atividades de trabalho no futuro.
VIANNA – Eu queria escrever poesia e traduzir. Mas se isso contraria a regra geral, arranjarei um trabalho... e escreverei poesia.
PAULO – O senhor tem algum pedido a fazer à corte?
VIANNA – Eu gostaria de saber por que fui preso.
PAULO – Isso não é um pedido; é uma pergunta.
VIANNA – Então não tenho nenhum pedido.
TEREZA – Brodsky foi condenado a cinco anos de trabalhos forçados, numa fazenda estatal de Arcangel, na função de carregador de estrume. O poeta tinha vinte e quatro anos.
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Triste mundo esse para condenar uma das expressões mais subjetivas, autênticas e comoventes da vida: a arte poética. Em uma sociedade dominada pela ditadura da razão e organizada com base nas relações instrumentais de interesse, o valor substantivo da poesia incomoda e não encontra espaço para desabrochar.
Por uma ironia infeliz, o impulso libertador, criativo e transcendental de Brodsky, sublimado e potencializado através da poesia, foi punido impiedosamente e submetido à escravidão, ao cerceamento das energias emocionalmente autônomas e produtivas do poeta. Um julgamento sem rima, sem alma e sem compaixão.
Por que a arte é tão vilipendiada, maltratada e incompreendida? A poesia permeia todo o mistério da vida, a beleza da natureza e a harmonia do universo. Em todo território não invadido pelo arbítrio monopolizante da razão, eis que a poesia conseque respirar, dançar e cantar, celebrando múltiplos sentidos e ativando sensibilidades de todas as cores.
Ainda que a esmagadora maioria da humanidade quase insensível não saiba valorizar e honrar as virtudes e dimensões da poesia, é preciso se render ao fato de que tal arte jamais será extinta e banida do planeta, pois tudo aquilo que não tem tradução objetiva e duração definida tem necessariamente um quê de poesia, algo de magia, um verso inapreensível de eternidade.
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