sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Viva o Mistério de Dezembro


VIVA O MISTÉRIO DE DEZEMBRO

Quem ganha e o que perdemos abreviando o ano? Como podemos fazer e curtir a retrospectiva de um ano que não terminou? Acesso portais de notícias e vejo uma avalanche de matérias querendo duelar com tempo, ignorando a cronologia de dezembro ou secundarizando os últimos acontecimentos que nos esperam em um ano que faz questão de acabar apenas no último dia, e não como querem os editoriais de final de ano.

Pois bem, se nos deixarmos levar por essa tendência devoradora do tempo, iremos ter uma imagem decepada do ano que passou, e de nós mesmos. Ou o mês de dezembro não tem importância para a história de nossas vidas, individuais e coletivas. Ou a história de nossas vidas tem dias muito pessoais e especiais que não merecem ser contabilizados nos balanços publicáveis do ano. Ou o ano mostra-se rachado em dois ciclos: o de janeiro a novembro; e o de dezembro, onde aparentemente nada acontece, já que não entra nas retrospectivas.

Se por um lado não podemos esquecer os bons e alegres momentos que já vivemos, por outro não podemos deixar de viver o calendário restante, irredutível e também único de cada ano. Não devemos brincar com tempo, moldando-o ao sabor das publicidades apressadas, da indústria do turismo desenraizado, das emoções enlatadas, do mercado cansado. Não entendo essa ejaculação precoce da mídia, ainda no começo de dezembro – uma mídia que se traveste de museu e que fica forçando a barra, fazendo das telas de computador retrovisores sem atrativos, pois inclusive é muito estranho semear as promessas do ano novo sem deixar de colher todas as lições do ano velho.

Viva o mês de dezembro, apesar das retrospectivas anuais quererem abortá-lo, saltá-lo ou enxugá-lo. Viva os dias maiores e melhores que qualquer calendário maquiado. Viva os capítulos que sequer foram convidados para as biografias civilizatórias. Viva a última quinzena do ano, maltratada como se fosse uma espécie de quinzena malparida de janeiro. Viva a era rebelde e enigmática dos finais de ano, que não se deixa enquadrar pela estática linear das cronologias nem se revelar pelas profecias tradicionais e corriqueiras do ano passado.

Viva a vida vivida sem grandes testemunhas e registros coletivos. Viva o não-vivido passivamente pelos outros. Viva os fatos inéditos e algumas vezes primordiais, cujas imagens não foram captadas e eventualmente distorcidas por terceiros. Enfim, viva o mistério de dezembro, em sua plenitude anônima, imponderável e inenarrável. 

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