sábado, 7 de março de 2009

MARTINEAU: A Primeira Socióloga Mulher


TRECHO EXTRAÍDO DO LIVRO "SOCIOLOGIA", DA AUTORIA DE ANTHONY GIDDENS, PELA EDITORA ARTMED (4ª EDIÇÃO), PÁG. 33.

"UMA FUNDADORA NEGLIGENCIADA

Embora Comte, Durkheim, Marx e Weber sejam, sem dúvida, figuras fundadoras na sociologia, havia outros pensadores importantes do mesmo período cujas contribuições devem também ser levadas em conta. A sociologia, como muitas áreas acadêmicas, não correspondeu sempre à expectativa de reconhecer a importância de cada pensador cujo trabalho tenha mérito intrínseco. Poucas mulheres ou membros de minorias raciais tiveram a oportunidade de se tornar sociólogos profissionais durante o período ‘clássico` de fins do século XIX e início do século XX. Além disso, os poucos que tiveram a oportunidade de fazer pesquisa sociológica de importância duradoura têm sido freqüentemente negligenciados. Pessoas como Harriet Martineau merecem a atenção dos sociólogos hoje em dia.

Harriet Martineau

Harriet Martineau (1802-1876) tem sido chamada a “primeira socióloga mulher”, mas, como Marx e Weber, não pode ser tomada simplesmente como uma socióloga. Ela nasceu e foi educada na Inglaterra e foi a autora de mais de 50 livros, como também de numerosos ensaios. Martineau agora recebe o crédito de ter introduzido a sociologia na Grã-Bretanha através de sua tradução do tratado fundador da disciplina, Filosofia Positiva, de Comte (Rossi, 1973). Além disso, Martineau realizou um estudo sistemática original da sociedade norte-americana durante sua extensas viagens através dos Estados Unidos nos anos de 1830, que é o tema de seu livro Sociedade na América. Martineau é relevante para os sociólogos hoje por diversas razões.

Primeiramente, ela afirmou que, quando se estuda a sociedade, se deve concentrar em todos os seus aspectos, incluindo instituições-chave políticas, religiosas e sociais. Em segundo lugar, ela insistiu em que uma análise da sociedade deve incluir um entendimento da vida das mulheres. Em terceiro lugar, ela foi a primeira a dirigir um olhar social a questões anteriormente ignoradas, incluindo o casamento, as crianças, a vida doméstica e religiosa, e relações de raça. Como escreveu certa vez, ´o berço, o boudoir e a cozinha são todas excelentes escolas para aprender a moral e as maneiras das pessoas` (Martineau, 1962, p.53). Finalmente, ela afirmou que os sociólogos deveriam fazer mais do que apenas observar, eles deveriam também atuar de forma a beneficiar a sociedade. Como resultado, Martineau foi uma proponente ativa tanto dos direitos das mulheres como da emancipação dos escravos."

(fim da transcrição)

COMENTÁRIOS do Grito Pacífico - Mudando o Mundo com Você

Quase tudo que aprendemos nos bancos escolares emana de uma fonte comum. A história foi escrita (forjada) por homens, brancos e ricos. O texto extraído acima resgata o pioneirismo feminino de Martineau na fundação da Sociologia. Evidentemente, essa omissão à contribuição intelectual das mulheres, seja na administração, na filosofia, na economia, na psicologia, dentre outras áreas, já não impressiona nenhum cidadão ingressado no século XXI.

Devemos, enquanto estudantes ou professores, aprendizes da vida ou mestres do cotidiano, tentar desenterrar os equívocos ideológicos vomitados de geração em geração pela cultura dominante. Espero que os livros didáticos e as enciclopédias do conhecimento disponíveis no século XXII possam fazer jus, minimamente, à brilhante contribuição da mulher para a produção, sistematização e difusão de saber sobre o mundo que nos cerca.

Encerro meus comentários dando um exemplo bem mais cotidiano e muitas vezes imperceptível desta problemática. Qual o nome da rua ou avenida onde você mora? Ou onde seus amigos e amigas moram? A grande maioria de tais títulos certamente rendem tributo às façanhas masculinas: aos feitos heróicos de combatentes, à verve literária de escritores, à ousadia política de estadistas, ao ofício magnânimo de juristas etc. etc. etc.

E as mulheres, o que faziam no passado? Não existiam, não pensavam? Não tentavam observar, estudar e transformar o que achavam errado ou incompleto? Claro que sim. Mas este nosso mundinho demorou milênios para começar a tirar o chapéu para o valor das mulheres, reconhecendo que elas são tão ou mais capazes quanto qualquer homem. Por conta dessa lacuna irracional, muito da genialidade humana ficou presa debaixo do tapete. Mas as mulheres estão esterilizando a poeira do preconceito para respirar o ar da soberania.

2 comentários:

Kênia disse...

Muito bom vocês tratarem do tema! Há poucos espaços que valorizam a contribuição das mulheres na sociologia, parabéns!

Flávia Melo disse...

Excelente colocação! E que possamos mudar essa triste realidade.