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quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Dilma, Serra e seus (nossos) abismos

Vamos fazer uma brincadeira séria? Sacrifique poucos minutos de seu tempo para ler essas duas notícias, amostras representativas dos dois pólos da campanha presidencial em disputa:

a) Artistas e intelectuais repetem um palanque como o de 1989

b) Quem são os “investidores” que ouviram FHC?

Como todo jogo instrutivo, a regra é “faça de conta que você é de um país (ou planeta) distante e chegou agora no Brasil”. Isso lhe permitirá ver tudo sem preconceito, como a criança que você foi um dia achando “que o mundo é perfeito e que todas as pessoas são felizes” (trecho da música Índios, do Legião Urbana).

O jogo começa e ganha quem descobrir mais diferenças entre os dois candidatos. Descobertas o máximo de diferenças, elas serão utilizadas para ajudar as eleitoras e os eleitores brasileiros a escolherem o melhor candidato para governar o país.

Durante o jogo, algumas questões causam bastante perplexidade entre os participantes:

1) Por que Dilma tem tanto apoio de pessoas conhecidas, íntegras e preocupadas com o destino coletivo da nação, enquanto quase não se vê manifestos de pessoas e instituições declarando explicitamente e divulgando abertamente sua preferência pelo Serra?

2) Por que um lado (o da Dilma) afirma com orgulho o governo do partido que representa (PT), destacando suas conquistas históricas recentes (lideradas por Lula), enquanto o outro lado (o do Serra) esconde ou minimiza o papel, a imagem e a ideologia do PSDB de FHC?

3) Por que a esperança, a alegria, a solidariedade, a integração, a altivez, a positividade, a diversidade e a autocrítica predominam tanto nas falas e sentimentos dos partidários e simpatizantes da Dilma, enquanto que o preconceito, o medo, a arrogância, a intolerância, a difamação, o oportunismo, a hipocrisia e o anonimato são atraídos para o campo do Serra?

O jogo chega ao fim e os participantes, reunidos de forma presencial e pela internet em diversas assembléias – tanto nas esferas familiares e comunitárias como nos espaços institucionais e organizados – chegam praticamente a uma mesma reflexão, uma mesma conclusão, uma mesma visão:

UM ABISMO (MUITO MAIOR DO QUE SE PENSAVA) SEPARA DILMA E SERRA.

Ela, Dilma, quer continuar ajudando o Brasil a se libertar de seus atrasos históricos, que remontam aos tempos de quando os índios viviam aqui, certamente mais felizes, ainda que fossem cientificamente ingênuos em matéria de tecnologia moderna (atômica ou não).

Ele, Serra (político profissional com palhaçadas amadoras), parafraseando o Tiririca (palhaço profissional com popularidade amadora), é a certeza de que, se ganhar, “melhor do que tá não fica” e a suspeita mais ou menos certa de que as coisas vão piorar, regredir, involuir...

Especialmente para as maiorias populares e as minorias oprimidas por elites egoístas e entreguistas, satisfeitas em lucrar sozinhas enquanto os “menos capazes”, nordestinos ou não, para brilharem em Estados economicamente ricos como São Paulo, precisam muitas vezes transformar a piada da vida de seu povo pobre na alavanca digna da superação de si mesmos.

domingo, 25 de julho de 2010

A Emancipação dos Negros continua...

Segue indicação de um artigo bonito, historicamente comovente e da mais alta relevância humana. A semana que passou foi marcada, por exemplo, pelo episódio da escolha (nada muito democrática e transparente) do novo técnico da Seleção brasileira de futebol, esporte que a propósito constitui-se no maior celeiro de carreira para negros. A velocidade da ascensão é tão galopante que alguns não conseguem administrar as doses cavalares de ambição. Outros se agarram à religião (nesse sentido útil e bem terapêutica) para não matarem sua dignidade.

Pois bem, apesar do obscurantismo midiático, saibam que um grande marco jurídico foi edificado para ajudar a reparar séculos de racismo, desigualdade étnica e marginalização sócio-econômica. Como informa com abrangência o artigo, iniciativas paralelas, em diversas searas, estão sendo levadas a cabo, inclusive aqui no Ceará, onde boa parte dos destinatários desta mensagem desenham suas pegadas existenciais. Nem a recente Copa do Mundo em solo africano, num país símbolo do racismo mais explícito e brutal, foi suficiente para convidar os jornalistas comerciais a darem publicidade social ao Estatuto da Igualdade Racial.

(Comentários do Grito Pacífico, mudando o mundo com você)


ESTATUTO DA IGUALDADE RACIAL: SONEGAÇÃO INFORMATIVA E AS NOVAS BASES PARA ENFRENTAR O RACISMO

FONTE: Carta Maior - 24/07/2010
LINK: http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=16819

O Estatuto da Igualdade Racial foi sancionado esta semana pelo presidente Lula. O episódio mereceria um destaque muito maior por parte dos meios de comunicação. Mas, sem surpreender, a grande mídia comercial noticiou apenas discretamente o evento. Nenhum grande jornal deu na primeira página. E o Jornal Nacional da TV Globo fez apenas uma notinha curtíssima para a importância do fato, sem imagens. Ou seja, na proporção inversa da ampla divulgação que deu, por meses, à campanha do DEM contra as cotas para alunos pobres e negros na universidade. O artigo é de Beto Almeida.

Beto Almeida (*)

“Uma notícia ta chegando lá do interior
Não deu no rádio, no jornal ou na televisão...”
( Milton Nascimento e Fernando Brant )

Nesta semana que termina o Estatuto da Igualdade Social foi sancionado pelo presidente Lula. Para um país que teve quase 4 séculos de escravatura, sendo o último a abolir este opróbrio, e , tendo ficado 112 anos à espera de uma legislação que consolidasse bases para um enfrentamento mais vigoroso ao racismo ainda vigente em nossa sociedade tão desigual, o episódio mereceria um destaque muito maior por parte dos meios de comunicação. Mas, sem surpreender, a grande mídia comercial noticiou apenas discretamente o evento. Nenhum grande jornal deu na primeira página. E o Jornal Nacional da TV Globo fez apenas uma notinha curtíssima para a importância do fato, sem imagens. Ou seja, na proporção inversa da ampla divulgação que deu, por meses, à campanha do DEM contra as cotas para alunos pobres e negros na universidade.

Já a Voz do Brasil, programa radiofônico que também nesta semana fez mais um aniversário, cobriu decentemente a sanção do Estatuto da Igualdade Racial, mesmo estando sob ataque da ideologia mídia de mercado, que quer mais uma hora para entupir os ouvidos do povo, predominantemente, com mais baixaria e publicidade. Portanto, nos grotões, nos quilombos, nos assentamentos da reforma agrária onde a Voz do Brasil alcança, a notícia até que chegou. Mas, como diz a música “Notícias do Brasil”, de Milton Nascimento e Fernando Brant, a depender da grande mídia comercial, a informação ou é nula ou é a mais resumida possível. Será nostalgia das senzalas e do pelourinho por parte dos barões da mídia?

É preciso lutar para a lei pegar

Muitas conclusões podem ser tiradas da entrada em vigor do Estatuto da Igualdade Racial. Entre elas, certamente, a de que como nos demais estatutos, entre eles da Criança e do Adolescente, o do Idoso, ou o Código de Defesa do Consumidor, a sua plena vigência não é automática. Será preciso lutar para esta lei pegar. Com a dinâmica das lutas é que as leis se consolidam, se aperfeiçoam, ampliam direitos. A licença maternidade, por exemplo, instituída em 1932, na Era Vargas, estabelecia apenas dois meses. Acaba de ser ampliada para 6 meses. Em Cuba, há décadas, a licença maternidade é de um ano, e beneficia também o pai por um certo período.

Afinal, aqui estamos numa sociedade capitalista, com desigualdades trágicas, e onde a lei ainda é presa fácil do poder econômico e onde nem a própria Constituição alcançou ainda sua plenitude. Sem contar que tratam-se de textos legais rigorosamente desconhecidos da grande massa do povo brasileiro. Está escrito na lei que é crime matar, mas a taxa de homicídios impunes no Brasil alcança a tenebrosa estatística de 93 por cento dos casos, que ficam sem solução, são arquivados. Assim, transpondo para o Estatuto, para que ele realmente vire um texto a ser cumprido é indispensável a convocação da cidadania, dos sindicatos, dos movimentos sociais, para conscientizarem-se de sua existência, de seus alcances e limites. E também da necessidade de protagonismo e militância caso queiramos empreender uma inadiável batalha contra esta praga social do racismo. Talvez por isso mesmo a grande mídia não divulga, esconde, quando era tema para se fazer do Estatuto um grande fato comunicativo.

A insensibilidade social da mídia

Dois episódios me ocorrem para provar a insensibilidade social das oligarquias que dominam estes meios de comunicação como se administrassem um latifúndio do espectro eletromagnético ou impresso informativos. Quando Monteiro Lobato, revoltado com o analfabetismo de nossa gente, apelou a uma família proprietária de grande jornal paulista para que a imprensa realizasse uma cruzada contra este subproduto da deseducação, da ignorância e da pobreza. A resposta que recebeu deveria estar em todos os cadernos de alfabetizadores para lembrar que a alfabetização sempre teve inimigos nas oligarquias. “ Ô Lobato, mas se todos os negros analfabetos forem aprender a ler, quem é que vai pegar na enxada??”, ouviu um atônito Lobato, registrando-se no episódio uma soma de elitismo com racismo.

No outro episódio, ocorrido décadas depois, o diretor de redação deste mesmo jornalão paulista mata a sua namorada com três tiros, confessa o crime, é condenado e continua absolutamente livre. O motivo para o crime? A jovem jornalista, de origem pobre, meio mulata, queria terminar o namoro. Pena de morte! Ou seja, mesmo sendo proibido matar, mesmo tendo havido a confissão, mesmo tendo sido condenado, o tal jornalista, está desfilando sua impunidade livremente, indicando que tipo de ódio social pode estar sendo cultivado nas cúpulas de quem faz a comunicação no Brasil e a maneira muito especial que o Judiciário tem para julgar casos assim!. Quem será a próxima? Por isso, sem uma convocação da sociedade para transformar este Estatuto em muito mais que uma referência longínqua e teórica, nós poderemos talvez constatar que o racismo ainda irá resistir por mais tempo, mesmo sem qualquer razão para existir, pois trata-se de um crime.

Brasil tem novo rumo

A outra lição a ser tirada, orgulhosamente, é que o Brasil está na contra-mão das ondas de racismo e xenofobia que grassam pelos grandes países capitalistas, sobretudo naqueles países que se arrogam avançados. Ondas que vêm acompanhadas da demolição de uma série de direitos trabalhistas e sociais conquistados na edificação do Estado do Bem-Estar Social. Tudo isto em razão da crise do capitalismo que está sendo descarregada impiedosamente sobre os trabalhadores. O Brasil está ampliando direitos sociais!

Países como Suíça, Áustria ou mesmo França, debatem-se entre a tomada de medidas legais que restringem, agridem, desrespeitam trabalhadores negros e árabes que por lá trabalham. E em outros países como Itália, Espanha e Inglaterra, na prática o racismo vai mostrando seus dentes criminosos, seja nas condutas dos agentes públicos, dos agentes de emigração, e, muito especialmente dos agentes policiais. Estes, chegam ao ponto até há não hesitar em matar em caso de dúvida para com um negro, um mulato, um árabe, sempre que houver a dúvida, como dolorosamente ocorreu com o mineiro Jean Charles Menezes, executado em pleno metrô de Londres com 7 tiros na cabeça. Foi considerado terrorista por ter a pele amorenada e o cabelo não liso!!! Recentemente, o primo de Jean Charles, que também trabalhou na Inglaterra e luta para que se faça justiça de fato neste caso - o governo inglês deu uma indenização à família pela morte, como se fosse uma mala extraviada - acaba de ser deportado ao tentar entrar novamente naquele país que também está empilhando cadáveres no Afeganistão e no Iraque, além de ameaçar a Argentina com nova agressão militar ilegal pelas Ilhas Malvinas.

Basta uma consulta sobre quem anda preso hoje na Europa e encontraremos, na maioria, um contingente de jovens negros, árabes, pobres, recebendo o castigo da prisão. As estatísticas judiciárias nos EUA também revelam uma população carcerária predominantemente negra, pobre, asiática e hispânica. O mesmo ocorrendo sobre quem hoje está no corredor da morte para ser executado lá. Entre eles, o jornalista negro Múmia Abu Jamal, condenado num processo repleto de irregularidades e exatamente por Juiz conhecido por ser o campeão em enviar negros para a cadeira elétrica, onde fica claro que o crime principal de Múmia é o de ter nascido com a pele negra.

O Estatuto da Igualdade Racial é um passo forte nesta luta contra o racismo no Brasil, indicando direção oposta ao que ocorre no mundo. Da mesma forma que muitos países chamados de desenvolvidos estão fechando-se aos emigrantes, punindo-os, o Brasil adota política de abertura jurídica de espaços generosos aos estrangeiros que aqui vivem, linha oposta à xenofobia. Assim como nos EUA, em 1963, o Presidente Kennedy teve que enviar tropas do exército para garantir a matrícula de dois jovens negros na Universidade do Alabama, então vetada a negros, um estatuto aqui deverá ser alavanca para mobilizar vontades conscientes e dar bases jurídicas para que os que praticam racismo sejam condenados. Depois daquele episódio no Alabama, muitos massacres de negros houve nos EUA, e ainda os há. Executaram Martin Luther King e Malcon X. Aqui no Brasil os massacres se acumulam. Entre eles o massacre do Carandiru, dos 111 presos, quase todos pretos, como diz a música do Caetano. A Chacina da Candelária, a de Acari, a de Vigário Geral. Negros são os primeiros a tombar.

É preciso parar o Carandiru diário

O Estatuto da Igualdade Racial também desafia e estimula a criação de ações concretas por parte da Secretaria Especial de Direitos Humanos no sentido de coibir a prática diária de torturas nos estabelecimentos prisionais brasileiros. Houve uma concentração de esforços na apuração de tortura e assassinatos ocorridos durante a ditadura, mas não tem havido uma política eficiente da Secretaria contra a tortura diária, prática corriqueira, que atinge sobretudo pobres e negros agora mesmo na maioria destes órgãos judiciais.

Se o Estatuto dá as bases jurídicas para a punição da prática de racismo na internet, se protege os direitos das comunidades quilombolas, se proíbe às empresas a prática de critérios étnicos para preenchimento de vagas de emprego e, entre outras, torna obrigatório o ensino de história geral da África e da população negra do Brasil em escolas públicas e privadas do ensino fundamental e médio - e todos estes são pontos muito positivos para uma nova realidade de luta global contra o racismo - mesmo assim, só uma militância vigorosa, atenta, fortalecida fará com que a transformação pretendida seja a mais rápida, a mais profunda, a mais ampla.

O Estado brasileiro, ainda marcado por todos os vícios e deformações inerentes a um estado com as características da burguesia, vem experimentando por meio da convocação de Conferências Públicas, as mais variadas formas de democratização. Desde a primeira Conferência Nacional de Saúde, ocorrida também na Era Vargas, em 1942, e sobretudo durante o governo Lula, um torrencial de demandas e propostas está sendo perfilado, organizado, tornado visível, proclamado, muito embora, em vários casos, ainda sem conseguir a relação de forças adequadas para as mudanças mais radicais, mesmo sendo absolutamente necessárias. Algumas das bandeiras do movimento negro e dos movimentos sociais em geral, somente serão realidade com uma transformação social muito mais aprofundada, algo que um governo de composição como o atual ainda não reúne todas as condições de implementar e consolidar. Mas, as bases estão lançadas para um patamar superior destas lutas. Em vários casos, são os próprios movimentos sociais que não adotam também uma tática capaz de condicionar, o governo, por meio de um apoio crítico, a realizar mudanças concretas em muitos setores. Por exemplo, não se justifica que a TV Brasil - mesmo com toda abertura e visibilidade que já oferece às questões ligadas à África - não tenha ainda horários definidos e ampliados de sua programação que contemplem os diferenciados aspectos da luta contra o racismo. Ou da luta geral dos trabalhadores.

Distribuição massiva e gratuita

Exemplo disso é que, se não houver uma atitude decidida e vigorosa por parte dos movimentos que lutam contra o racismo, por parte dos sindicatos, dos intelectuais, corremos o risco do texto do Estatuto da Igualdade Racial sequer receber uma massiva divulgação, como se faz necessário. Os trabalhadores, ainda hoje, não conhecem seus direitos inscritos na CLT, a população brasileira em geral desconhece o texto da Constituição, não há consciência ampla ou sequer informação sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente, muito embora já tenha completado 20 anos. É fundamental que seja cobrada do estado brasileiro uma edição massiva deste Estatuto da Igualdade Racial, algo na casa de dezenas de milhões de exemplares. E distribuição gratuita. Há capacidade gráfica ociosa para isto e há um povo que não tem acesso à leitura destes textos. Mas tem direito! Se não é dado ao cidadão o direito de desconhecer o texto de uma lei, em contrapartida, vemos que no Brasil o estudo e a divulgação ampla e gratuita da Constituição, para dar um exemplo, numa foram sistematicamente promovidas.

Todos estes textos legais devem merecer edições simples, popularizadas em sua forma e alcance, com a linguagem mais acessível e mais comunicativa possível, superando o intransponível juridiquês. Mas, estas edições massivas devem ser distribuídas gratuitamente, como se faz na Venezuela, por exemplo, com a divulgação de milhões de exemplares de bolso da Constituição Bolivariana, proporcionando um aprendizado importante para a população. Num país como o Brasil, que ainda registra formas de trabalho análogas ao trabalho escravo, o conhecimento dos direitos trabalhistas contidos na CLT deveria ser uma prioridade dos meios de comunicação e não apenas restrito a advogados trabalhistas e círculos de dirigentes sindicais. E os meios de comunicação, concessões de serviço público, deveriam sim priorizar horários específicos para o conhecimento das leis, no mínimo proporcionalmente ao tempo que desperdiça para estimular o consumo de álcool e a ingestão de comidas maléficas à saúde.

Universidade da África versus Navios Negreiros

Por fim, vale registrar que no mesmo dia da sanção do Estatuto da Igualdade Racial, o presidente Lula também sancionou a lei que cria a Universidade Federal da Integração Luso-Africana e Brasileira, a Unilab, que terá sede na cidade de Redenção, no Ceará, primeira cidade brasileira a abolir o escravagismo no Brasil, 5 anos antes da Lei Áurea. A criação desta universidade tem o mesmo simbolismo de outras iniciativas que colocam o Brasil em rumo oposto ao de muitos países que estão registrando endurecimento e perversidade no trato da questão racial.

Com a Unilab, que receberá estudantes africanos que aqui estudarão gratuitamente, o Brasil se aproxima do gesto de Cuba adotado há 12 anos, quando criou a Escola Latinoamericana de Medicina destinada a formar médicos para oferecer aos países mais necessitados do continente, inclusive aos Estados Unidos. Cerca de 500 jovens negros e pobres estadunidenses estudam medicina em Cuba, gratuitamente. Quando voltarem formados para os EUA, poderão praticar medicina social nos bairros negros do Harlem e do Brooklin onde viviam; Segundo disseram estes próprios estudantes, se tivessem lá continuado provavelmente teriam sido capturados pelas perversas redes e garras do narcotráfico. Nos EUA dificilmente poderiam estudar medicina. Em contraponto ao bloqueio econômico e às agressões que sofre há décadas dos EUA, Cuba “contra-ataca” doando ao povo norte-americano a generosa formação humanizada de centenas de seus filhos.

Consciência generosa e solidária

O Brasil vai nesta direção. Além da Unilab, que dará oportunidade para que jovens africanos formem-se em nível superior, ombro a ombro com estudantes brasileiros, proporcionando mutuamente a formação de uma consciência generosa e solidária, marcada pelo reconhecimento que todos os povos do mundo e nós brasileiros em particular temos em relação aos povos africanos! Para além da Unilab, também na linha de pagar nossa dívida, está a instalação de unidades da Embrapa em território africano, e vem sendo mencionado por Lula o propósito de estimular a produção de agroenergia, permitindo a autonomia,a independência e a soberania tanto energética quanto alimentar dos povos africanos, em sua maioria ainda dependentes da importação de petróleo, ou ainda sem capacidade para a geração de energia elétrica.

Mandela , Cuba e a Mama África

No final do ato de sanção do Estatuto da Igualdade Racial, Lula disse que agora somos uma nação um pouco mais negra, um pouco mais branca e , sobretudo, um pouco mais igual. Perante o mundo, comparecemos com uma iniciativa que nos coloca em diferencial positivo e generoso. De certo modo, tomamos de Cuba uma parte de sua solidariedade para com os africanos, muito embora Cuba tenha chegado ao ponto de pegar em armas para defender a independência de Angola, derrotando o exército racista da África do Sul na Batalha de Cuito Cuanavale, e, com isto, derrotando o próprio regime do apartheid, como reconhece Mandela, dedicando esta conquista ao povo cubano.

Mesmo que ainda tenhamos tantas dívidas não pagas internamente e tantas desigualdades ainda não resolvidas, agora somos nós brasileiros a nos lançar, como nação, ao pagamento da gigantesca e dolorosa dívida que temos para com os povos da África. E com ações concretas: uma universidade, a presença de uma estatal como a Embrapa, políticas e convênios etc. Vamos apostando, como nação, num mundo mais justo, mais solidário, mais humano, incorporando a África, quando muitos países a consideram continente descartável. Muito breve, poderemos estar fazendo como o generoso povo cubano, enviando médicos, técnicos e professores para a Mama África. Construindo as bases para que se faça o trajeto contrário dos navios negreiros, humanizando o retorno na forma de conhecimento, tecnologia, saber e solidariedade.

Enquanto isto, muitos países, sobretudo os ricos que apoiaram o animalesco regime do apartheid no passado, seguem o vergonhoso exemplo de espalhar tropas e morte pelo mundo. O Brasil está em outra direção!

(*) Beto Almeida é Diretor da Telesur

terça-feira, 11 de maio de 2010

Brasil e o fardo do Analfabetismo

É triste vir ao mundo e não sonhar, nem que seja através dos livros. Mas o placar trágico do analfabetismo que escancara as contradições sócio-econômicas de nosso país, conforme a matéria adiante prefigura, deverá ser zerado até 2022, quando nossa independência política (parcial) completará 200 anos, pois um povo que ainda não aprendeu a ler minimamente seu passado (por incompetência política historicamente nacional, diga-se de passagem), está completamente desautorizado a escrever um futuro justo e dignamente soberano para a geração que há de vir... e sonhar melhor.

(Comentários do blog Grito Pacífico, mudando o mundo com você)

BICENTENÁRIO, ANALFABETISMO E POTÊNCIA SOCIAL

FONTE: Agência Carta Maior - 11/05/2010
LINK: http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=16589 - 11/05/2010 - por Beto Almeida.

O Plano Brasil 2022 estabelece metas e define os instrumentos para que o País se torne uma potência social quando comemorar o bicentenário de sua independência. Um país sem analfabetos e miseráveis, com água encanada, tratada e esgoto alcançando a todos. E , sobretudo, reduzindo as dramáticas vulnerabilidades externas de que o Brasil ainda padece. Essa sim é uma forma de comemorar uma data importante. Seria paradoxal falar em independência quando ainda somos dependentes de medicamentos e fertilizantes estrangeiros, só para citar dois exemplos que demonstram o quão perigosa é esta dependência. O artigo é de Beto Almeida.

Talvez seja a primeira vez que o Brasil perceba tanta clareza, realismo e pontaria num projeto estratégico de longo prazo, sem escorregar para um discurso de Brasil Potência do passado ditatorial que desprezava por completo a existência de um povo majoritariamente pobre habitando e construindo este país. Agora, as metas realçam os objetivos sociais. É como se o discurso lúcido do Ministro Samuel Pinheiro Guimarães estivesse a nos alertar: não podemos ser Brasil Potência com milhões de analfabetos, sem saneamento básico, sem cinema, sem cultura, com 60 mil homicídios por ano, com nossa juventude pobre capturada pelo narcotráfico, com a situação dantesca dos nossos hospitais públicos!!!

Naquele discurso anterior, constatava-se, com um tom de arrogância, a defesa de um tipo de desenvolvimento que concentrava a riqueza e penalizava o povo brasileiro. Aí está o resultado: somos um país emergente, mas ainda somos um dos campeões mundiais em desigualdade social! O Plano Brasil 2022 vem para corrigir aquele modelo: temos que ser potência social!

Monteiro Lobato e analfabetismo

Incansável na luta pela democratização da cultura, o genial Monteiro Lobato sempre sentiu a amarga barreira social do analfabetismo a travar o progresso do povo brasileiro. Procurou a família Mesquita, proprietária do centenário jornal paulista. Disse-lhes que a imprensa poderia ter um papel determinante colaborando para a erradicação do analfabetismo, e propôs claramente uma ação prática, conjunta. Um dos membros da família, pensou na proposta, matutou em silêncio e afinal disparou: “Oh Lobato, mas se todos aprenderem a ler e escrever...... quem é que vai pegar na enxada???!!!” Confissão da indiferença social das elites, sempre operando para impedir o combate concreto ao analfabetismo como um das prioridades nacionais.

Enterramos nossos geniais educadores - Anísio Teixeira, Darcy Ribeiro e Paulo Freire - possivelmente com a mágoa de não terem alcançado tarefa tão nobre, libertadora e tão realizável. A não ser quando as políticas públicas não priorizam o combate ao analfabetismo. Ele está sempre a nos desafiar. Anísio morreu em circunstância estranhas no auge da ditadura, enquanto Paulo Freire e Darcy foram enxotados para o exílio. Para nossa vergonha, foram altamente reconhecidos internacionalmente pelas suas qualidades, mas não aqui. Vários governos os contrataram para que atuassem nas políticas públicas de superação da ignorância e do atraso social. Darcy esteve no Chile de Allende e no Peru de Alvarado a enfrentar as mesmas oligarquias que aqui cultivaram sempre a manutenção do analfabetismo. Paulo Freire caminhou com seu método libertário pela África que derrotava o colonialismo português e depois foi recebido de braços abertos pela Nicarágua Sandinista que, com um ano da Cruzada Nacional de Alfabetização, viu um povo campesino e pobre aprender a ler e escrever. Com a ajuda de professores cubanos - muitos assassinados pela contra-revolução a soldo norte-americano - pois Cuba desde o início da década de 60 já não convivia mais com esta praga social do analfabetismo, erradicado em 1 ano, com intensa e generosa mobilização social, e já tinha condições de exportar educadores.

De tal forma o analfabetismo nos persegue e nos desafia que em 1988, na Constituição Cidadã, em suas Disposições Transitórias, é fixado o prazo de 10 anos para a sua eliminação. Como tantas metas constitucionais, esta também não foi cumprida. No entanto, foi cumprida religiosamente aquela contida no artigo 166 da Carta, praticamente sacralizando o pagamento dos serviços da dívida, proibindo constitucional mente sua suspensão, em qualquer situação. Esta é uma invenção financeira brasileiríssima, nenhum país tem dispositivo semelhante em sua Constituição. Serviços da dívida pagos aos rentistas, intocáveis; combate ao analfabetismo.....deixa prá depois.

Sabotagens

A Argentina praticamente erradicou o analfabetismo em 1952. Ele tendeu a ressurgir na década neoliberal, quando mais se espalharam villas miséria (favelas) e desemprego pelo País vizinho. Segundo estudos do prof. Márcio Pochmann, presidente do IPEA, se a política econômica implantada na Era Vargas não tivesse sido demolida o Brasil seria hoje a terceira maior economia do mundo. Foi lá atrás o início do Programa Nuclear Brasileiro, a industrialização, a nacionalização da energia, da marinha mercante,das ferrovias, medidas combinadas com a implantação de direitos trabalhistas e a seguridade social. Uma grande sabotagem veio em 1954, com o golpe que leva o presidente Vargas ao suicídio.

Nova sabotagem veio em 1964, com a plena vitória do golpe que não alcançou seu objetivo total em 1954, o tiro no coração frusta o golpismo. A derrota da ditadura não impediu que também a estrutura montada na Era Vargas pudesse ser preservada no vendaval neoliberal dos anos 90.

Hoje, novamente, o povo brasileiro está buscando impulsionar, com suas lutas e o seu voto, um processo de mudanças que permita ao Brasil ter toda sua potencialidade desenvolvida como nação justa, democrática e soberana. O Plano 2022 é uma expressão desta busca. Mas, ainda assim, sabotagens várias continuam operando.

Uma delas, a pressão para a manutenção de altas taxas de juros. A cada nova elevação quantas pequenas e médias empresas vão à falência? Quantos novos desempregados surgem? Quantos destes não vão engordar uma população carcerária tratada de modo animal, sem que as políticas de direitos humanos consigam evitar a prática diária de torturas, aumentando a ferocidade destes presidiários quando soltos? A taxa de juros alta inibe a produção, o crescimento da economia que permitiria gerar mais emprego, fortalecer o consumo, o mercado interno. Eis aí uma sabotagem promovida pelo poder financeiro, com apoio midiático, que sempre torce e enaltece a elevação dos juros.

Possibilidades

Apesar disso, as possibilidades de que as metas do Plano Brasil 2022 sejam cumpridas são reais, inclusive com a clara possibilidade de que tais armadilhas sejam desativadas por meio do fortalecimento das políticas públicas. Os bancos públicos brasileiros se fortaleceram com a crise internacional do capitalismo eclodida em 208 e ainda não debelada, muito pelo contrário. As lições são claras: os países que menos sofreram com a crise são aqueles que possuem alto grau de controle estatal sobre o seu sistema financeiro, China e Índia, fundamentalmente.

Enfrentadas estas sabotagens, teremos sim possibilidades não apenas de promover no Brasil um crescimento econômico que não se combine com indecente acumulação de capital, mas com sua distribuição. Muitas das políticas públicas já implementadas recentemente, como a Bolsa Família, cuja expansão é sugerida pelo Ministro Samuel Pinheiro Guimarães, já estão provando que ações de estado são capazes sim de reduzir a desnutrição, aumentar o consumo de bens essenciais, muito embora a miséria extrema ainda não tenha sido totalmente debelada. Esta é a meta.

Ao tempo em que registramos a expansão do número de universidades públicas, de escolas técnicas, de ampliação dos recursos para a educação básica, a própria colocação da meta de erradicar o analfabetismo para 2022 talvez indique, por si só, não ter havido, até o momento, uma priorização de medidas eficazes para alcançá-lo.

A comparação é inevitável. Países como economia muito mais frágeis e como menos recursos que a brasileira, como Cuba, Nicarágua, Venezuela, Equador e Bolívia - esta talvez a economia mais débil da América do Sul - já conseguiram erradicar o analfabetismo, tal como anunciou a UNESCO. Nem mesmo estas simples informações objetivas são divulgadas à sociedade brasileira. Recentemente, um experimentado professor de Relações Internacionais de universidade pública confessou desconhecer o fato de que a Bolívia, com toda sua dramática herança social, já tinha alcançado superar o analfabetismo. E duvidou. Até quando lhe foi apresentada a declaração da UNESCO reconhecendo a gigantesca conquista da nação andina. Informação que a mídia jamais divulgou....

Ora, se a Bolívia conseguiu, por que não nós? Se a China conseguiu, há muito tempo, alfabetizar seu povo, arrancá-lo do poço de miséria e doenças em que vivia, transformando-se hoje numa potência que atua no espaço sideral e no país que mais fabrica computadores do mundo, por que não nós?

O Plano Brasil 2022, que será submetido a consulta pública, tem este mérito. Define claramente os alvos, não ignora nossa gigantesca dívida social, não teme afirmar que pretendemos ser uma potência olímpica, que devemos ter índices de saúde e educação muitíssimos mais elevados, não teme reconhecer que ainda estamos em dívida com os brasileiros. Já não exalta mais um tipo de crescimento reduzido a indicadores de produção e de economia. É um claro sinal de alerta para que saibamos, como Nação, rejeitar a idéia de um Brasil potência com um povo miserável, sem educação, desdentado, sem saúde, sem saneamento, sem emprego, com toda uma juventude nos cárceres. O povo brasileiro, pela sua história, merece que os trilionários recursos do petróleo pré-sal, ao invés de abocanhados pelas transnacionais que levaram Vargas à morte, sejam a alavanca fundamental de transformações sociais que transformem o Brasil não apenas numa economia forte, mas também numa potência social. O Plano Brasil 2022 é um sinal de consciência de que isto é possível! Muito embora, as sabotagens existam e devam ser enfrentadas corajosamente.

(OBS.: indico a crônica Quem viver até 2022, lerá?, inspirada nesta postagem.)

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

HAITI: a pátria circunstancial dos EUA

"O compromisso com o Haiti não é novo nem circunstancial", disse recentemente o governo brasileiro em uma nota na qual informa que essa é a terceira vez que Lula viaja ao país, o qual já visitou em agosto de 2004 e em maio de 2008, o que "confirma a prioridade conferida ao Haiti pela política externa brasileira".

Fui um pouco “oportunista”, pois decidi começar esta crônica com um parágrafo ao qual eu nunca fui explicitamente chamado, retirado a propósito desta notícia ("Lula chega ao Haiti para expressar apoio e assinar acordos"), que acabei de ler no Portal Ig. Aproveitando meu momento “cafajeste”, cometerei um novo “pecado”, se bem que atenuado o suficiente para ser logo perdoado, pois a nova referência que evoco consiste em uma outra crônica minha sobre o mesmo assunto: "Militarizando o desserviço ao Haiti".

Façamos agora um exercício hipotético de turismo patriótico. Imagine-se acordando brasileiro, no transcorrer do dia se tornando norte-americano para depois dormir haitiano. É possível assumir nacionalidades diferentes como quem muda de roupa? Até as máscaras bonitinhas que camuflam nossas eventuais intenções mesquinhas precisam de um tempo mínimo para decantarem, se ajustarem e se acostumarem com os padrões dominantes de hipocrisia que se prestam a dissimular.

Vamos dar um zoom na frase primeira e central que motivou esse texto: “o compromisso com o Haiti não é novo vem circunstancial”. Em outras palavras, o Brasil não tem essa mania cinematográfica (hollyudiana mesma, literalmente falando, e belicamente também) de se arvorar na condição pop de superpaís, de superpotência aventureira que sai distribuindo bases militares mundo afora a pretexto, por exemplo, de proteger e vigiar os mares alheios contra monstros terroristas e ocasionalmente atômicos que ameacem perturbar as fronteiras “modernamente democráticas” dos países aliados; como Israel no Oriente Médio e Colômbia na América Latina.

Como todo super-herói tem poderes extraordinários e se acha imbuído de missões as mais diversas - ainda que novas e circunstanciais, frise-se bem -, os EUA nunca mais seriam os mesmos se não tivessem estendido seus tapetes altruístas e caridosos para o Haiti, duramente vitimado por um terremoto cujos impactos parecem ter sacudido espiritualmente o coração de toda a diplomacia norte-americana. (Vale acrescentar que essa triste sina do Haiti, como o escritor Eduardo Galeano relembrou, remonta às políticas sujas e invasivas que os mesmos EUA já aprontaram.)

Pois bem, a reação dos EUA foi olímpica, peremptória, esplendorosa, digna do Oscar do Oportunismo, sequer se lembrando de dialogar com a ONU e planejar melhor as coisas com a missão brasileira que já vinha liderando as operações por lá: instituíram um fundo Clinton-Bush (usando o nome indigesto do Bush) para arrecadar donativos, se apossaram do espaço aéreo para controlar do jeito deles a ajuda estrangeira e, o que foi efetivamente controverso, mandaram 12.000 soldados para “passear” no Haiti, como se o povo nativo fosse apático e não tivesse braços para acolher os feridos e pernas para avançar no enfrentamento de seus dramas, contando necessariamente com o suporte já estabelecido (e que passaria por emergencial ampliação) de vários organismos e serviços humanitários, incluindo relevantes ações cubanas de saúde.

Essa é a lição de ética (geralmente pelo avesso) que aprendemos com os EUA. Surge (ou fabrica-se) uma propagação de epidemia (como a gripe suína), suas indústrias de remédio são as primeiras a “ajudar” e lucrar. Quando sentem cheiro de petróleo no ar, rasgam soberanias de países frágeis para com novos negócios “cooperar” e lucrar. Quando algum presidente não lhes diz amém e ousam remar na maré oposta ao neo-liberalismo, dão uma aula-show de anti-jornalismo, visando “desinformar” e lucrar.

Portanto, em vez de terem mobilizado um “exército verde” de ambientalistas sérios e competentemente autorizados a evitar o fracasso da Conferência do Clima ocorrida ano passado em Copenhage, na Dinamarca; os EUA valeram-se da “sorte geopolítica” trazida pela fúria da natureza contra o Haiti, e, da noite para o dia, metamorfosearam-se (como se iluminados provisoriamente por um mandato divino imperial) em seus superanjos salvadores, carregando nessa travessia pseudocivilizatória as asas manchadas sabe-se lá com quantos interesses inconfessáveis, diabólicos.

domingo, 10 de maio de 2009

POESIA ESPECIAL: Fonte Maternal de Justiça

FONTE MATERNAL DE JUSTIÇA

Mãe, contigo tudo é mais puro, leve e familiar
Tua sensibilidade calou o meu medo de chorar
Deu-me inclusive asas para enxergar e sonhar
Com um mundo onde todos tenham algum lar

Mesmo sério e calado, saiba o quanto te amo
Tuas tristezas colocam em greve o meu sorrir
Teu útero é a terra que aduba o nosso existir
Tuas lições põem o caráter em primeiro plano

Obrigado, mães argentinas da Praça de Maio
Vossa heróica resistência à ditadura é um raio
A desbravar tal cometa as trevas de opressão
Urdida em tons que infectaram até a televisão

Mães de políticos, conscientizem seus filhos
Mãe indígena, só tu sabes zelar pela natureza
Mãe de corruptos, aborta tamanha malvadeza
Mãe do Gilmar, bota ele nas ruas; e nos trilhos

( Por PABLO ROBLES - POETA DO SOCIAL )

Em Homenagem ao Dia das Mães 2009

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Dom Hélder: um exemplo imorredouro

Quantas pessoas vocacionadas para a justiça social, de trajetória iluminada e legado inabalável, tiveram seus nomes preteridos ao Prêmio Nobel da Paz por motivo de campanhas caluniosas e difamatórias? Pois os militares e intelectuais coniventes da ditadura brasileira conseguiram abortar as quatro indicações (plenamente justas) recebidas por Dom Hélder Câmara. Apesar deste lapso, o mundo soube reconhecer, por inúmeras e categóricas vias, a grandeza deste religioso, cuja fé comungava inexoravelmente com a sede de justiça em favor dos oprimidos e excluídos. Deve-se a ele a coragem de denunciar em Paris, pela primeira vez, a prática de tortura contra presos políticos no Brasil. Ainda sob o clima do seu centenário de nascimento, o artigo abaixo corrobora os feitos deste meu conterrâneo cearense que depois foi brilhar em outra seara nordestina. Que a luz do seu exemplo continue acesa entre os católicos, religiosos em geral e demais cidadãos de bem!

(Comentários introdutórios de Grito Pacífico, mudando o mundo com você)

DOM HÉLDER CÂMARA: SINÔNIMO DE JUSTIÇA E PAZ

FONTE: http://www.antonioviana.com.br/2009/site/ver_noticia.php?id=53999

Por Messias Pontes - 04/02/2009

"Os amantes da justiça e da paz, em todo o mundo, e em especial no Nordeste brasileiro, comemoram com entusiasmo o centenário do cearense mais ilustre do século XX. Trata-se de Dom Hélder Pessoa Câmara, nascido em Fortaleza no dia 7 de fevereiro de 1909, décimo-primeiro filho de uma família de classe média.

Aquele menino pequeno e franzino entrou no Seminário Diocesano de Fortaleza com 14 anos de idade, sendo ordenado padre aos 22 anos, no dia 15 de agosto de 1931, com autorização especial do Vaticano, pois não possuía a idade mínima exigida. Desde cedo demonstrou interesse pelo trabalho com os mais humildes e excluídos da sociedade, tendo fundado, no mesmo ano da sua ordenação, a Legião Cearense do Trabalho, e, dois anos depois, a Sindicalização Operária Feminina Católica, que congregava as lavadeiras, engomadeiras e empregadas domésticas.

Em 1936, o padre Hélder transferiu-se para o Rio de Janeiro, dedicando-se às atividades apostólicas. Aos 43 anos foi ordenado bispo, sendo nomeado bispo auxiliar do Rio de Janeiro no dia 3 de março de 1952. Em 27 de agosto de 1999, este extraordinário pequeno-grande deixou de respirar o ar poluído pela hipocrisia e pelo capitalismo, e foi buscar noutra dimensão o ar puro da verdade, da solidariedade, da justiça e da paz.

Estes dados iniciais, com todas as minúcias, destinam-se a um certo desembargador do Tribunal Regional do Trabalho, da 7ª Região, que disse não saber quem era Dom Hélder Câmara. Isto para justificar a injustificável retirada do nome daquele sacerdote do prédio anexo ao Fórum Autran Nunes, no Centro da capital cearense, para colocar o do seu pai já falecido, como ele desembargador. Indignada, a desembargadora Dulcina Palhano retirou-se em sinal de protesto. A reação de vários segmentos da sociedade foi tamanha que a decisão foi revogada pelo mesmo placar de quatro a três.

Dom Hélder foi um dos fundadores da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e do Conselho Episcopal Latino-Americano (Celam), tendo destacada atuação no Concílio Vaticano II,oportunidade em que foi um dos propositores e signatários do Pacto das Catacumbas, que teve forte influência na Teologia da Libertação.

Ao chegar à capital pernambucana em 1964 para assumir a Arquidiocese de Olinda e Recife, foi recepcionado por uma multidão, mas também por oficiais do 4º Exército que lhe apresentaram uma lista de religiosos – padres, freiras e leigos - que deveriam ser transferidos para bem longe. Ao receber a lista, Dom Hélder ironizou, afirmando que faltava um nome. Logo um general perguntou: mas quem? E ele respondeu: o de Dom Hélder Câmara.

Se os generais golpistas já olhavam para Dom Hélder com desconfiança, em função das suas posições progressistas e, principalmente o seu compromisso explícito com os excluídos da sociedade, a partir daquele momento passaram a odiá-lo, impedindo-o até de ter acesso aos meios de comunicação de massa para divulgar as suas mensagens durante todo o período ditatorial, encerrado em 15 de março de 1985. Mesmo as emissoras católicas em todo o País eram proibidas até de citar o seu nome.

Lembro-me bem de quando comecei a trabalhar no MEB-Fortaleza (Movimento de Educação de Base), no final da década de 1960. Havia um flanelógrafo ao lado do estúdio da Rádio Assunção Cearense com as determinações baixadas pelo diretor da emissora, radialista Geraldo Fontenele, onde se destacava a proibição de pelo menos citar o nome de Dom Hélder Câmara, Dom Antonio Fragoso (bispo de Crateús), Dom José Maria Pires, também conhecido por Dom Pelé por causa da sua cor (bispo da Paraíba) e até mesmo do general da ativa do Exército, o cearense Albuquerque Lima porque este era contra a ditadura militar. Porém a recomendação maior era para Dom Hélder.

Tive o privilégio de passar uma manhã de sábado com ele em Olinda, em 1970, levado pelo conterrâneo e amigo padre Oliveira Rocha, então vigário da paróquia de Jardim São Paulo, em Recife. Ele demonstrou estar feliz por receber um conterrâneo que comungava com ele da mesma luta pelas liberdades democráticas e por uma sociedade sem exploradores e explorados, sem analfabetismo, sem prostituição, sem fome, sem miséria, onde todos tenham o sagrado direito a todos os direitos, inclusive à informação sem manipulação.

Depois de muito tempo de conversa, Dom Hélder foi me mostrar a parede externa do quarto onde dormia, toda perfurada de balas de metralhadora. “Foram nossos irmãos equivocados do Exército, mas eles não me amedrontam. Eles já tiveram muitas oportunidades, mas não têm coragem de me matar por causa da repercussão internacional”, disse ele com um sorriso encantador. Aliás, o seu sorriso era sempre encantador. Ele conquistava as pessoas pelo coração e pelo sorriso. Era uma pessoa ímpar. Impressionante!

Ao exigir a abertura democrática no Brasil e denunciar, aqui e lá fora, os crimes da ditadura militar, os generais golpistas passaram a persegui-lo e até ameaçá-lo de morte. Sua casa em Olinda – a sacristia da igreja - foi metralhada em 1970 como forma de amedrontá-lo, mas Dom Hélder continuava mais firme ainda na defesa da democracia e dos direitos humanos.

Ele celebrava a missa diariamente pela manhã. Ao terminar, pedia ao sacristão que levasse para tomar café com ele os mendigos que estivessem por perto. Tratava-os todos comi irmãos e com muito carinho. Costumava dizer que “quando dou pão aos pobres, chamam-me de santo, mas quando pergunto pelas causas da pobreza, chamam-me de comunista”.

Pela sua incansável luta em defesa da justiça e dos direitos humanos, Dom Hélder teve seu nome quatro vezes indicado para receber o Prêmio Nobel da Paz. No entanto foi preterido as quatro vezes em função das pressões dos militares colonizados e golpistas que se utilizavam de empresários venais e reacionários como o dono do jornal O Estado de São Paulo, Júlio Mesquita, que foi a Oslo pressionar o comitê designado pelo parlamento norueguês para retirar o nome do pequeno-gigante cearense dos concorrentes do Nobel da Paz.

Dom Hélder escreveu mais de uma dezenas de livros que foram traduzidos em diversos idiomas, entre eles o espanhol, inglês, francês, alemão, japonês, coreano, italiano, norueguês, sueco, dinamarquês, holandês e finlandês. Além disso, ele recebeu 32 títulos de Doutor Honoris Causa e 24 prêmios dos mais diversos órgãos internacionais, e 30 títulos de cidadania em municípios brasileiros. Se vivo fosse, certamente teria ido a Belém (PA) participar do Fórum Social Mundial.

Por toda sua luta em defesa da verdade, da justiça e da paz (sem justiça não há paz, costumava enfatizar), pelas perseguições sofridas e pela coragem com que enfrentou os “poderosos”, Dom Hélder Câmara merecia um monumento em cada cidade, em cada bairro deste País. Infelizmente somente a paróquia de Santo Afonso, no bairro Parquelândia, comandada pelo padre Geovane, ergueu uma estátua dele em frente à igreja.

A programação em Recife para comemorar o centenário de nascimento deste gigante amante da liberdade, da justiça e da paz é das mais extensas, compreendendo não só o 7 de fevereiro, mas todo o ano de 2009. A Prefeitura Municipal de Fortaleza e o Governo do Estado do Ceará - como bem disse em artigo publicado na semana passada no jornal O Povo o médico e ex-vereador por Fortaleza José Maria Pontes - estão devendo um memorial em homenagem a Dom Hélder Câmara na capital cearense.

Para homenagear a pessoa e as obras do Arcebispo Emérito de Recife e Olinda, a Arquidiocese de Fortaleza realizará no próximo sábado 7 uma Celebração Eucarística em comemoração aos 100 anos de nascimento do Dom na paróquia de Santo Afonso, na Parquelândia".

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Repúdio à infeliz "ditabranda" da Folha

Violência não se negocia, se relativiza e se revisa. A Folha de São Paulo, em editorial recente, prestou um péssimo desserviço aos leitores. Ao atenuar as mazelas da ditadura que aterrorizou o Brasil durante 21 anos, a Folha demonstra indisfarçável cumplicidade e insensibilidade frente a este capítulo infame de nossa história política. As profundas perdas que ficaram para trás e os vestígios dolorosos que sobreviveram não autorizam qualquer concessão nessa matéria. Enquanto finalizo este comentário, o manifesto eletrônico já conseguiu reunir mais de 2600 assinaturas virtuais. A minha foi a de número 2609. Participe também! Encerro com as palavras bem felizes de outro signatário: "Ao tentar esconder o seu passado no presente, a FOLHA DE SÃO PAULO consegue, no máximo, enterrar o seu próprio futuro".

(Comentários indignados de Grito Pacífico, mudando o mundo com você)

REPÚDIO À "DITABRANDA" DA FOLHA DE SÃO PAULO

FONTE: http://vermelho.org.br/base.asp?texto=51452 - 24/02/2009

Circula pela internet um manifesto [veja adiante], aberto à adesão dos interessados, de repúdio ao editorial da Folha de S. Paulo publicado na semana passada. Na ocasião, para desqualificar a vitória de Hugo Chávez num referendo democrático sobre a possibilidade da reeleição o jornal da família Frias escancarou toda a sua postura autoritária ao insinuar que o governo bolivariano seria pior do que a ditadura militar brasileira que prendeu, matou e torturou milhares de patriotas entre 1964-1984.

O asqueroso editorial chega a qualificar a ditadura brasileira de ''ditabranda''. Já em relação à Itália de Berlusconi que, com suas ''rondas de cidadãos'' e sua pretensão de que nos médicos delatem estrangeiros em situação irregular, transita perigosamente para o fascismo e a ditadura que o caracteriza, a Folha e seus notórios editorialistas calam-se significativamente. Será o fascismo também uma ''ditabranda''?

Além do repúdio, a petição também presta solidariedade à professora Maria Victoria Benevides e ao jurista Fabio Konder Comparato, os primeiros a condenarem o editorial na sessão de cartas do jornal, tendo sido insultados pela direção daquele jornal. ''Que infâmia é essa de chamar os anos terríveis da repressão de 'ditabranda'?'', questionou Benevides. ''O autor do vergonhoso editorial e o diretor que o aprovou deveriam ser condenados a ficar de joelhos em praça púbica e pedir perdão ao povo brasileiro, cuja dignidade foi descaradamente enxovalhada'', afirmou Comparato.

A resposta do jornal lembrou a reação de Bush, Cheney e Rumsfeld aos críticos de suas políticas terroristas. ''A Folha respeita a opinião dos leitores que discordam da qualificação aplicada em editorial ao regime militar brasileiro e publica algumas delas. Quanto aos professores Comparato e Benevides, figuras públicas que até hoje não expressaram repúdio às ditaduras de esquerda, como aquela ainda vigente em Cuba, sua 'indignação' é obviamente cínica e mentirosa''. Juntos, o editorial fascista e a resposta arrogante indicam a urgência da coleta de adesões ao manifesto de repúdio à Folha de S. Paulo.

Como afirma o documento, que já colheu mais de mil adesões, ''ante a viva lembrança da dura e permanente violência desencadeada pelo regime militar de 64, os abaixo-assinados manifestam o seu mais firme e veemente repúdio a arbitrária e inverídica revisão histórica contida no editorial da Folha de S. Paulo de 17 de fevereiro. Ao denominar de 'ditabranda' o regime político vigente no Brasil de 1964 a 1985, a direção do jornal insulta e avilta a memória dos muitos brasileiros e brasileiras que lutaram pela redemocratização do país... O estelionato semântico manifesto pelo neologismo 'ditabranda' é, a rigor, uma fraudulenta revisão histórica forjada por uma minoria que se beneficiou da suspensão das liberdades e direitos democráticos no pós-1964''.

CONTEÚDO DO MANIFESTO DE REPÚDIO E SOLIDARIEDADE

FONTE: http://www.ipetitions.com/petition/solidariedadeabenevidesecomparat/index.html

Ante a viva lembranca da dura e permanente violencia desencadeada pelo regime militar de 1964, os abaixo-assinados manifestam seu mais firme e veemente repudio a arbitraria e inveridica revisao historica contida no editorial da Folha de S. Paulo do dia 17 de fevereiro de 2009. Ao denominar ditabranda o regime politico vigente no Brasil de 1964 a 1985, a direcao editorial do jornal insulta e avilta a memoria dos muitos brasileiros e brasileiras que lutaram pela redemocratizacao do pais. Perseguicoes, prisoes iniquas, torturas, assassinatos, suicidios forjados e execucoes sumarias foram crimes corriqueiramente praticados pela ditadura militar no periodo mais longo e sombrio da historia política brasileira. O estelionato semantico manifesto pelo neologismo ditabranda e, a rigor, uma fraudulenta revisao historica forjada por uma minoria que se beneficiou da suspensao das liberdades e direitos democraticos no pos-1964.

Repudiamos, de forma igualmente firme e contundente, a Nota de redacao, publicada pelo jornal em 20 de fevereiro (p. 3) em resposta as cartas enviadas a Painel do Leitor pelos professores Maria Victoria de Mesquita Benevides e Fabio Konder Comparato. Sem razoes ou argumentos, a Folha de S. Paulo perpetrou ataques ignominiosos, arbitrarios e irresponsaveis a atuacao desses dois combativos academicos e intelectuais brasileiros. Assim, vimos manifestar-lhes nosso irrestrito apoio e solidariedade ante as insolitas criticas pessoais e politicas contidas na infamante nota da direcao editorial do jornal.

Pela luta pertinaz e consequente em defesa dos direitos humanos, Maria Victoria Benevides e Fabio Konder Comparato merecem o reconhecimento e o respeito de todo o povo brasileiro.

sábado, 17 de janeiro de 2009

MST: 25 Anos de Luta, União e Coerência

Se a Petrobrás é um orgulho econômico do Brasil, o MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra), sem dúvida, é um dos maiores orgulhos populares de nosso país, que carrega o triste fardo de uma reforma agrária inconclusa, reiteradamente embargada pelos latifundiários que sempre ditaram as regras no campo.

Há um quarto de século, o MST vem sacudindo as utopias no campo em prol da justiça agrária, cujos lemas foram sendo encampados e atualizados em quatro congressos nacionais promovidos pelo Movimento: 1985 - "Ocupação é a única solução"; 1990 - "Ocupar, resistir, produzir"; 1995 - "Reforma Agrária, uma luta de todos"; 2000 - "Por um Brasil sem latifúndio".

Vale destacar a visão lúcida, abrangente e transformadora do MST, cujos membros firmemente engajados em 24 Estados do país, para além das questões e bandeiras rurais, aspiram pela refundação social do Brasil, pautando-se pela edificação de um projeto popular, sustentável e soberano de desenvolvimento nacional.

Como frisa o balanço abaixo, "todos os países considerados desenvolvidos atualmente fizeram reforma agrária". EUA, por exemplo, começou a sua em 1862. E o Brasil, quando finalmente pagará sua dívida agrária aos povos do campo?

(Comentários textuais do Grito Pacífico, mudando o mundo com você)

UM HISTÓRICO DO MST
16/01/2009

LINK: http://www.mst.org.br/mst/pagina.php?cd=6206

O Brasil vivia uma conjuntura de duras lutas pela abertura política, pelo fim da ditadura e de mobilizações operárias nas cidades. Como parte desse contexto, entre 20 e 22 de janeiro de 1984, foi realizado o 1º Encontro Nacional dos Sem Terra, em Cascavel, no Paraná. Ou seja, o Movimento não tem um dia de fundação, mas essa reunião marca o ponto de partida da sua construção.

A atividade reuniu 80 trabalhadores rurais que ajudavam a organizar ocupações de terra em 12 estados: Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Mato Grosso do Sul, Espírito Santo, Bahia, Pará, Goiás, Rondônia, Acre e Roraima, além de representantes da Abra (Associação Brasileira de Reforma Agrária), da CUT (Central Única dos Trabalhadores), do Cimi (Conselho Indigenista Missionário) e da Pastoral Operária de São Paulo.

Os participantes concluíram que a ocupação de terra era uma ferramenta fundamental e legítima das trabalhadoras e trabalhadores rurais em luta pela democratização da terra. A partir desse encontro, os trabalhadores rurais saíram com a tarefa de construir um movimento orgânico, a nível nacional. Os objetivos foram definidos: a luta pela terra, a luta pela Reforma Agrária e um novo modelo agrícola, e a luta por transformações na estrutura da sociedade brasileira e um projeto de desenvolvimento nacional com justiça social.

Em 1985, em meio ao clima da campanha "Diretas Já", o MST realizou seu 1º Congresso Nacional, em Curitiba, no Paraná, cuja palavra de ordem era: "Ocupação é a única solução". Neste mesmo ano, o governo de José Sarney aprovou o Plano Nacional de Reforma Agrária (PNRA), que tinha por objetivo dar aplicação rápida ao Estatuto da Terra e viabilizar a Reforma Agrária até o fim do mandato do presidente, assentando 1,4 milhão de famílias.

A proposta de Reforma Agrária ficou apenas no papel. O governo Sarney, pressionado pelos interesses do latifúndio, ao final de um mandato de cinco anos, assentou menos de 90 mil famílias sem-terra. Ou seja, apenas 6% das metas estabelecidas no PNRA foi cumprida por aquele governo. Com a articulação para a Assembléia Constituinte, os ruralistas se organizam na criação da União Democrática Ruralista (UDR) e atuam em três frentes: o braço armado - incentivando a violência no campo -, a bancada ruralista no parlamento e a mídia como aliada.

Embora os ruralistas tenham imposto emendas na Constituição de 1988, que significaram um retrocesso em relação ao Estatuto da Terra, os movimentos sociais tiveram uma importante conquista. Os artigos 184 e 186 fazem referência à função social da terra e determinam que, quando ela for violada, a terra seja desapropriada para fins de Reforma Agrária. Esse foi também um período em que o MST reafirmou sua autonomia, definiu seus símbolos, bandeira e hino. Assim, foram se estruturando os diversos setores dentro do Movimento.
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Anos 90
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A eleição de Fernando Collor de Mello para a presidência da República, em 1989, representou um retrocesso na luta pela terra. Ele era declaradamente contra a Reforma Agrária e tinha ruralistas como seus aliados de governo. Foram tempos de repressão contra os Sem Terra, despejos violentos, assassinatos e prisões arbitrárias. Em 1990, ocorreu o II Congresso do MST, em Brasília, que continuou debatendo a organização interna, as ocupações e, principalmente, a expansão do Movimento em nível nacional. A palavra de ordem era: "Ocupar, resistir, produzir".

Em 1994, Fernando Henrique Cardoso vence as eleições com um projeto de governo neoliberal, principalmente para o campo. É o momento em que se prioriza novamente a agroexportação. Ou seja, em vez de incentivar a produção de alimentos, a política agrícola está voltada para atender aos interesses do mercado internacional e gerar os dólares necessários para pagar os juros da dívida pública.

O MST realizou seu 3º Congresso Nacional, em Brasília, em 1995, quando reafirmou que a luta no campo pela Reforma Agrária é fundamental, mas nunca terá uma vitória efetiva se não for disputada na cidade. Por isso, a palavra de ordem foi "Reforma Agrária, uma luta de todos".

Já em 1997, o Movimento organizou a histórica "Marcha Nacional Por Emprego, Justiça e Reforma Agrária" com destino a Brasília, com data de chegada em 17 abril, um ano após o massacre de Eldorado dos Carajás, quando 19 Sem Terra foram brutamente assassinados pela polícia no Pará. Em agosto de 2000, o MST realiza seu 4º Congresso Nacional, em Brasília, cuja palavra de ordem foi "Por um Brasil sem latifúndio".

Durante os oito anos de governo FHC, o Brasil sofreu com o aprofundamento do modelo econômico neoliberal, que provocou graves danos para quem vive no meio rural, fazendo crescer a pobreza, a desigualdade, o êxodo, a falta de trabalho e de terra.

A eleição de Luiz Inácio Lula da Silva, em 2002, representou um momento de expectativa, com o avanço do povo brasileiro e uma derrota da classe dominante. No entanto, essa vitória eleitoral não foi suficiente para gerar mudanças significativas na estrutura fundiária, no modelo agrícola e no modelo econômico.

Os integrantes do MST acreditam que as mudanças sociais e econômicas dependem, antes de qualquer coisa, das lutas sociais e da organização dos trabalhadores. Com isso, será possível a construção de um modelo de agricultura que priorize a produção de alimentos, a distribuição de renda e a construção de um projeto popular de desenvolvimento nacional.

Atualmente, o MST está organizado em 24 estados, onde há 130 mil famílias acampadas e 370 mil famílias assentadas. Hoje, completando 25 anos de existência, o Movimento continua a luta pela Reforma Agrária, organizando os pobres do campo. Também segue a luta pela construção de um projeto popular para o Brasil, baseado na justiça social e na dignidade humana, princípios definidos lá em 1984.
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Antecedentes
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O MST é fruto da história da concentração fundiária que marca o Brasil desde 1500. Por conta disso, aconteceram diversas formas de resistência como os Quilombos, Canudos, as Ligas Camponesas, as lutas de Trombas e Formoso, entre muitas outras. Em 1961, com a renúncia do então presidente Jânio Quadros, João Goulart - o Jango - assumiu o cargo com a proposta de mobilizar as massas trabalhadoras em torno das reformas de base, que alterariam as relações econômicas e sociais no país. Vivia-se um clima de efervescência, principalmente sobre a Reforma Agrária.

Com o golpe militar de 1964, as lutas populares sofrem violenta repressão. Nesse mesmo ano, o presidente marechal Castelo Branco decretou a primeira Lei de Reforma Agrária no Brasil: o Estatuto da Terra. Elaborado com uma visão progressista com a proposta de mexer na estrutura fundiária, ele jamais foi implantado e se configurou como um instrumento estratégico para controlar as lutas sociais e desarticular os conflitos por terra.

As poucas desapropriações serviram apenas para diminuir os conflitos ou realizar projetos de colonização, principalmente na região amazônica. De 1965 a 1981, foram realizadas oito desapropriações em média, por ano, apesar de terem ocorrido pelo menos 70 conflitos por terra anualmente.

Nos anos da ditadura, apesar das organizações que representavam as trabalhadoras e trabalhadores rurais serem perseguidas, a luta pela terra continuou crescendo. Foi quando começaram a ser organizadas as primeiras ocupações de terra, não como um movimento organizado, mas sob influência principal da ala progressista da Igreja Católica, que resistia à ditadura.

Foi esse o contexto que levou ao surgimento da Comissão Pastoral da Terra (CPT), em 1975, que contribuiu na reorganização das lutas camponesas, deixando de lado o viés messiânico, propondo para o camponês se organizar para resolver seus problemas. Além disso, a CPT teve vocação ecumênica, aglutinando várias igrejas. Por isso, o MST surgiu do trabalho pastoral das igrejas católica e luterana.
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Reforma agrária e desenvolvimento
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Todos os países considerados desenvolvidos atualmente fizeram reforma agrária. Em geral, por iniciativa das classes dominantes industriais, que perceberam que a distribuição de terras garantia renda aos camponeses pobres, que poderiam se transformar em consumidores de seus produtos. As primeiras reformas agrárias aconteceram nos Estados Unidos, a partir de 1862, e depois em toda a Europa ocidental, até a 1ª Guerra Mundial. No período entre guerras, foram realizadas reformas agrárias em todos os países da Europa oriental. Depois da 2ª Guerra Mundial, Coréia, Japão e as Filipinas também passaram por processos de democratização do acesso a terra.

A reforma agrária distribuiu terra, renda e trabalho, o que formou um mercado nacional nesses países, criando condições para o salto do desenvolvimento. No final do século 19, a economia dos Estados Unidos era do mesmo tamanho que a do Brasil. Em 50 anos, depois da reforma agrária, houve um salto na indústria, qualidade de vida e poder de compra do povo.

Depois de 500 anos de lutas do povo brasileiro e 25 anos de existência do MST, a Reforma Agrária não foi realizada no Brasil. Os latifundiários, agora em parceria com as empresas transnacionais e com o mercado financeiro – formando a classe dominante no campo - usam o controle do Estado para impedir o cumprimento da lei e manter a concentração da terra. O MST defende um programa de desenvolvimento para o Brasil, que priorize a solução dos problemas do povo, por meio da distribuição da terra, criação de empregos, geração de renda, acesso a educação e saúde e produção e fornecimento de alimentos.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Enquanto Palestina sangra, o mundo dorme

Meu blog precisou redigir e acrescentar mais uma postagem este ano, infelizmente para denunciar uma violência sem fim imune a qualquer explicação sensata.
(Grito Pacífico, mudando o mundo com você)

Enquanto Palestina sangra, o mundo dorme

Palestina está revivendo acordada os piores pesadelos de um mundo sonolento e omisso.

Enquanto a imensa maioria verá alegremente fogos de artifício no céu durante a passagem do ano, a população civil de Gaza, incluindo crianças inocentes e mulheres indefesas, verá rajadas de mísseis sangrando os horizontes de suas vistas, de suas esperanças ou até de seus lares. A estratégia belicista de Israel começou há vários meses, buscando minar e fragilizar ao máximo a infra-estrutura, a economia e os programas de ajuda humanitária dirigidos a Gaza.

Só podia ser piada de final de ano: ao noticiar a escalada brutal da violência neste conflito, depois de atualizar corriqueiramente os ouvintes das incontáveis baixas palestinas, o apresentador pareceu frisar solenemente que “quatro cidadãos israelenses” também haviam sido mortos, demonstrando no tom da abordagem um constrangimento sutilmente maior, como se a vida de uma pessoa da Palestina valesse dez ou cem vezes menos do que alguém de Israel.

Muitos judeus oprimidos no passado se tornaram declaradamente opressores, como se o racismo genocida nazista tivesse reencarnado e recrudescido em Tel Aviv. Com penosos agravantes: uma ONU ajoelhada perante o veto arrogante dos EUA, uma mídia explicitamente tendenciosa e uma comunidade internacional complacente. De cada dez chefes de Estado que condenam os ataques de Israel, alguns setores da impressa escolhem a dedo os três discursos mais dóceis.

Mas é claro que todo mundo irá se mexer. Talvez quando a cifra palestina ganhar um quarto algarismo, superando as mil vítimas. O engraçado é que, para tentar salvar as montadoras norte-americanas da crise neoliberal, Obama não se faz de rogado e move todas as palhas que está a seu alcance. Agora, chamado a se posicionar com mais atitude frente ao extermínio de Gaza, ele prefere jogar golfe, limitando-se a dizer que ainda não assumiu o governo dos EUA.

Haja remédios e gazes para aliviar as dores e feridas de Gaza. Viver nesta região, tão abençoada pelas heranças cristãs, é como comprar a passagem antecipada para o inferno. Os povos de lá não precisam assistir filmes de guerra, pois Israel já os contratou para as cenas reais do abate. A comida palestina tem gosto de pólvora, temperada pelos estilhaços que por um triz não explodiram mais uma localidade civil, sitiada e novamente ameaçada como tantas outras.

Palestina está revivendo acordada os piores pesadelos de um mundo sonolento e omisso.

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Sapatadas na Consciência


Segue a última postagem textual de meu blog em 2008, em tom de retrospectiva política pontuada pelo convite aos Paradigmas da Esperança.
(Grito Pacífico, mudando o mundo com você)

SAPATADAS NA CONSCIÊNCIA

Olho para a Europa e vejo o passado. Olho para a América Latina e vejo o futuro. Os ventos estão soprando a favor de países emergentes como o Brasil. A brisa progressista da mudança está convidando nosso povo a sentir mais orgulho de si mesmo e de seu país. Esse sentimento, no meu olhar jovial da história, foi antecedido por três estágios.

A década de 80 vibrou com a transição democrática que abateu o monstro repressivo da ditadura. A chamada Constituição Cidadã de 1988 foi o estopim da vontade de reconstruirmos uma nação mais livre, madura e plural, disposta a reconhecer legalmente lutas históricas encampadas pela sociedade civil organizada e seus movimentos sociais. Eu tinha apenas 8 anos quando isso aconteceu. Tais luzes pareciam anunciar uma nova era.

Infelizmente, o fardo elitista de arrogância continuou infiltrado na política brasileira, cujas engrenagens do poder não se mostraram em nada simpáticas aos anseios populares expressos em reivindicações ligadas a reforma agrária, educação pública e democratização da mídia. Um sociólogo ideologicamente de araque, em oito anos de conservadorismo burguês, deixou tristes marcas: privatizou nossas esperanças, aprofundou nossas desigualdades e retardou nosso desenvolvimento. O desgoverno desse ex-presidente foi ótimo para as multinacionais estrangeiras, mas péssimo para muitas empresas domésticas.

Em 2002, uma espécie de “Barack Obama brasileiro”, forjado nas lides sindicais, foi eleito por uma multidão desiludida com os rumos da pátria. Mesmo sem erudição intelectual (tão sofisticada quanto inútil), suficientemente espontâneo e seguro a ponto de dar declarações informais a exemplo do “sifú” (para a alegria estúpida dos guardiões do vernáculo polido), buscou recuperar um pouco da auto-estima coletiva, do respeito internacional, da dignidade social, da prosperidade econômica e da memória histórica de nosso país. Não é à toa que sua popularidade atingiu, bem recentemente, recordes olímpicos de aprovação.

Claro que há defeitos e os principais deles, na minha visão pessoal, residem no excesso de paciência frente aos interesses bancários, às manipulações midiáticas e às conivências judiciárias que, respectivamente, oprimem nossas finanças, deturpam nossa comunicação e anulam nossa justiça. São embates que precisariam ser travados.

A boa notícia é que, nos últimos tempos, após rasgar as mordaças costuradas pela mídia oficial, venho tentando pensar com meus botões e me manifestar sem censura pelas vias da blogosfera. Ou seja, naquela época de 88, a rede Globo podia nos fazer de bobo, muito mais facilmente. Agora, levando-se em conta as benesses da globalização consubstanciadas na difusão da internet, podemos buscar - e até veicular - a informação que queremos.

Pois bem, o Brasil vive um momento ímpar em sua trajetória, pois temos a oportunidade, como dizia Mahatma Ghandi, de ser a mudança que queremos ver no mundo. Eu não tenho a menor dúvida do primeiro passo que devemos empreender, mas antes de revelá-lo cabe um alerta: é preciso deixar as picuinhas academicistas de lado e resistir aos debates marxistas, freudianos ou nietzscheanos das estéreis mesas de bar.

Nossa missão nunca foi tão clara e decisiva para o destino sustentável de nossas vidas: precisamos terminar de enterrar o atentado mais terrorista que já se institucionalizou em nossa civilização (pelo menos dentro da minha idade de quase 29 anos). Esse atentado à vida, ao amor, à justiça, à liberdade, à paz, atende pelo desgraçado nome de neoliberalismo. Aposto que se você tiver a idéia de apelidar seu cachorro, seu papagaio, seu hamster, com este maldito nome, “si-fú...”, pobres animaizinhos, eles se matariam de tanto desgosto.

Tampouco será alguém lá de cima do nosso continente, mesmo que seja afro-descendente e banque a pose de super-herói hollywoodiano, que nos salvará sozinho de qualquer catástrofe. Ademais, as peças do tabuleiro geopolítico andam meio deslocadas. Os EUA, juntamente com seus amigos europeus e seu colega japonês, estão colhendo o que plantaram. O protagonismo mundial rumo à transição para outro paradigma, portador de um novo modelo político-econômico, irmanado com os desafios sócio-ambientais do século XXI, está agora na mão dos países emergentes: Brasil, Índia, Rússia e, sobretudo, China.

Convém acrescentar que essa opção, ao ser abraçada sem vacilação, envolve dimensões altamente profundas, que vão desde o revigoramento crítico de linguagens culturais e artísticas como a música, a literatura e o cinema até a ressignificação holística e ecumênica dos valores espirituais e filosóficos que dão sentido à existência, passando radicalmente pela humanização e reintegração sistêmica dos saberes científicos e práticas institucionais que fundamentam a formação intelectual e condicionam a atuação profissional.

Conceitos como lucro, individualismo e competição precisam ser urgentemente revistos, antes que a natureza exploda e a humanidade vire pó. É um absurdo abominável aceitarmos que salários de mega-especuladores financeiros superem com folga o PIB conjunto de pequenos países africanos. Meu Deus, quando seremos verdadeiramente humanos?

Vocês já imaginaram em quantas vezes os faturamentos da indústria armamentista superam os investimentos da política alimentícia??? Não queiram saber, pois senão vocês teriam todo o direito de jogar mil sapatadas em nossa consciência, até o glorioso dia em que a gente acordar da anestesia social e se negar a deixar alguém agonizar fora de um lar.

sábado, 30 de agosto de 2008

COMENTÁRIOS: A Potência do Brasil

LIVRO: Brasil, um país do futuro
AUTOR: Stefan Zweig
EDITORA: L&PM Pocket


Págs. 14 a 23

Chegamos ao Rio: foi uma das impressões mais poderosas que eu experimentei em toda a minha vida. Fiquei fascinado e, ao mesmo tempo, estremeci. Pois não apenas me defrontei com uma das paisagens mais belas do mundo, esta combinação ímpar de mar e montanha, cidade e natureza tropical, mas ainda com um tipo completamente diferente de civilização. (...) Havia cor e movimento. O olhar excitado não se cansava de ver e, para onde olhasse, era recompensado. Fiquei possuído por um torpor de beleza e de felicidade que excitava os sentidos, crispava os nervos, dilatava o coração, ocupava o espírito, e quanto mais eu via, nunca era o bastante. (...).

Pela primeira vez comecei a perceber a grandeza inconcebível daquele país que não deveria ser chamado de país e sim de continente, um mundo com espaço para trezentos, quatrocentos, quinhentos milhões de habitantes e uma riqueza incomensurável, da qual nem a milésima parte foi explorada ainda sob o solo farto e intacto. Um país em rápido desenvolvimento e que apenas começa a se desenvolver, apesar de todas as atividades de trabalho, construção, criação e organização. Um país cuja importância para as próximas gerações é inimaginável até fazendo as combinações mais ousadas. E, com uma rapidez surpreendente, derreteu-se a arrogância européia que eu levava como bagagem inútil nessa viagem. Percebi que tinha lançado um olhar para o futuro do nosso mundo.

(...) Por isso, de toda a plêiade de aspectos destacarei principalmente um problema que me parece o mais atual e que confere ao Brasil um lugar especial entre todas as nações do mundo no que se refere ao espírito e à moral.

Este problema central, que se impõe a toda geração, portanto também à nossa, é a necessidade de responder à pergunta tão simples e, ao mesmo tempo, tão imperiosa: como conseguir em nosso mundo uma convivência pacífica entre as pessoas apesar da diversidade de raças, classes, cores, religiões e convicções? Esse é o problema com que toda comunidade, toda país sempre volta a se defrontar. A nenhum outro país ele se impôs em uma constelação tão complicada, e nenhum outro país – e é como grato testemunho disso que escrevo este livro – conseguiu resolvê-lo de maneira tão feliz e exemplar como o Brasil. Uma maneira que, na minha opinião, não requer apenas a atenção, mas também a admiração do mundo.

(...) Enquanto, no nosso velho mundo, prevalece a loucura de se querer criar pessoas de “raça pura”, como se fosse cavalos de corrida ou cães, a nação brasileira se baseia há séculos unicamente no princípio da mistura livre e sem entraves (...). Enquanto, entre nós, cada nação inventa uma palavra odiosa ou de desprezo para a outra, como Katzelmacher ou boche, falta totalmente no vocabulário brasileiro a palavra correspondente depreciativa para o negro ou o crioulo, pois quem poderia, quem quereria se gabar aqui de ser uma raça pura? (...).

O Brasil foi a única entre as nações ibéricas que jamais conheceu perseguições religiosas sangrentas, nunca viu arder as fogueiras da Inquisição, em nenhum outro país os escravos foram tratados de forma relativamente mais humanitária. Mesmo suas revoltas internas e mudanças de governo se efetuaram praticamente sem derramamento de sangue. (...) É sobre a existência do Brasil, cujo único desejo é a construção pacífica, que repousam nossas maiores esperanças de uma civilização futura e de pacificação do nosso mundo devastado pelo ódio e pela loucura. Onde quer que forças éticas estejam trabalhando, é nosso dever fortalecer essa vontade. Ao vislumbrar esperanças de um novo futuro em novas regiões em um mundo transtornado, é nosso dever apontar para este país e para tais possibilidades.

E por isso escrevi este livro.

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