QUESTIONÁRIO SOBRE O PAPEL DA BLOGOSFERA, VOLTADO PARA
USUÁRIOS DA INTERNET QUE POSTAM EVENTUAIS COMENTÁRIOS EM BLOGS
Caro(a) colega, somos estudantes do curso de graduação em Ciências Sociais da Universidade Federal do Ceará (UFC) e gostaríamos de solicitar sua colaboração no preenchimento deste questionário para fins de uma pesquisa de campo que estamos realizando sobre o papel da blogosfera na cultura política brasileira. Solicitamos que sua resposta seja enviada até o dia 08/06/2010 para o e-mail pablo.robles@superig.com.br Muito obrigado! Lhe comunicaremos depois o resumo dos resultados a que chegarmos, ok?
Cidade e Estado:_____________________________ Idade:______ Sexo: ( ) Masc. - ( ) Fem.
Grau de Instrução: ( ) Ens. Fundam. ( ) Ensino Médio ( ) Graduação ( ) Pós-graduação
Se for o caso, citar: Graduação:_________________ Pós-graduação:____________________
Exerce atividade profissional: ( ) não - ( ) sim (qual?_________________________________)
1. Que mídias você prefere utilizar para se informar de notícias?
( ) TV ( ) Rádio ( ) Revistas ( ) Jornais ( ) Internet ( ) Celular ( ) Outra:____________
2. Você tem blog? ( ) Não, nunca tive ( ) Não, mas já tive ( ) Sim, tenho
Se marcou um dos “não”, justifique:____________________________________________
________________________________________________________________________
Se “sim”, informe seu nome e endereço na internet, mencionando também o objetivo que motivou sua criação e a freqüência de uso com que você edita ou insere postagens nele.
Nome e Endereço do blog:__________________________________________________________
Objetivo da criação:________________________________________________________________
________________________________________________________________________________
Frequencia de uso: ( ) diariamente ( ) semanalmente ( ) mensalmente ( ) esporadicamente
(OBS.: Caso tenha mais de um, informe acima apenas o blog que você considera mais importante)
3. Quais são os três blogs que você mais acessa para ver notícias?
4. Qual foi o blog de notícias/artigos em que você mais postou comentários?
5. Quais são suas motivações ao postar comentários em blogs?
6. Comente se sua participação na blogosfera, seja como comentarista ou mesmo como blogueiro, mudou sua forma de ver o mundo e interagir com ele.
7. De que forma você acha que os blogs têm afetado as outras mídias (TV, jornais, rádio, revistas etc.)
8. Como você avalia a contribuição da blogosfera para a conscientização da sociedade?
9. Você já incentivou colegas a criarem seu próprio blog? Se “sim”, quantos?
10. Além do blog, que outras mídias da internet você costuma utilizar para manifestar opiniões e divulgar escritos e/ou notícias de seu interesse:
Mostrando postagens com marcador Pesquisas Sociais. Mostrar todas as postagens
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segunda-feira, 7 de junho de 2010
domingo, 26 de julho de 2009
Grandes mudanças passam pelos valores
A pergunta que abre o texto abaixo deveria ser uma prece diária para todo brasileiro. Mas ela deveria ser feita junto com outra: O que precisamos mudar para termos um Brasil melhor? Duas perguntinhas em nada inéditas, mas que expressam bem o convite indispensável para reformarmos o país e a nós mesmos.
Fala-se muito em crise econômica, ambiental etc. Mas isso é só a ponta do iceberg de uma crise muito mais profunda na qual todos nós estamos de alguma forma mergulhados e geralmente sequer nos damos conta: é a crise de valores. A pesquisa noticiada traz um grande alento: o povo já começa a intuir e apontar tal necessidade.
Essa é a ferida que deve ser olhada, tratada e curada. Se não revisarmos, burilarmos e elevarmos nossos padrões morais, éticos, espirituais, interpessoais e sócio-afetivos (enfim, tudo aquilo que reflita nossos valores), em pouquíssimas décadas a dor da humanidade será crônica e o país afundará junto com o planeta.
Comentários do Grito Pacífico, mudando o mundo com você
O QUE PRECISA MUDAR NO BRASIL PARA TERMOS UMA VIDA MELHOR?
Por Ricardo Young - 24/07/2009
http://www.cartacapital.com.br/app/coluna.jsp?a=2&a2=5&i=4624
O que precisa mudar no Brasil para termos uma vida melhor? Esta pergunta foi feita pelo escritório brasileiro do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD Brasil) pela internet e em sete audiências públicas para escolher o tema do próximo Relatório de Desenvolvimento Humano do Brasil, que deve sair no início de 2010. Quinhentos mil brasileiros de todas as idades, faixa social, sexo e escolaridade deram sua resposta, por internet ou nas audiências. Além disso, graças às parcerias com a TIM e a Natura, mais de dois milhões de brasileiros foram mobilizados por SMS e um milhão de mulheres, pela rede de revendedoras.
Foi uma metodologia inédita no mundo, mais uma reflexão do que uma pergunta, revelando as grandes áreas de preocupação dos brasileiros.
O resultado surpreendeu os pesquisadores do PNUD. E a nós, também: a “receita” dos brasileiros para uma vida melhor, de acordo com a pesquisa, passa por “valores” como respeito, responsabilidade e justiça. Honestidade, paz, consciência e ausência de preconceito também foram largamente citadas.
Flávio Comim, diretor do PNUD Brasil, aponta a forma como a pesquisa foi conduzida como fundamental para se chegar a este resultado. Uma pergunta aberta - o que precisa mudar no Brasil para termos uma vida melhor ? - permitiu às pessoas expressar suas opiniões mais profundas. Por isso, o tema dos valores aflorou. Explicando: as respostas diretas dadas pelas pessoas mencionavam educação, saúde, segurança e emprego como as grandes vertentes para uma vida melhor. Só que, por meio de uma avaliação transversal destas respostas, a equipe de pesquisadores percebeu que a “fala oculta” trazia preocupações com os valores que organizam a sociedade. Por exemplo, quando havia menção à melhoria na educação, os participantes preocupavam-se com a falta de formação em valores nas escolas, muito mais do que com a falta de qualidade do ensino formal. No quesito violência, a ênfase recaía sobre as agressões contra as pessoas em detrimento daquelas contra a propriedade (como roubo), com forte inquietação a respeito da violência doméstica. De um modo geral, as pessoas acham que a sociedade lida com os conflitos mais prosaicos de forma violenta.
Interessante desta pesquisa é verificar que as reivindicações objetivas apresentaram conexão com o déficit de valores. E que este déficit, para os entrevistados, começa em casa!
Outro recorte que aparece é a atenção cada vez maior dada às atitudes dos atores sociais, como empresas e políticos. No caso do setor produtivo, quanto maior o comprometimento real das empresas com “valores” como direitos fundamentais da pessoa (combate ao trabalho escravo, respeito aos direitos trabalhistas, bom ambiente profissional) menor tende a ser a rejeição por parte da sociedade. Quanto aos políticos, bem, precisaremos verificar o resultado das urnas em 2010.
As respostas levaram o PNUD ao desenvolvimento de um novo conceito de valor: nem só ético, nem só moral, nem só financeiro. Valor vinculado ao dia-a-dia das pessoas. E este será o tema do relatório que a entidade publicará no início de 2010.
Se a sociedade brasileira expôs como preocupação maior os valores como justiça, respeito e responsabilidade, é possível que o país realmente se transforme em menos tempo do que se imagina. Mais uma vez, fica evidente que as empresas engajadas no movimento da responsabilidade social têm um papel importante a desempenhar nesta transformação: precisam aprofundar cada vez mais a transparência e os valores em sua própria gestão, disseminá-los para a cadeia produtiva e, com isso, dar exemplo para outros atores sociais.
Sem justiça, não existe democracia nem Estado de Direito. E, sem Estado de Direito, os negócios também não funcionam adequadamente, pois voltaremos ao território do vale-tudo.
Que os empresários saibam entender o profundo recado enviado pelos brasileiros, por meio desta pesquisa do PNUD, e adotem práticas cada vez mais transparentes, baseadas em crescimento econômico, justiça social e equilíbrio ambiental.
Fala-se muito em crise econômica, ambiental etc. Mas isso é só a ponta do iceberg de uma crise muito mais profunda na qual todos nós estamos de alguma forma mergulhados e geralmente sequer nos damos conta: é a crise de valores. A pesquisa noticiada traz um grande alento: o povo já começa a intuir e apontar tal necessidade.
Essa é a ferida que deve ser olhada, tratada e curada. Se não revisarmos, burilarmos e elevarmos nossos padrões morais, éticos, espirituais, interpessoais e sócio-afetivos (enfim, tudo aquilo que reflita nossos valores), em pouquíssimas décadas a dor da humanidade será crônica e o país afundará junto com o planeta.
Comentários do Grito Pacífico, mudando o mundo com você
O QUE PRECISA MUDAR NO BRASIL PARA TERMOS UMA VIDA MELHOR?
Por Ricardo Young - 24/07/2009
http://www.cartacapital.com.br/app/coluna.jsp?a=2&a2=5&i=4624
O que precisa mudar no Brasil para termos uma vida melhor? Esta pergunta foi feita pelo escritório brasileiro do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD Brasil) pela internet e em sete audiências públicas para escolher o tema do próximo Relatório de Desenvolvimento Humano do Brasil, que deve sair no início de 2010. Quinhentos mil brasileiros de todas as idades, faixa social, sexo e escolaridade deram sua resposta, por internet ou nas audiências. Além disso, graças às parcerias com a TIM e a Natura, mais de dois milhões de brasileiros foram mobilizados por SMS e um milhão de mulheres, pela rede de revendedoras.
Foi uma metodologia inédita no mundo, mais uma reflexão do que uma pergunta, revelando as grandes áreas de preocupação dos brasileiros.
O resultado surpreendeu os pesquisadores do PNUD. E a nós, também: a “receita” dos brasileiros para uma vida melhor, de acordo com a pesquisa, passa por “valores” como respeito, responsabilidade e justiça. Honestidade, paz, consciência e ausência de preconceito também foram largamente citadas.
Flávio Comim, diretor do PNUD Brasil, aponta a forma como a pesquisa foi conduzida como fundamental para se chegar a este resultado. Uma pergunta aberta - o que precisa mudar no Brasil para termos uma vida melhor ? - permitiu às pessoas expressar suas opiniões mais profundas. Por isso, o tema dos valores aflorou. Explicando: as respostas diretas dadas pelas pessoas mencionavam educação, saúde, segurança e emprego como as grandes vertentes para uma vida melhor. Só que, por meio de uma avaliação transversal destas respostas, a equipe de pesquisadores percebeu que a “fala oculta” trazia preocupações com os valores que organizam a sociedade. Por exemplo, quando havia menção à melhoria na educação, os participantes preocupavam-se com a falta de formação em valores nas escolas, muito mais do que com a falta de qualidade do ensino formal. No quesito violência, a ênfase recaía sobre as agressões contra as pessoas em detrimento daquelas contra a propriedade (como roubo), com forte inquietação a respeito da violência doméstica. De um modo geral, as pessoas acham que a sociedade lida com os conflitos mais prosaicos de forma violenta.
Interessante desta pesquisa é verificar que as reivindicações objetivas apresentaram conexão com o déficit de valores. E que este déficit, para os entrevistados, começa em casa!
Outro recorte que aparece é a atenção cada vez maior dada às atitudes dos atores sociais, como empresas e políticos. No caso do setor produtivo, quanto maior o comprometimento real das empresas com “valores” como direitos fundamentais da pessoa (combate ao trabalho escravo, respeito aos direitos trabalhistas, bom ambiente profissional) menor tende a ser a rejeição por parte da sociedade. Quanto aos políticos, bem, precisaremos verificar o resultado das urnas em 2010.
As respostas levaram o PNUD ao desenvolvimento de um novo conceito de valor: nem só ético, nem só moral, nem só financeiro. Valor vinculado ao dia-a-dia das pessoas. E este será o tema do relatório que a entidade publicará no início de 2010.
Se a sociedade brasileira expôs como preocupação maior os valores como justiça, respeito e responsabilidade, é possível que o país realmente se transforme em menos tempo do que se imagina. Mais uma vez, fica evidente que as empresas engajadas no movimento da responsabilidade social têm um papel importante a desempenhar nesta transformação: precisam aprofundar cada vez mais a transparência e os valores em sua própria gestão, disseminá-los para a cadeia produtiva e, com isso, dar exemplo para outros atores sociais.
Sem justiça, não existe democracia nem Estado de Direito. E, sem Estado de Direito, os negócios também não funcionam adequadamente, pois voltaremos ao território do vale-tudo.
Que os empresários saibam entender o profundo recado enviado pelos brasileiros, por meio desta pesquisa do PNUD, e adotem práticas cada vez mais transparentes, baseadas em crescimento econômico, justiça social e equilíbrio ambiental.
segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009
Fingi ser gari e fiquei invisível
Na sociedade em que vivemos, infelizmente, as pessoas valem pelo que tem e não pelo que são. A aparência alimentada pelo imaginário social dominante sobrepõe-se à essência que dignifica e singulariza nossa personalidade. Isso resulta em relações hipócritas, forjadas pelas conveniências do status quo. Quem tem pouco é como se não tivesse nada. Quem tem uma profissão popular é como se fosse inútil. Quem não ostenta uma boa imagem econômica é como se fosse um cidadão inferior e fracassado; ou pior, é como se não tivesse nome, como se não existisse para praticamente ninguém. Deveríamos, em vez de 8 anos, viver pelo menos 8 dias como gari (ou algo do gênero) para aprendermos a redescobrir o valor universal de toda pessoa humana.
(Comentários reflexivos do Grito Pacífico, mudando o mundo com você)
"A vida é a soma de todas as suas escolhas" Até quando só tomaremos conhecimento do sofrimento alheio se passarmos pela mesma experiência?
TESE DE MESTRADO NA USP por um PSICÓLOGO. O HOMEM TORNA-SE TUDO OU NADA, CONFORME A EDUCAÇÃO QUE RECEBE'
'Fingi ser gari por 8 anos e vivi como um ser invisível'
Psicólogo varreu as ruas da USP para concluir sua tese de mestrado da 'invisibilidade pública'. Ele comprovou que, em geral, as pessoas enxergam apenas a função social do outro. Quem não está bem posicionado sob esse critério, vira mera sombra social.
Plínio Delphino, Diário de São Paulo
O psicólogo social Fernando Braga da Costa vestiu uniforme e trabalhou oito anos como gari, varrendo ruas da Universidade de São Paulo. Ali, constatou que, ao olhar da maioria, os trabalhadores braçais são 'seres invisíveis, sem nome'. Em sua tese de mestrado, pela USP, conseguiu comprovar a existência da 'invisibilidade pública', ou seja, uma percepção humana totalmente prejudicada e condicionada à divisão social do trabalho, onde enxerga-se somente a função e não a pessoa.
Braga trabalhava apenas meio período como gari, não recebia o salário de R$ 400 como os colegas de vassoura, mas garante que teve a maior lição de sua vida:
'Descobri que um simples bom dia, que nunca recebi como gari, pode significar um sopro de vida, um sinal da própria existência', explica o pesquisador.
O psicólogo sentiu na pele o que é ser tratado como um objeto e não como um ser humano. 'Professores que me abraçavam nos corredores da USP passavam por mim, não me reconheciam por causa do uniforme. Às vezes, esbarravam no meu ombro e, sem ao menos pedir desculpas, seguiam me ignorando, como se tivessem encostado em um poste, ou em um orelhão', diz.
No primeiro dia de trabalho paramos pro café. Eles colocaram uma garrafa térmica sobre uma plataforma de concreto. Só que não tinha caneca. Havia um clima estranho no ar, eu era um sujeito vindo de outra classe, varrendo rua com eles. Os garis mal conversavam comigo, alguns se aproximavam para ensinar o serviço. Um deles foi até o latão de lixo pegou duas latinhas de refrigerante cortou as latinhas pela metade e serviu o café ali, na latinha suja e grudenta. E como a gente estava num grupo grande, esperei que eles se servissem primeiro. Eu nunca apreciei o sabor do café. Mas, intuitivamente, senti que deveria tomá-lo, e claro, não livre de sensações ruins. Afinal, o cara tirou as latinhas de refrigerante de dentro de uma lixeira, que tem sujeira, tem formiga, tem barata, tem de tudo. No momento em que empunhei a caneca improvisada, parece que todo mundo parou para assistir à cena, como se perguntasse:
'E aí, o jovem rico vai se sujeitar a beber nessa caneca?' E eu bebi.
Imediatamente a ansiedade parece que evaporou. Eles passaram a conversar comigo, a contar piada, brincar.
O que você sentiu na pele, trabalhando como gari?
Uma vez, um dos garis me convidou pra almoçar no bandejão central. Aí eu entrei no Instituto de Psicologia para pegar dinheiro, passei pelo andar térreo, subi escada, passei pelo segundo andar, passei na biblioteca, desci a escada, passei em frente ao centro acadêmico, passei em frente a lanchonete, tinha muita gente conhecida. Eu fiz todo esse trajeto e ninguém em absoluto me viu. Eu tive uma sensação muito ruim. O meu corpo tremia como se eu não o dominasse, uma angustia, e a tampa da cabeça era como se ardesse, como se eu tivesse sido sugado. Fui almoçar, não senti o gosto da comida e voltei para o trabalho atordoado.
E depois de oito anos trabalhando como gari? Isso mudou?
Fui me habituando a isso, assim como eles vão se habituando também a situações pouco saudáveis. Então, quando eu via um professor se aproximando - professor meu - até parava de varrer, porque ele ia passar por mim, podia trocar uma idéia, mas o pessoal passava como se tivesse passando por um poste, uma árvore, um orelhão.
E quando você volta para casa, para seu mundo real?
Eu choro. É muito triste, porque, a partir do instante em que você está inserido nessa condição psicossocial, não se esquece jamais. Acredito que essa experiência me deixou curado da minha doença burguesa. Esses homens hoje são meus amigos. Conheço a família deles, freqüento a casa deles nas periferias. Mudei. Nunca deixo de cumprimentar um trabalhador.
Faço questão de o trabalhador saber que eu sei que ele existe. Eles são tratados pior do que um animal doméstico, que sempre é chamado pelo nome. São tratados como se fossem uma 'COISA'.
Ser IGNORADO é uma das piores sensações que existem na vida!
(Comentários reflexivos do Grito Pacífico, mudando o mundo com você)
"A vida é a soma de todas as suas escolhas" Até quando só tomaremos conhecimento do sofrimento alheio se passarmos pela mesma experiência?
TESE DE MESTRADO NA USP por um PSICÓLOGO. O HOMEM TORNA-SE TUDO OU NADA, CONFORME A EDUCAÇÃO QUE RECEBE'
'Fingi ser gari por 8 anos e vivi como um ser invisível'
Psicólogo varreu as ruas da USP para concluir sua tese de mestrado da 'invisibilidade pública'. Ele comprovou que, em geral, as pessoas enxergam apenas a função social do outro. Quem não está bem posicionado sob esse critério, vira mera sombra social.
Plínio Delphino, Diário de São Paulo
O psicólogo social Fernando Braga da Costa vestiu uniforme e trabalhou oito anos como gari, varrendo ruas da Universidade de São Paulo. Ali, constatou que, ao olhar da maioria, os trabalhadores braçais são 'seres invisíveis, sem nome'. Em sua tese de mestrado, pela USP, conseguiu comprovar a existência da 'invisibilidade pública', ou seja, uma percepção humana totalmente prejudicada e condicionada à divisão social do trabalho, onde enxerga-se somente a função e não a pessoa.
Braga trabalhava apenas meio período como gari, não recebia o salário de R$ 400 como os colegas de vassoura, mas garante que teve a maior lição de sua vida:
'Descobri que um simples bom dia, que nunca recebi como gari, pode significar um sopro de vida, um sinal da própria existência', explica o pesquisador.
O psicólogo sentiu na pele o que é ser tratado como um objeto e não como um ser humano. 'Professores que me abraçavam nos corredores da USP passavam por mim, não me reconheciam por causa do uniforme. Às vezes, esbarravam no meu ombro e, sem ao menos pedir desculpas, seguiam me ignorando, como se tivessem encostado em um poste, ou em um orelhão', diz.
No primeiro dia de trabalho paramos pro café. Eles colocaram uma garrafa térmica sobre uma plataforma de concreto. Só que não tinha caneca. Havia um clima estranho no ar, eu era um sujeito vindo de outra classe, varrendo rua com eles. Os garis mal conversavam comigo, alguns se aproximavam para ensinar o serviço. Um deles foi até o latão de lixo pegou duas latinhas de refrigerante cortou as latinhas pela metade e serviu o café ali, na latinha suja e grudenta. E como a gente estava num grupo grande, esperei que eles se servissem primeiro. Eu nunca apreciei o sabor do café. Mas, intuitivamente, senti que deveria tomá-lo, e claro, não livre de sensações ruins. Afinal, o cara tirou as latinhas de refrigerante de dentro de uma lixeira, que tem sujeira, tem formiga, tem barata, tem de tudo. No momento em que empunhei a caneca improvisada, parece que todo mundo parou para assistir à cena, como se perguntasse:
'E aí, o jovem rico vai se sujeitar a beber nessa caneca?' E eu bebi.
Imediatamente a ansiedade parece que evaporou. Eles passaram a conversar comigo, a contar piada, brincar.
O que você sentiu na pele, trabalhando como gari?
Uma vez, um dos garis me convidou pra almoçar no bandejão central. Aí eu entrei no Instituto de Psicologia para pegar dinheiro, passei pelo andar térreo, subi escada, passei pelo segundo andar, passei na biblioteca, desci a escada, passei em frente ao centro acadêmico, passei em frente a lanchonete, tinha muita gente conhecida. Eu fiz todo esse trajeto e ninguém em absoluto me viu. Eu tive uma sensação muito ruim. O meu corpo tremia como se eu não o dominasse, uma angustia, e a tampa da cabeça era como se ardesse, como se eu tivesse sido sugado. Fui almoçar, não senti o gosto da comida e voltei para o trabalho atordoado.
E depois de oito anos trabalhando como gari? Isso mudou?
Fui me habituando a isso, assim como eles vão se habituando também a situações pouco saudáveis. Então, quando eu via um professor se aproximando - professor meu - até parava de varrer, porque ele ia passar por mim, podia trocar uma idéia, mas o pessoal passava como se tivesse passando por um poste, uma árvore, um orelhão.
E quando você volta para casa, para seu mundo real?
Eu choro. É muito triste, porque, a partir do instante em que você está inserido nessa condição psicossocial, não se esquece jamais. Acredito que essa experiência me deixou curado da minha doença burguesa. Esses homens hoje são meus amigos. Conheço a família deles, freqüento a casa deles nas periferias. Mudei. Nunca deixo de cumprimentar um trabalhador.
Faço questão de o trabalhador saber que eu sei que ele existe. Eles são tratados pior do que um animal doméstico, que sempre é chamado pelo nome. São tratados como se fossem uma 'COISA'.
Ser IGNORADO é uma das piores sensações que existem na vida!
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