quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Diplomacia dos EUA em apuros

Estou com escritos pendentes para postar devido à correria de final de semestre letivo, mas não posso deixar de difundir esta notícia, que tem despertado a injusta fúria da diplomacia internacional. Wikileaks tem feito vir à tona documentos que revelam os bastidores da política internacional, destacando nesse momento comunicados de embaixadores estadunidenses.

Concordo que nem tudo pode ser revelado, pois na minha leiga compreensão devem existir assuntos de extrema gravidade estratégica que mereçam a alcunha de segredos de Estado. Porém, a grande maioria dessas informações sigilosas que vêm circulando reflete apenas as visões, interesses e argumentos de alguns setores sobre os negócios e relações mundiais.

Já que se defende tanto a liberdade de imprensa, se deveria pelo menos respeitar a difusão dessas informações, portadoras de relevância histórica para a compreensão das motivações diplomáticas que tornam nosso planeta, apesar de tanta abundância alimentícia e riqueza científico-tecnológica, uma selva global de concentrações econômicas e exclusões sociais.

(Comentários introdutórios do Grito Pacífico, mudando o mundo com você)


POR DENTRO DO WIKILEAKS

Por Natália Viana* - 01/12/2010

FONTE: http://www.cartacapital.com.br/destaques_carta_capital/por-dentro-do-wikileaks

Fui convidada por Julian Assange e sua equipe para trazer ao público brasileiro os documentos que interessam ao nosso país. Para esse fim, o Wikileaks decidiu elaborar conteúdo próprio também em português, com matérias fresquinhas sobre os documentos da embaixada e consulados norte-americanos no Brasil.

Por trás dessa nova experiência está a vontade de democratizar ainda mais o acesso à informação. O Wikileaks quer ter um canal direto de comunicação com os internautas brasileiros, um dos maiores grupos do mundo, e com os ativistas no Brasil que lutam pela liberdade de imprensa e de informação. Nada mais apropriado para um ano em que a liberdade de informação dominou boa parte da pauta da campanha eleitoral.

Buscando jornalistas independentes, Assange busca furar o cerco de imprensa internacional e da maneira como ela acabada dominando a interpretação que o público vai dar aos documentos. Por isso, além dos cinco grandes jornais estrangeiros, somou-se ao projeto um grupo de jornalistas independentes. Numa próxima etapa, o Wikileaks vai começar a distribuir os documentos para veículos de imprensa e mídia nas mais diversas partes do mundo.

Assange e seu grupo perceberam que a maneira concentrada como as notícias são geradas – no nosso caso, a maior parte das vezes, apenas traduzindo o que as grandes agências escrevem – leva um determinado ângulo a ser reproduzido ao infinito. Não é assim que esses documentos merecem ser tratados: “São a coisa mais importante que eu já vi”, disse ele.

Não foi fácil. O Wikileaks já é conhecido por misturar técnicas de hackers para manter o anonimato das fontes, preservar a segurança das informações e se defender dos inevitáveis ataques virtuais de agências de segurança do mundo todo.

Assange e sua equipe precisam usar mensagens criptografadas e fazer ligações redirecionados para diferentes países que evitam o rastreamento. Os documentos são tão preciosos que qualquer um que tem acesso a eles tem de passar por um rígido controle de segurança. Além disso, Assange está sendo investigado por dois governos e tem um mandado de segurança internacional contra si por crimes sexuais na Suécia. Isso significou que Assange e sua equipe precisam ficar isolados enquanto lidam com o material. Uma verdadeira operação secreta.

Documentos sobre Brasil

No caso brasileiro, os documentos são riquíssimos. São 2.855 no total, sendo 1.947 da embaixada em Brasília, 12 do Consulado em Recife, 119 no Rio de Janeiro e 777 em São Paulo.

Nas próximas semanas, eles vão mostrar ao público brasileiro histórias pouco conhecidas de negociações do governo por debaixo do pano, informantes que costumam visitar a embaixada norte-americana, propostas de acordo contra vizinhos, o trabalho de lobby na venda dos caças para a Força Aérea Brasileira e de empresas de segurança e petróleo.

O Wikileaks vai publicar muitas dessas histórias a partir do seu próprio julgamento editorial. Também vai se aliar a veículos nacionais para conseguir seu objetivo – espalhar ao máximo essa informação. Assim, o público brasileiro vai ter uma oportunidade única: vai poder ver ao mesmo tempo como a mesma história exclusiva é relatada por um grande jornal e pelo Wikileaks. Além disso, todos os dias os documentos serão liberados no site do Wikileaks. Isso significa que todos os outros veículos e os próprios internautas, bloggers, jornalistas independentes vão poder fazer suas próprias reportagens. Democracia radical – também no jornalismo.

Impressões

A reação desesperada da Casa Branca ao vazamento mostra que os Estados Unidos erraram na sua política mundial – e sabem disso. Hillary Clinton ligou pessoalmente para diversos governos, inclusive o chinês, para pedir desculpas antecipadamente pelo que viria. Para muitos, não explicou direto do que se tratava, para outros narrou as histórias mais cabeludas que podiam constar nos 251 mil telegramas de embaixadas.

Ainda assim, não conseguiu frear o impacto do vazamento. O conteúdo dos telegramas é tão importante que nem o gerenciamento de crise de Washington nem a condenação do lançamento por regimes em todo o mundo – da Austrália ao Irã – vai conseguir reduzir o choque.

Como disse um internauta, Wikileaks é o que acontece quando a superpotência mundial é obrigada a passar por uma revista completa dessas de aeroporto. O que mais surpreende é que se trata de material de rotina, corriqueiro, do leva-e-traz da diplomacia dos EUA. Como diz Assange, eles mostram “como o mundo funciona”.

O Wikileaks tem causado tanto furor porque defende uma ideia simples: toda informação relevante deve ser distribuída. Talvez por isso os governos e poderes atuais não saibam direito como lidar com ele. Assange já foi taxado de espião, terrorista, criminoso. Outro dia, foi chamado até de pedófilo.

Wikileaks e o grupo e colaboradores que se reuniu para essa empreitada acreditam que injustiça em qualquer lugar é injustiça em todo lugar. E que, com a ajuda da internet, é possível levar a democracia a um patamar nunca imaginado, em que todo e qualquer poder tem de estar preparado para prestar contas sobre seus atos.

O que Assange traz de novo é a defesa radical da transparência. O raciocínio do grupo de jornalistas investigativos que se reúne em torno do projeto é que, se algum governo ou poder fez algo de que deveria se envergonhar, então o público deve saber. Não cabe aos governos, às assessorias de imprensa ou aos jornalistas esconder essa ou aquela informação por considerar que ela “pode gerar insegurança” ou “atrapalhar o andamento das coisas”. A imprensa simplesmente não tem esse direito.

É por isso que, enquanto o Wikileaks é chamado de “irresponsável”, “ativista”, “antiamericano” e Assange é perseguido, os cinco principais jornais do mundo que se associaram ao lançamento do Cablegate continuam sendo vistos como exemplos de bom jornalismo – objetivo, equilibrado, responsável e imparcial. Uma ironia e tanto.

*Natália Viana é jornalista e colaboradora do Opera Mundi

terça-feira, 30 de novembro de 2010

POESIA: Levante e Siga Adiante

LEVANTE E SIGA ADIANTE

Instantes fugazes de insensata empolgação
Podem custar anos de dor e arrependimento.
Entregar-se ao vício é trancar-se numa prisão
Cuja recuperação da liberdade é um tormento.

Claro, nem todo mundo tem uma infância feliz.
Há famílias que não têm nem estrutura afetiva.
Porém, refugiar-se na droga é a pior alternativa.
Nunca devemos nos iludir com o que ela nos diz.

Ninguém merece viver e sofrer como um bicho,
Deixando apodrecer os sonhos nas latas de lixo.
Torna a tua biografia um exemplo de superação
E deixa o amor-próprio reassumir o teu coração!

Espalha com o teu sorriso a virtude da amizade
Canta com tua lágrima o refrão da sensibilidade
A grandeza do universo é infinita como a tua alma
O tempo é generoso: o futuro não escolhe; acolhe.

Sim, sabemos que nosso mundo também,
Às vezes, é injusto, deprimente; uma droga.
Mas, poxa, sem tua força, tudo fica ainda pior!
Você é único, especial, importante; um gigante.

Levante-se, antes que seja tarde demais!
Inspire-se em quem te ama e siga adiante!
Agarre com fé os planos deixados para trás!
Depois da noite, o Sol sempre volta radiante!

Por Pablo Robles, Poeta do Social

( Poesia especial para trabalho junto a Disciplina de Psicologia do Adolescente, semestre 2010.2, do curso de Graduação em Ciências Sociais da Universidade Federal do Ceará. A atividade baseou-se no livro Esmeralda: Porque não dancei, de Esmeralda Ortiz, que narra a experiência vivida pela autora como menina de rua usuária de drogas com passagens sucessivas pela FEBEM. Hoje, além de escritora, Esmeralda é jornalista. )

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Dilma, Serra e seus (nossos) abismos

Vamos fazer uma brincadeira séria? Sacrifique poucos minutos de seu tempo para ler essas duas notícias, amostras representativas dos dois pólos da campanha presidencial em disputa:

a) Artistas e intelectuais repetem um palanque como o de 1989

b) Quem são os “investidores” que ouviram FHC?

Como todo jogo instrutivo, a regra é “faça de conta que você é de um país (ou planeta) distante e chegou agora no Brasil”. Isso lhe permitirá ver tudo sem preconceito, como a criança que você foi um dia achando “que o mundo é perfeito e que todas as pessoas são felizes” (trecho da música Índios, do Legião Urbana).

O jogo começa e ganha quem descobrir mais diferenças entre os dois candidatos. Descobertas o máximo de diferenças, elas serão utilizadas para ajudar as eleitoras e os eleitores brasileiros a escolherem o melhor candidato para governar o país.

Durante o jogo, algumas questões causam bastante perplexidade entre os participantes:

1) Por que Dilma tem tanto apoio de pessoas conhecidas, íntegras e preocupadas com o destino coletivo da nação, enquanto quase não se vê manifestos de pessoas e instituições declarando explicitamente e divulgando abertamente sua preferência pelo Serra?

2) Por que um lado (o da Dilma) afirma com orgulho o governo do partido que representa (PT), destacando suas conquistas históricas recentes (lideradas por Lula), enquanto o outro lado (o do Serra) esconde ou minimiza o papel, a imagem e a ideologia do PSDB de FHC?

3) Por que a esperança, a alegria, a solidariedade, a integração, a altivez, a positividade, a diversidade e a autocrítica predominam tanto nas falas e sentimentos dos partidários e simpatizantes da Dilma, enquanto que o preconceito, o medo, a arrogância, a intolerância, a difamação, o oportunismo, a hipocrisia e o anonimato são atraídos para o campo do Serra?

O jogo chega ao fim e os participantes, reunidos de forma presencial e pela internet em diversas assembléias – tanto nas esferas familiares e comunitárias como nos espaços institucionais e organizados – chegam praticamente a uma mesma reflexão, uma mesma conclusão, uma mesma visão:

UM ABISMO (MUITO MAIOR DO QUE SE PENSAVA) SEPARA DILMA E SERRA.

Ela, Dilma, quer continuar ajudando o Brasil a se libertar de seus atrasos históricos, que remontam aos tempos de quando os índios viviam aqui, certamente mais felizes, ainda que fossem cientificamente ingênuos em matéria de tecnologia moderna (atômica ou não).

Ele, Serra (político profissional com palhaçadas amadoras), parafraseando o Tiririca (palhaço profissional com popularidade amadora), é a certeza de que, se ganhar, “melhor do que tá não fica” e a suspeita mais ou menos certa de que as coisas vão piorar, regredir, involuir...

Especialmente para as maiorias populares e as minorias oprimidas por elites egoístas e entreguistas, satisfeitas em lucrar sozinhas enquanto os “menos capazes”, nordestinos ou não, para brilharem em Estados economicamente ricos como São Paulo, precisam muitas vezes transformar a piada da vida de seu povo pobre na alavanca digna da superação de si mesmos.

domingo, 17 de outubro de 2010

PORQUE SOU DILMA 13

PORQUE SOU DILMA 13

Poderia dedicar intermináveis linhas para comparar os avanços e resultados do governo Lula em relação ao seu antecessor FHC. Ambos tiveram o mesmo tempo como presidente. O de melhor educação formal foi o que menos fez para o povo. Aquele que nem inglês fala direito reposicionou o Brasil no mapa do mundo, perante os países e idiomas de todos os quadrantes.

Infelizmente, vivemos tempos efêmeros, líquidos, descartáveis. Somos bombardeados por informações curtas, rápidas e episódicas; e o que é pior, nem sempre imparciais, isentas e éticas. Falar e divulgar a verdade pode aborrecer o patrão e causar sua demissão e sua conseqüente exclusão do “mercado”. Noticiar coisas boas não dá lucro. Tragédias parecem mais eficentes.

Diante desses dois fatos (Lula/PT objetivamente melhor que FHC/PSDB; e uma mídia que, por informar mal, acaba nos deseducando e despolitizando), como entender a campanha Dilma x Serra e avaliar a qualidade da cidadania brasileira? Em vez de debatermos propostas e de discutirmos projetos estratégicos de país, nos deixamos infectar e hipnotizar por boatos.

O boato não é nada mais nada menos que a principal arma utilizada pela campanha Serra. A arma mais medíocre, mais primitiva, mais covarde. As eleições desse ano, como tantas vezes fizeram com o Lula, estão sendo pautadas pela tragédia. Uma voz aqui e acolá tenta elevar o nível, mas o grosso da estratégia do Serra “do bem” é espalhar o mal e associá-lo à Dilma.

Como toda tragédia tem sua face cômica, vamos a ela: a mulher do “bonzinho” Serra mordeu a própria língua e sua máscara de “virtude maternal” caiu: a Mônica Serra, quem diria, após revelações de uma ex-aluna sua e repercussões na mídia alternativa, assumiu já ter abortado, conforme noticiou a própria Folha de São Paulo (jornal tradicionalmente pró-Serra e anti-Lula): http://mariafro.com.br/wordpress/?p=20474. O feitiço voltou como bumerangue ao feiticeiro.

Quem opta por fazer valer conscientemente seu voto - partindo friamente da realidade coletiva do país e não dos fantasmas individuais do medo impregnados nas entranhas de preconceito que se nutrem dos farelos de egoísmo que pairam na moralidade humana - prefere a Dilma, mesmo que essa adesão não seja automática e desprovida de criticidade, como professou o PSOL e emendou um editorial do Brasil de Fato cujo diagnóstico foi ecoado por Emir Sader: “Dilma não é o governo dos nossos sonhos. Serra é o governo dos nossos pesadelos”.

Eu deveria saltar nesse testemunho o fator Marina Silva, pois acho muito ambígua e contraditória a postura do PV, que vem sendo assediado pelo PSDB em troca de alguns Ministérios caso Serra vença. Ver o Serra citando Chico Mendes soa tão oportunista e patético quanto se FHC viesse a citar o Che Guevara para seduzir os jovens da geração passada. Para quem votou em Marina para enriquecer o debate político no segundo turno, viu que o tiro até agora está saindo pela culatra, conforme argumentei no princípio do texto.

De qualquer forma, devemos aguardar os posicionamentos finais da Marina quanto ao duelo Dilma x Serra. De antemão, cabe a ressalva de que a neutralidade geralmente é omissa e pode chegar a ser burra, no sentido da incoerência histórica e biográfica. E por falar em neutralidade, o que penso do voto nulo, o clássico voto de protesto? Começo com a tese mais pragmática que minha essência idealista consegue tolerar: existe a opção do país ser presidido por ninguém, pelo nada, pelo acaso? Não existe: alguém (oxalá uma mulher) será eleito(a) para tal.

Sobre essa questão, escutemos o Código Eleitoral Brasileiro (Lei nº 4.737/art. 224) diz que: “se a nulidade atingir a mais de metade dos votos do país nas eleições presidenciais, do estado nas eleições federais e estaduais, ou do município nas eleições municipais, julgar-se-ão prejudicadas as demais votações, e o Tribunal marcará dia para nova eleição dentro do prazo de 20 (vinte) a 40 (quarenta) dias”. Quando se espalhou essa cláusula, houve quem achasse equivocadamente que os novos candidatos teriam que ser outros, mas isso não procede.

Sou pessoalmente socialista, e tenho mobilizado essa minha inclinação política através dos trabalhos sociais que desenvolvo há 11 anos em ONGs, dos escritos (em verso e prosa) que posto em meu blog e das frases reflexivas que ponho nas redes sociais da internet, como twitter, orkut/facebook e MSN. A propósito, um dos meus sonhos é que, a partir dos meus 50 anos de idade, eu possa encontrar mais tempo e melhores condições para me dedicar de forma mais atenta e livre à minha produção escrita e quem sabe fecundar algum romance. Mas se eu “abortar” antes algum livro solo de poesias (sociais), por favor, não me denunciem.

Cara pálida, mas o que o parágrafo anterior tem a ver com a Dilma e o voto nulo? Calma, eu explico. Tem a ver com minha atitude regular, contaste e radical de "protesto" contra o sistema capitalista. Quem já mergulhou no meu blog, se banha facilmente com essa minha orientação. Mas isso me impede de usar cartão de crédito? Não. De buscar negociar serviços e projetos sociais remunerados para sobreviver? Também não. Afinal, respiramos capitalismo.

Igualmente, respiramos o atual modelo republicano, presidencialista e representativo que compete à democracia política brasileira. Como poderia votar nulo se pago impostos e gero receitas para usufruir de bens e serviços públicos, desde o ônibus que pego para trabalhar, passando pelo Programa Luz para Todos que reduz minha taxa de aluguel até a atual faculdade pública de Ciências Sociais que curso na UFC, como estudante da primeira turma noturna que foi aberta (semestre 2009.1) – ampliação essa favorecida pelo governo Lula.

Desculpem se estiquei demais o texto. Tenho esse problema crônico e cíclico de TPM (Tensão de Prolixidade Máxima). Mas toda justificativa pública deve ser minimamente fundamentada em princípios, experiências e atitudes. Face ao exposto, declaro que Sou Dilma e a desejo como Presidente do Brasil. O que não significa dizer que me calarei e me acomodarei quando ela for eleita e alegrar a maioria das mulheres, homens, jovens e idosos do país. Termino este manifesto pessoal, independente e suprapartidário com a seguinte reflexão:

Esses regimes são liberais: não recorrem essencialmente à coerção, mas a uma espécie de semi-adesão indolente da população. Esta acabou finalmente sendo penetrada pelo imaginário capitalista: a finalidade da vida humana seria a expansão ilimitada da produção e do consumo, o suposto bem-estar material etc. Em conseqüência disso, a população fica totalmente privatizada. O slogan metrô-trabalho-cama [métro-boulot-dodo] de 1968 transformou-se em carro-trabalho-Tv. A população não participa da vida política: votar uma vez a cada cinco ou sete anos em alguém que não se conhece, sobre problemas que não se conhece e que o sistema faz tudo para impedir que você conheça não é participar. Mas para que haja uma mudança, para que haja realmente autogoverno, é decerto preciso mudar as instituições para que as pessoas possam participar da direção dos assuntos comuns; mas também é sobretudo preciso que mude a atitude dos indivíduos com relação às instituições e à coisa pública, a res publica, o que os gregos chamavam ta koina (os assuntos comuns). Pois, hoje, dominação de uma oligarquia e passividade e privatização do povo são apenas os dois lados de uma mesma moeda

(CORNELIUS CASTORIADIS, extraído do livro “Uma Sociedade à Deriva”, pág. 16)

sábado, 9 de outubro de 2010

POESIA ESPECIAL: Direito de Ser Criança

Aquela criança em (de)formação,
Sem maldade, malícia e preconceito;
Pode se tornar um adulto (in)feliz,
Com lacunas e amarguras no peito...
Psicologicamente fraca, familiarmente confusa,
Moralmente pobre, profissionalmente sem jeito.

Na ânsia competitiva de turbinarmos
A mente sem pressa e sem tensão
Das crianças, transformamos sua infância
Em paranóia; seu lazer, em ocupação.

Queremos que elas logo saibam ler,
Antes de serem estimuladas a sentir.
Nessa toada, são primeiro levadas a calcular
Fórmulas abstratas e decorar regras vazias;
Em vez de somar virtudes e dividir exemplos:
Como se fossem menos lucrativas e importantes
A equação do sorrir e a gramática do amar...
Como se apenas fossem miniaturas de gigantes!

Se o tempo é dinheiro, criança é poder ??
Se viver é consumir, ser equivale a ter ??

O que seriam as crianças para as instituições???
Recipientes férteis para escolas neuróticas?
Massas de modelar para religiões dogmáticas?
Mercados precoces para propagandas hipócritas?

Toda criança tem o direito de ser criança!!!...
Criar um mundo paralelo, dançar a sua dança!!
A fantasia ingênua e sadia é o seu único guia.
Adultecê-la é extinguir a mais elementar utopia!

Pablo Robles – POETA DO SOCIAL

(Em homenagem ao Dia das Crianças de 2010)

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Por uma política limpa

As eleições se aproximam.

E a guerra de informação (ou desinformação) se intensifica, desqualificando e desmoralizando a grandeza coletiva do fazer político para o bem comum. Dane-se a ética, a coerência e o bom senso. Assim pregam os jornalistas conservadores, porta-vozes exclusivos de seus patrões.

Mas o Brasil tem mudado.

As empresas midiáticas tradicionais estão perdendo o controle ideológico sobre os “espectadores” brasileiros. Tais grupos, arquitetados contra a realidade dos fatos e especializados em manipulações de toda espécie, já não detém o monopólio da verdade.

O povo está menos bobo.

A opinião pública, cada vez mais, favorecida pela internet e pelas facilidades modernas de comunicação, vem deixando de ser, portanto, a opinião publicada pela mídia privada. Novos tempos prometem, além da popularização da inclusão digital, a democratização cultural.

Não empreste sua opinião.

Desconfie das matérias recheadas de adjetivos de baixo calão. Quem muito ofende, pouco entende. A emoção, anexada ao preconceito, turva o exercício da razão. Fantasmas do passado não cabem mais nas práticas do presente. Chegou a vez de você assumir sua voz.

Inclusive entre as eleições.

domingo, 19 de setembro de 2010

Edgar Morin e sua Militância pela Educação

Na raiz de tantos problemas em que a humanidade se debate, a educação tem presença garantida e reclama prioridade soberana, ainda que a silenciosa omissão da mesmice simplista insista em fazer-se cega, surda e totalmente imune à educação, àquilo de que mais carecemos hoje para sermos mais generosos e harmoniosos com as pessoas, o meio ambiente, nossos desígnios éticos e, naturalmente, consigo próprios.

O sociólogo Edgar Morin é a semente ainda viva e pujante de lucidez que vem semeando, com brilhante militância intelectual, novos rumos, princípios e paradigmas para a educação do século vigente. A ortodoxia acadêmica, impotente face à complexidade dos problemas que passou longe de resolver, aos poucos foi (e continua) se rendendo à nova visão de educação formulada pelo autor e ultimamente recomendada pela Unesco.

Ele estará aqui, em Fortaleza, em uma Conferência Internacional sobre os Sete Saberes. Que sua passagem renove a missão sócio-educativa das pessoas presentes e instituições interessadas, revigorando as mentalidades de todo o mundo para pedagogias que realmente nos libertem, nos elevem e nos solidarizem (mais), em vez da desinformação acrítica que fragmenta as consciências, congela as utopias e aprisiona o potencial revolucionário dos saberes.

(Comentários do Grito Pacífico, mudando o mundo com você)

REPRODUZO MATÉRIA DO JORNAL O POVO SOBRE EVENTO COM MORIN NO CEARÁ. A SEÇÃO VIDA & ARTE DO JORNAL, PUBLICADA EM 19/09/2010, DEDICOU-LHE UMA SÉRIE ESPECIAL DE TEXTOS. CONFIRAM!

PENSADOR DOS SETE SABERES

Antropologia, comunicação, sociologia, política, economia, filosofia, cibernética, educação. Aos 89 anos, o francês Edgar Morin traz consigo incontáveis reflexões sobre (quase) tudo no mundo. Convidado da Conferência Internacional sobre os Sete Saberes para uma Educação do Presente, organizada pela Unesco e a Universidade Estadual do Ceará, ele vem a Fortaleza esta semana e recebe, no Vida & Arte Cultura, releituras de cinco estudiosos de sua obra

Por Alinne Rodrigues - 18/09/2010

http://www.opovo.com.br/app/opovo/vida-e-arte/2010/09/18/internaimpressavidaearte,2043567/pensador-dos-sete-saberes.shtml

O Brasil já havia sido escolhido pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) para sediar uma discussão de proporções continentais sobre educação. A posição geográfica é estratégica em relação a Europa e América Latina. Faltava decidir o lugar. Escalada pela Unesco, a professora Maria Cândida Moraes, da Universidade Católica de Brasília, viajou pelas instituições de ensino superior e escolheu a Universidade Estadual do Ceará para receber educadores e pesquisadores de todo o mundo.

“Em fevereiro de 2009, a professora Cândida havia recebido da Unesco a incumbência de preparar um evento acadêmico comemorativo dos 10 anos do lançamento da obra Os Sete Saberes Necessários à Educação do Futuro, do pensador francês Edgar Morin. Ela e a Unesco identificaram na Uece as condições necessárias para a mobilização e realização do evento”, conta a professora Celina Ellery, pró-reitora de extensão e vice-presidente da conferência.

Com abertura nesta terça-feira, 21, o evento é presidido pelo representante da Unesco no Brasil, Vincent Defourny (confira o bate-pronto) e conta com presidência de honra de Morin. Completando 35 anos de existência, a Uece comemora o sucesso nas inscrições: a 15 dias da abertura, as vagas para assistir à conferência estavam esgotadas. Mais de mil educadores vão participar de forma presencial e, segundo Celina, serão recebidas comitivas de vários países europeus e latino-americanos. “O esgotamento das vagas mostra a identificação e o interesse, e, nesse sentido, a Uece está atendendo à demanda e ampliando o diálogo”, comenta o reitor Francisco de Assis Moura Araripe.

Em termos práticos, a universidade vai atender essa procura através de videoconferências em todo o Brasil. “Diversas instituições que possuem infraestrutura adequada vão receber o sinal em vídeo do evento pela Internet, na perspectiva de disseminar o conteúdo das conferências para um público mais amplo. A própria Uece disponibilizará salas, como também a Universidade Católica de Brasília, a Universidade Federal do Ceará, a Universidade de Fortaleza e a Faculdade Integrada do Ceará”, ele diz. Somando-se os públicos, a expectativa é de que cerca de 6 mil pessoas acompanhem os diálogos. (Alinne Rodrigues)

Conferência Internacional Sobre Os Sete Saberes Para Uma Educação Do Presente - De terça, 21, a sexta, 24, no Hotel Praia Centro (avenida Monsenhor Tabosa, 740 – Praia de Iracema). Ato de abertura às 9 horas, com o dr. Vincent Defourny (Unesco), o governador do Estado e os reitores da Uece e da UCB. Conferência de abertura com Edgar Morin, Os sete saberes necessários a uma educação do presente: importância e finalidade da proposta. Na quarta-feira, 22, às 19 horas, Morin recebe o título de Doutor Honoris Causa no auditório da reitoria da Uece.