Na raiz de tantos problemas em que a humanidade se debate, a educação tem presença garantida e reclama prioridade soberana, ainda que a silenciosa omissão da mesmice simplista insista em fazer-se cega, surda e totalmente imune à educação, àquilo de que mais carecemos hoje para sermos mais generosos e harmoniosos com as pessoas, o meio ambiente, nossos desígnios éticos e, naturalmente, consigo próprios.
O sociólogo Edgar Morin é a semente ainda viva e pujante de lucidez que vem semeando, com brilhante militância intelectual, novos rumos, princípios e paradigmas para a educação do século vigente. A ortodoxia acadêmica, impotente face à complexidade dos problemas que passou longe de resolver, aos poucos foi (e continua) se rendendo à nova visão de educação formulada pelo autor e ultimamente recomendada pela Unesco.
Ele estará aqui, em Fortaleza, em uma Conferência Internacional sobre os Sete Saberes. Que sua passagem renove a missão sócio-educativa das pessoas presentes e instituições interessadas, revigorando as mentalidades de todo o mundo para pedagogias que realmente nos libertem, nos elevem e nos solidarizem (mais), em vez da desinformação acrítica que fragmenta as consciências, congela as utopias e aprisiona o potencial revolucionário dos saberes.
(Comentários do Grito Pacífico, mudando o mundo com você)
REPRODUZO MATÉRIA DO JORNAL O POVO SOBRE EVENTO COM MORIN NO CEARÁ. A SEÇÃO VIDA & ARTE DO JORNAL, PUBLICADA EM 19/09/2010, DEDICOU-LHE UMA SÉRIE ESPECIAL DE TEXTOS. CONFIRAM!
PENSADOR DOS SETE SABERES
Antropologia, comunicação, sociologia, política, economia, filosofia, cibernética, educação. Aos 89 anos, o francês Edgar Morin traz consigo incontáveis reflexões sobre (quase) tudo no mundo. Convidado da Conferência Internacional sobre os Sete Saberes para uma Educação do Presente, organizada pela Unesco e a Universidade Estadual do Ceará, ele vem a Fortaleza esta semana e recebe, no Vida & Arte Cultura, releituras de cinco estudiosos de sua obra
Por Alinne Rodrigues - 18/09/2010
http://www.opovo.com.br/app/opovo/vida-e-arte/2010/09/18/internaimpressavidaearte,2043567/pensador-dos-sete-saberes.shtml
O Brasil já havia sido escolhido pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) para sediar uma discussão de proporções continentais sobre educação. A posição geográfica é estratégica em relação a Europa e América Latina. Faltava decidir o lugar. Escalada pela Unesco, a professora Maria Cândida Moraes, da Universidade Católica de Brasília, viajou pelas instituições de ensino superior e escolheu a Universidade Estadual do Ceará para receber educadores e pesquisadores de todo o mundo.
“Em fevereiro de 2009, a professora Cândida havia recebido da Unesco a incumbência de preparar um evento acadêmico comemorativo dos 10 anos do lançamento da obra Os Sete Saberes Necessários à Educação do Futuro, do pensador francês Edgar Morin. Ela e a Unesco identificaram na Uece as condições necessárias para a mobilização e realização do evento”, conta a professora Celina Ellery, pró-reitora de extensão e vice-presidente da conferência.
Com abertura nesta terça-feira, 21, o evento é presidido pelo representante da Unesco no Brasil, Vincent Defourny (confira o bate-pronto) e conta com presidência de honra de Morin. Completando 35 anos de existência, a Uece comemora o sucesso nas inscrições: a 15 dias da abertura, as vagas para assistir à conferência estavam esgotadas. Mais de mil educadores vão participar de forma presencial e, segundo Celina, serão recebidas comitivas de vários países europeus e latino-americanos. “O esgotamento das vagas mostra a identificação e o interesse, e, nesse sentido, a Uece está atendendo à demanda e ampliando o diálogo”, comenta o reitor Francisco de Assis Moura Araripe.
Em termos práticos, a universidade vai atender essa procura através de videoconferências em todo o Brasil. “Diversas instituições que possuem infraestrutura adequada vão receber o sinal em vídeo do evento pela Internet, na perspectiva de disseminar o conteúdo das conferências para um público mais amplo. A própria Uece disponibilizará salas, como também a Universidade Católica de Brasília, a Universidade Federal do Ceará, a Universidade de Fortaleza e a Faculdade Integrada do Ceará”, ele diz. Somando-se os públicos, a expectativa é de que cerca de 6 mil pessoas acompanhem os diálogos. (Alinne Rodrigues)
Conferência Internacional Sobre Os Sete Saberes Para Uma Educação Do Presente - De terça, 21, a sexta, 24, no Hotel Praia Centro (avenida Monsenhor Tabosa, 740 – Praia de Iracema). Ato de abertura às 9 horas, com o dr. Vincent Defourny (Unesco), o governador do Estado e os reitores da Uece e da UCB. Conferência de abertura com Edgar Morin, Os sete saberes necessários a uma educação do presente: importância e finalidade da proposta. Na quarta-feira, 22, às 19 horas, Morin recebe o título de Doutor Honoris Causa no auditório da reitoria da Uece.
domingo, 19 de setembro de 2010
domingo, 22 de agosto de 2010
Alguém prefere agir contra a fome?
Uma enquete vista em um dado portal perguntava: “quem foi melhor no debate de presidenciáveis organizado pela Band?”. Até aí nenhuma surpresa. A mania do quem foi pior e quem foi melhor já está impregnada em nosso sangue cultural, não obstante a desigualdade de oportunidades, de tempo e de mídia que envolve cada candidata(o).
O que me chamou a atenção nesta enquete foi ver a opção “preferi ver o futebol” como uma das respostas disponíveis para o internauta marcar. Sabidamente, uma emissora pouco isenta transferiu propositadamente o horário do jogo para “concorrer” com o debate. Quem de nós prefere ver algo em vez de agir? Criticar em vez de construir? Possuir em vez de amar? Essa alternativa, ao destoar das outras, evoca nas consciências debates bem mais profundos.
Não vou aqui ser hipócrita e fundar um partido contra o futebol, a novela, o filme apressado que atropela nosso olhar, a música sem conteúdo que entorpece nosso ouvir. O sentido que quero convocar para nossa “conversa offline” é o sentido mesmo de nossa sobrevivência enquanto espécie não-suicida; ou melhor, de nossa transcendência para uma condição que vá além do inumano, do subumano, do desumano.
Sim, ainda não somos dignos de autêntica humanidade. Nossa insensibilidade não tem idade. Estamos apodrecendo nossas esperanças de geração em geração, omissão em omissão.
Enquanto isso, uma obviedade insiste em invadir o campo discursivo desse texto e gritar silenciosamente para todo mundo – pelo menos – sentir: enquanto a bola rola em disputadas direções, atrai multidões e faz lucrar milhões, a fome continua ali, quase estagnada pela falta de investimentos econômicos, políticos e morais. E não vamos apontar dedos e tirar nosso time de campo, pois fazer o bem, no contexto essencial de nossas biografias e no âmbito histórico das civilizações, é a coisa mais democrática, voluntária e gratificante do universo.
Competir para acabar com a fome (do bairro onde você brincou pela primeira vez ao planeta onde você chorou pela última vez) não dá audiência, não gera demanda, não aumenta o PIB, não lota as igrejas e tampouco interessa muito às academias que preferem competir por quem “produz” mais citação de teorias (e ideologias) terceiras, estas tantas vezes reprodutoras (e empobrecedoras) das idéias de um quarto ou décimo intelectual... e quem ousar politizar a ciência, pior; nem citado e condecorado será. Como consolo, em vez de ter um paper traduzido mundo afora, ganhará no máximo espaço discreto nos jornais estampados esquina adentro.
Façamos de conta que seu time de futebol já perdeu na semana, a novela do dia já acabou, seu seriado preferido já passou e você por acaso até aqui pacientemente chegou, sem olhar para o relógio nem antever o próximo e-mail de sua caixa postal masoquistamente lotada. Que analogia entrelaça a bola e a barriga? A bola, quando achatada, lembra a barriga esvaziada, esfomeada, estagnada, desnutrida. A barriga, quando dilatada (nem que seja por vermes do tipo lumbricóides apoliticus ou sadismus capitalóide), lembra a bola inflada, dançando e girando em toda potência futebolística, orgulhosa de cumprir sua missão de assinalar gols.
E tudo será perfeito se os gols forem, jogo após jogo, sempre a favor do time que torcemos, pois com isso poderemos indiretamente nos sagrar campeões, identificados simbolicamente com os melhores. Porém, ao competirmos (e raramente cooperarmos) com outros jogadores em nossa rotina cotidiana, a bola da fome segue marcando gols contra, como se os perdedores dessas partidas existenciais fossem sempre relegados coletivamente a escanteio... ou merecessem absurdamente serem “expulsos” sem direito a chances e advertências saudáveis.
O que me chamou a atenção nesta enquete foi ver a opção “preferi ver o futebol” como uma das respostas disponíveis para o internauta marcar. Sabidamente, uma emissora pouco isenta transferiu propositadamente o horário do jogo para “concorrer” com o debate. Quem de nós prefere ver algo em vez de agir? Criticar em vez de construir? Possuir em vez de amar? Essa alternativa, ao destoar das outras, evoca nas consciências debates bem mais profundos.
Não vou aqui ser hipócrita e fundar um partido contra o futebol, a novela, o filme apressado que atropela nosso olhar, a música sem conteúdo que entorpece nosso ouvir. O sentido que quero convocar para nossa “conversa offline” é o sentido mesmo de nossa sobrevivência enquanto espécie não-suicida; ou melhor, de nossa transcendência para uma condição que vá além do inumano, do subumano, do desumano.
Sim, ainda não somos dignos de autêntica humanidade. Nossa insensibilidade não tem idade. Estamos apodrecendo nossas esperanças de geração em geração, omissão em omissão.
Enquanto isso, uma obviedade insiste em invadir o campo discursivo desse texto e gritar silenciosamente para todo mundo – pelo menos – sentir: enquanto a bola rola em disputadas direções, atrai multidões e faz lucrar milhões, a fome continua ali, quase estagnada pela falta de investimentos econômicos, políticos e morais. E não vamos apontar dedos e tirar nosso time de campo, pois fazer o bem, no contexto essencial de nossas biografias e no âmbito histórico das civilizações, é a coisa mais democrática, voluntária e gratificante do universo.
Competir para acabar com a fome (do bairro onde você brincou pela primeira vez ao planeta onde você chorou pela última vez) não dá audiência, não gera demanda, não aumenta o PIB, não lota as igrejas e tampouco interessa muito às academias que preferem competir por quem “produz” mais citação de teorias (e ideologias) terceiras, estas tantas vezes reprodutoras (e empobrecedoras) das idéias de um quarto ou décimo intelectual... e quem ousar politizar a ciência, pior; nem citado e condecorado será. Como consolo, em vez de ter um paper traduzido mundo afora, ganhará no máximo espaço discreto nos jornais estampados esquina adentro.
Façamos de conta que seu time de futebol já perdeu na semana, a novela do dia já acabou, seu seriado preferido já passou e você por acaso até aqui pacientemente chegou, sem olhar para o relógio nem antever o próximo e-mail de sua caixa postal masoquistamente lotada. Que analogia entrelaça a bola e a barriga? A bola, quando achatada, lembra a barriga esvaziada, esfomeada, estagnada, desnutrida. A barriga, quando dilatada (nem que seja por vermes do tipo lumbricóides apoliticus ou sadismus capitalóide), lembra a bola inflada, dançando e girando em toda potência futebolística, orgulhosa de cumprir sua missão de assinalar gols.
E tudo será perfeito se os gols forem, jogo após jogo, sempre a favor do time que torcemos, pois com isso poderemos indiretamente nos sagrar campeões, identificados simbolicamente com os melhores. Porém, ao competirmos (e raramente cooperarmos) com outros jogadores em nossa rotina cotidiana, a bola da fome segue marcando gols contra, como se os perdedores dessas partidas existenciais fossem sempre relegados coletivamente a escanteio... ou merecessem absurdamente serem “expulsos” sem direito a chances e advertências saudáveis.
sexta-feira, 20 de agosto de 2010
O Conservadorismo de São Paulo
O autor foi muito feliz, preciso e claro nesse artigo. São Paulo afirma e reafirma cada vez mais o título de capital brasileira do conservadorismo, do deixa tudo como está que é melhor para nós e pior para eles, incapazes de suarem individualmente e construírem riquezas materiais como a elite empreendedora que ambiciona continuar liderando, supostamente, a marcha do Brasil (contra o povo e apesar do povo). Não enxergam que a abundância de uns (sudestinos, sulistas) foi erguida e exacerbada sobre a exploração de outros (nordestinos, nortistas). É claro que a solução não é incitar e belicizar as desigualdades regionais. Mas é preciso reconhecê-las para superá-las, não é?
(Comentários introdutórios do Grito Pacífico, mudando o mundo com você)
SÃO PAULO É UM REDUTO DO CONSERVADORISMO?
Por Altamiro Borges
FONTE: http://altamiroborges.blogspot.com/2010/08/sao-paulo-e-um-reduto-do.html - 19/08/2010
Até agora, as sondagens eleitorais dos quatro maiores institutos de pesquisa confirmam a tese de que São Paulo, o principal centro industrial e financeiro do país e que concentra a maior fatia do eleitorado brasileiro (22,3%), tornou-se o reduto do conservadorismo nativo. Enquanto na maior parte do Brasil, Dilma Rousseff, que expressa a continuidade do ciclo progressista aberto pelo presidente Lula, dispara nas pesquisas, neste estado a situação ainda é desvantajosa.
Forte hegemonia demotucana
Apesar da queda na diferença, José Serra, o candidato das elites, mantém folgada vantagem nas sondagens para a sucessão presidencial. Ele aposta todas suas fichas no estado para garantir sua ida ao segundo turno. Já o direitista Geraldo Alckmin, cria do regime militar e seguidor do Opus Dei, pode vencer o pleito para o governo estadual já no primeiro turno. Caso esse prognóstico se confirme, os demotucanos obterão a quinta vitória consecutiva em São Paulo.
Em 2006, PSDB e DEM fizeram barba e cabelo. É certo que o “picolé de chuchu” perdeu votos entre o primeiro e o segundo turno, fato inédito na história; mas o bloco conservador-neoliberal consolidou a sua hegemonia no estado. Elegeu o governador em primeiro turno e uma expressiva bancada de deputados federais e estaduais. Nas eleições municipais de 2008, o DEM conquistou a prefeitura da capital e o PSBD foi vitorioso em importantes cidades do interior paulista.
O paraíso dos rentistas
Quais as razões desta forte hegemonia dos demotucanos no estado, que destoa do restante do país no qual se verifica uma tendência mais progressista nas eleições. No livro “Os ricos no Brasil”, o economista Marcio Pochmann revela que São Paulo se transformou no paraíso de rentistas e das camadas médias abastadas. O Estado, que já foi a locomotiva industrial do país e hoje mais se parece com um cemitério de fábricas, é o principal centro da oligarquia financeira. Das 20 mil famílias que especulam com os títulos da dívida pública, quase 80% reside em São Paulo.
Esta elite preconceituosa mora em condomínios de luxo, desloca-se em helicópteros (a segunda maior frota do mundo) e carros blindados (a maior frota do planeta), e consome em butiques de luxo, como a contrabandista Daslu. Ela não tem qualquer identidade ou compromisso com a nação, estando totalmente apartada da realidade de penúria dos brasileiros. Ela ainda influência uma ampla camada média, que come mortadela e arrota caviar. Estas são as principais bases de sustentação e apoio do bloco neoliberal e de movimentos golpistas e racistas, como o “Cansei”.
Direita enraizada no poder
No outro extremo, como apontam vários livros recentes sobre sindicalismo, o violento processo de desindustrialização do Estado, que resultou em desemprego, informalidade e precarização do trabalho, golpeou a combativa classe operária e fragilizou os seus sindicatos, enfraquecendo a influência política das forças mais vinculadas às lutas dos trabalhadores. Nas eleições de 2006, por exemplo, a bancada de deputados ligada ao sindicalismo perdeu terreno no estado. Estes dois fatores objetivos, entre outros, explicariam a forte hegemonia dos neoliberais em São Paulo.
Há também causas subjetivas. A direita paulista domina todos os poderes no estado. É maioria na Assembléia Legislativa, conseguindo abortar mais de 70 pedidos de Comissões Parlamentares de Inquérito (CPIs); tem forte peso no Poder Judiciário, com a nomeação de vários representantes das elites; conta com o apoio da mídia, que concentra no estado as matrizes dos seus impérios e garante blindagem ao tucanato e ódio aos setores oposicionistas. E há ainda os erros das próprias forças progressistas, que são tímidas e ineficientes no combate ao neoliberalismo no estado.
Laboratório e palanque dos neoliberais
Estes e outros fatores transformaram São Paulo no laboratório e também o principal palanque dos neoliberais no país. Daqui operam as maiores referências da direita “moderna”, como FHC, Geraldo Alckmin e José Serra, e as mais poderosas entidades empresariais, como a federação das indústrias (Fiesp) e a dos banqueiros (Febraban). Daqui se irradiam as manipulações da mídia, com as redações da revista Veja, dos jornais Folha e Estadão e das maiores emissoras de TV. Toda a orquestração para barrar as mudanças no Brasil parte atualmente de São Paulo.
As eleições de 2010 indicarão se as mudanças promovidas pelo governo Lula poderão fazer ruir a hegemonia demotucana no estado. O aumento do poder aquisitivo dos trabalhadores, alavancado pela valorização do salário mínimo, os programas sociais, como Bolsa Família, que já beneficia mais de um milhão de famílias paulistas, e a geração de emprego podem abalar o domínio dos conservadores em São Paulo. Mas isto depende do poder de convencimento da militância social.
(Comentários introdutórios do Grito Pacífico, mudando o mundo com você)
SÃO PAULO É UM REDUTO DO CONSERVADORISMO?
Por Altamiro Borges
FONTE: http://altamiroborges.blogspot.com/2010/08/sao-paulo-e-um-reduto-do.html - 19/08/2010
Até agora, as sondagens eleitorais dos quatro maiores institutos de pesquisa confirmam a tese de que São Paulo, o principal centro industrial e financeiro do país e que concentra a maior fatia do eleitorado brasileiro (22,3%), tornou-se o reduto do conservadorismo nativo. Enquanto na maior parte do Brasil, Dilma Rousseff, que expressa a continuidade do ciclo progressista aberto pelo presidente Lula, dispara nas pesquisas, neste estado a situação ainda é desvantajosa.
Forte hegemonia demotucana
Apesar da queda na diferença, José Serra, o candidato das elites, mantém folgada vantagem nas sondagens para a sucessão presidencial. Ele aposta todas suas fichas no estado para garantir sua ida ao segundo turno. Já o direitista Geraldo Alckmin, cria do regime militar e seguidor do Opus Dei, pode vencer o pleito para o governo estadual já no primeiro turno. Caso esse prognóstico se confirme, os demotucanos obterão a quinta vitória consecutiva em São Paulo.
Em 2006, PSDB e DEM fizeram barba e cabelo. É certo que o “picolé de chuchu” perdeu votos entre o primeiro e o segundo turno, fato inédito na história; mas o bloco conservador-neoliberal consolidou a sua hegemonia no estado. Elegeu o governador em primeiro turno e uma expressiva bancada de deputados federais e estaduais. Nas eleições municipais de 2008, o DEM conquistou a prefeitura da capital e o PSBD foi vitorioso em importantes cidades do interior paulista.
O paraíso dos rentistas
Quais as razões desta forte hegemonia dos demotucanos no estado, que destoa do restante do país no qual se verifica uma tendência mais progressista nas eleições. No livro “Os ricos no Brasil”, o economista Marcio Pochmann revela que São Paulo se transformou no paraíso de rentistas e das camadas médias abastadas. O Estado, que já foi a locomotiva industrial do país e hoje mais se parece com um cemitério de fábricas, é o principal centro da oligarquia financeira. Das 20 mil famílias que especulam com os títulos da dívida pública, quase 80% reside em São Paulo.
Esta elite preconceituosa mora em condomínios de luxo, desloca-se em helicópteros (a segunda maior frota do mundo) e carros blindados (a maior frota do planeta), e consome em butiques de luxo, como a contrabandista Daslu. Ela não tem qualquer identidade ou compromisso com a nação, estando totalmente apartada da realidade de penúria dos brasileiros. Ela ainda influência uma ampla camada média, que come mortadela e arrota caviar. Estas são as principais bases de sustentação e apoio do bloco neoliberal e de movimentos golpistas e racistas, como o “Cansei”.
Direita enraizada no poder
No outro extremo, como apontam vários livros recentes sobre sindicalismo, o violento processo de desindustrialização do Estado, que resultou em desemprego, informalidade e precarização do trabalho, golpeou a combativa classe operária e fragilizou os seus sindicatos, enfraquecendo a influência política das forças mais vinculadas às lutas dos trabalhadores. Nas eleições de 2006, por exemplo, a bancada de deputados ligada ao sindicalismo perdeu terreno no estado. Estes dois fatores objetivos, entre outros, explicariam a forte hegemonia dos neoliberais em São Paulo.
Há também causas subjetivas. A direita paulista domina todos os poderes no estado. É maioria na Assembléia Legislativa, conseguindo abortar mais de 70 pedidos de Comissões Parlamentares de Inquérito (CPIs); tem forte peso no Poder Judiciário, com a nomeação de vários representantes das elites; conta com o apoio da mídia, que concentra no estado as matrizes dos seus impérios e garante blindagem ao tucanato e ódio aos setores oposicionistas. E há ainda os erros das próprias forças progressistas, que são tímidas e ineficientes no combate ao neoliberalismo no estado.
Laboratório e palanque dos neoliberais
Estes e outros fatores transformaram São Paulo no laboratório e também o principal palanque dos neoliberais no país. Daqui operam as maiores referências da direita “moderna”, como FHC, Geraldo Alckmin e José Serra, e as mais poderosas entidades empresariais, como a federação das indústrias (Fiesp) e a dos banqueiros (Febraban). Daqui se irradiam as manipulações da mídia, com as redações da revista Veja, dos jornais Folha e Estadão e das maiores emissoras de TV. Toda a orquestração para barrar as mudanças no Brasil parte atualmente de São Paulo.
As eleições de 2010 indicarão se as mudanças promovidas pelo governo Lula poderão fazer ruir a hegemonia demotucana no estado. O aumento do poder aquisitivo dos trabalhadores, alavancado pela valorização do salário mínimo, os programas sociais, como Bolsa Família, que já beneficia mais de um milhão de famílias paulistas, e a geração de emprego podem abalar o domínio dos conservadores em São Paulo. Mas isto depende do poder de convencimento da militância social.
domingo, 15 de agosto de 2010
POESIA: Novas Escaladas
NOVAS ESCALADAS
Não precisa ter medo,
Se puder, apenas sinta...
O convite do desconhecido,
O perfume místico da libido,
A sombra meiga do arvoredo,
A luz que sussurra desde cedo.
A beleza da vida está nos detalhes;
O segredo da felicidade, no caminho.
A magia da alma escorre pelos olhares.
E quem é sensível, nunca está sozinho.
As poesias precisam de você para rimar!
Se alguém te iludir, mentir, machucar,
E seu coração tropeçar, esfriar, recuar,
Mude o refrão, a coreografia, a canção!
Confie nos atalhos e fuja da contramão!
Escale o futuro sem os fardos do passado,
Driblando os ventos da rotina sem conteúdo.
Se a gente cai, é para aprender a levantar.
De repente, o presente pode ser diferente.
É melhor ser humilde do que ser incoerente.
Viver é a arte de sorrir, compreender e amar.
Cada passo configura inéditas tentativas
De sermos mais maduros, mais humanos.
Mesmo atolados por pressões e ocupações,
Tecemos sempre novas trajetórias e planos
Rumo a experiências mais plenas e criativas.
Se pensarmos demais, podemos desistir.
Só avança quem se lança a correr riscos.
A incerteza é a única certeza que presta.
Amplie a visão e verás muita porta aberta;
Mas se não ousar voar, nem vale a pena ir!
(uma singela homenagem a uma recente amiga prestes a aniversariar)
Não precisa ter medo,
Se puder, apenas sinta...
O convite do desconhecido,
O perfume místico da libido,
A sombra meiga do arvoredo,
A luz que sussurra desde cedo.
A beleza da vida está nos detalhes;
O segredo da felicidade, no caminho.
A magia da alma escorre pelos olhares.
E quem é sensível, nunca está sozinho.
As poesias precisam de você para rimar!
Se alguém te iludir, mentir, machucar,
E seu coração tropeçar, esfriar, recuar,
Mude o refrão, a coreografia, a canção!
Confie nos atalhos e fuja da contramão!
Escale o futuro sem os fardos do passado,
Driblando os ventos da rotina sem conteúdo.
Se a gente cai, é para aprender a levantar.
De repente, o presente pode ser diferente.
É melhor ser humilde do que ser incoerente.
Viver é a arte de sorrir, compreender e amar.
Cada passo configura inéditas tentativas
De sermos mais maduros, mais humanos.
Mesmo atolados por pressões e ocupações,
Tecemos sempre novas trajetórias e planos
Rumo a experiências mais plenas e criativas.
Se pensarmos demais, podemos desistir.
Só avança quem se lança a correr riscos.
A incerteza é a única certeza que presta.
Amplie a visão e verás muita porta aberta;
Mas se não ousar voar, nem vale a pena ir!
(uma singela homenagem a uma recente amiga prestes a aniversariar)
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Poesias Eventuais
segunda-feira, 9 de agosto de 2010
CONTO: A Experiência da Convivência
De repente ela (re)apareceu. Dessa vez em toda sua essência e eloqüência. Seu instinto de sobrevivência estava ferido. A gaiola familiar estava sufocando a Lanny. A relação mãe e filha estava estremecida, o suficiente para ela querer fugir, voar, partir. Por um acaso da vida, o lar de Querque foi lembrado, consultado e indicado. Querque empreendeu esse passo há um ano atrás. As motivações pessoais mudam, mas muitos dramas familiares se repetem.
Em menos de 24 horas, Lanny e Querque se encontraram e conversaram longamente sobre suas histórias, seus anseios, receios... A proposta era inédita e intrigante para ambos: dividirem o lar do Querque por algum tempo, enquanto Lanny reorganizava a sua vida, desde que longe da órbita doméstica em torno da qual girara até então. Entre o almoço num restaurante e a cerveja num bar, o rapaz de 30 anos apresentou à moça de 22 anos sua simples quitinete.
Se ela topasse morar algumas semanas ali, teria que se despir de eventuais frescuras, que poderiam esbarrar, de cara, na arquitetura e aparelhagem do lugar: vão único e sem televisão. Mas havia atrativos: dois quarteirões da faculdade dela e custo de moradia bem camarada. A grande questão que os preocupava, no entanto, dizia respeito à privacidade deles caso assumissem o risco inesperado dessa experiência teoricamente gratificante.
Experiência interessante, bacana, quase mística; pensaria um empolgado Querque. Experiência emergencial, emancipatória, praticamente irreversível; ponderaria uma confusa Lanny. Impossível que decisão tão conseqüente viesse a ser tomada logo. Coube então aos próximos dias diminuir o entusiasmo do homem e aumentar a segurança da mulher. Uma semana depois, independentemente do desfecho dessa sensível negociação, uma certeza começava a se esboçar entre os dois: um passaria a morar dentro das lembranças do outro.
Tornaram-se bons amigos, companheiros imprevisíveis de uma cumplicidade sem medos, sem pudores, sem lacunas. Como conseguiriam dormir sob o mesmo teto sem nenhum vínculo anterior de relacionamento interpessoal? Antes que uma amiga comum de Querque e Lanny os colocasse em contato telefônico e os encorajasse a interagirem, o rapaz só havia visto a moça uma vez, em menos de um mês atrás e de uma forma bem ligeira, algo protocolar.
Assim é a vida, essa desplanejada e imprevisível chama que anima e contorna as trajetórias retilíneas, curvilíneas e circulares da humanidade. Em busca angustiada por um novo eixo que pudesse - mediante uma nova moradia, convivência e rotina - dar um rumo solidário e transitório à sua vida de mulher independente em gestação, Lanny encontrou em Querque uma oportunidade inicial de “libertação”, um convite explícito para uma espécie de recomeço, ou melhor, para a execução de um novo ciclo na biografia da garota, cuja energia pulsante se incompatibilizara com os padrões incompreensivos e repressores do lar em que crescera.
Querque se viu de repente agitado por uma súbita idéia. Uma proposta típica dos enredos de cinema e que mereceria no mínimo um conto. Os bastidores e desdobramentos da história estarão agora reservados ao universo real destas duas personagens. O destino adora pregar peça em suas vítimas. As pessoas geralmente levam anos para edificar sólidos laços. Essa travessia, por força das circunstâncias intermediadas pela amiga comum, acabou sendo conduzida em um intervalo mínimo de tempo. Dividindo ou não o mesmo território geográfico, nenhum abismo humano, doravante, deveria separar a ponte que o universo estendeu entre Lanny e Querque.
Em menos de 24 horas, Lanny e Querque se encontraram e conversaram longamente sobre suas histórias, seus anseios, receios... A proposta era inédita e intrigante para ambos: dividirem o lar do Querque por algum tempo, enquanto Lanny reorganizava a sua vida, desde que longe da órbita doméstica em torno da qual girara até então. Entre o almoço num restaurante e a cerveja num bar, o rapaz de 30 anos apresentou à moça de 22 anos sua simples quitinete.
Se ela topasse morar algumas semanas ali, teria que se despir de eventuais frescuras, que poderiam esbarrar, de cara, na arquitetura e aparelhagem do lugar: vão único e sem televisão. Mas havia atrativos: dois quarteirões da faculdade dela e custo de moradia bem camarada. A grande questão que os preocupava, no entanto, dizia respeito à privacidade deles caso assumissem o risco inesperado dessa experiência teoricamente gratificante.
Experiência interessante, bacana, quase mística; pensaria um empolgado Querque. Experiência emergencial, emancipatória, praticamente irreversível; ponderaria uma confusa Lanny. Impossível que decisão tão conseqüente viesse a ser tomada logo. Coube então aos próximos dias diminuir o entusiasmo do homem e aumentar a segurança da mulher. Uma semana depois, independentemente do desfecho dessa sensível negociação, uma certeza começava a se esboçar entre os dois: um passaria a morar dentro das lembranças do outro.
Tornaram-se bons amigos, companheiros imprevisíveis de uma cumplicidade sem medos, sem pudores, sem lacunas. Como conseguiriam dormir sob o mesmo teto sem nenhum vínculo anterior de relacionamento interpessoal? Antes que uma amiga comum de Querque e Lanny os colocasse em contato telefônico e os encorajasse a interagirem, o rapaz só havia visto a moça uma vez, em menos de um mês atrás e de uma forma bem ligeira, algo protocolar.
Assim é a vida, essa desplanejada e imprevisível chama que anima e contorna as trajetórias retilíneas, curvilíneas e circulares da humanidade. Em busca angustiada por um novo eixo que pudesse - mediante uma nova moradia, convivência e rotina - dar um rumo solidário e transitório à sua vida de mulher independente em gestação, Lanny encontrou em Querque uma oportunidade inicial de “libertação”, um convite explícito para uma espécie de recomeço, ou melhor, para a execução de um novo ciclo na biografia da garota, cuja energia pulsante se incompatibilizara com os padrões incompreensivos e repressores do lar em que crescera.
Querque se viu de repente agitado por uma súbita idéia. Uma proposta típica dos enredos de cinema e que mereceria no mínimo um conto. Os bastidores e desdobramentos da história estarão agora reservados ao universo real destas duas personagens. O destino adora pregar peça em suas vítimas. As pessoas geralmente levam anos para edificar sólidos laços. Essa travessia, por força das circunstâncias intermediadas pela amiga comum, acabou sendo conduzida em um intervalo mínimo de tempo. Dividindo ou não o mesmo território geográfico, nenhum abismo humano, doravante, deveria separar a ponte que o universo estendeu entre Lanny e Querque.
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domingo, 25 de julho de 2010
A Emancipação dos Negros continua...
Segue indicação de um artigo bonito, historicamente comovente e da mais alta relevância humana. A semana que passou foi marcada, por exemplo, pelo episódio da escolha (nada muito democrática e transparente) do novo técnico da Seleção brasileira de futebol, esporte que a propósito constitui-se no maior celeiro de carreira para negros. A velocidade da ascensão é tão galopante que alguns não conseguem administrar as doses cavalares de ambição. Outros se agarram à religião (nesse sentido útil e bem terapêutica) para não matarem sua dignidade.
Pois bem, apesar do obscurantismo midiático, saibam que um grande marco jurídico foi edificado para ajudar a reparar séculos de racismo, desigualdade étnica e marginalização sócio-econômica. Como informa com abrangência o artigo, iniciativas paralelas, em diversas searas, estão sendo levadas a cabo, inclusive aqui no Ceará, onde boa parte dos destinatários desta mensagem desenham suas pegadas existenciais. Nem a recente Copa do Mundo em solo africano, num país símbolo do racismo mais explícito e brutal, foi suficiente para convidar os jornalistas comerciais a darem publicidade social ao Estatuto da Igualdade Racial.
(Comentários do Grito Pacífico, mudando o mundo com você)
ESTATUTO DA IGUALDADE RACIAL: SONEGAÇÃO INFORMATIVA E AS NOVAS BASES PARA ENFRENTAR O RACISMO
FONTE: Carta Maior - 24/07/2010
LINK: http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=16819
O Estatuto da Igualdade Racial foi sancionado esta semana pelo presidente Lula. O episódio mereceria um destaque muito maior por parte dos meios de comunicação. Mas, sem surpreender, a grande mídia comercial noticiou apenas discretamente o evento. Nenhum grande jornal deu na primeira página. E o Jornal Nacional da TV Globo fez apenas uma notinha curtíssima para a importância do fato, sem imagens. Ou seja, na proporção inversa da ampla divulgação que deu, por meses, à campanha do DEM contra as cotas para alunos pobres e negros na universidade. O artigo é de Beto Almeida.
Beto Almeida (*)
“Uma notícia ta chegando lá do interior
Não deu no rádio, no jornal ou na televisão...”
( Milton Nascimento e Fernando Brant )
Nesta semana que termina o Estatuto da Igualdade Social foi sancionado pelo presidente Lula. Para um país que teve quase 4 séculos de escravatura, sendo o último a abolir este opróbrio, e , tendo ficado 112 anos à espera de uma legislação que consolidasse bases para um enfrentamento mais vigoroso ao racismo ainda vigente em nossa sociedade tão desigual, o episódio mereceria um destaque muito maior por parte dos meios de comunicação. Mas, sem surpreender, a grande mídia comercial noticiou apenas discretamente o evento. Nenhum grande jornal deu na primeira página. E o Jornal Nacional da TV Globo fez apenas uma notinha curtíssima para a importância do fato, sem imagens. Ou seja, na proporção inversa da ampla divulgação que deu, por meses, à campanha do DEM contra as cotas para alunos pobres e negros na universidade.
Já a Voz do Brasil, programa radiofônico que também nesta semana fez mais um aniversário, cobriu decentemente a sanção do Estatuto da Igualdade Racial, mesmo estando sob ataque da ideologia mídia de mercado, que quer mais uma hora para entupir os ouvidos do povo, predominantemente, com mais baixaria e publicidade. Portanto, nos grotões, nos quilombos, nos assentamentos da reforma agrária onde a Voz do Brasil alcança, a notícia até que chegou. Mas, como diz a música “Notícias do Brasil”, de Milton Nascimento e Fernando Brant, a depender da grande mídia comercial, a informação ou é nula ou é a mais resumida possível. Será nostalgia das senzalas e do pelourinho por parte dos barões da mídia?
É preciso lutar para a lei pegar
Muitas conclusões podem ser tiradas da entrada em vigor do Estatuto da Igualdade Racial. Entre elas, certamente, a de que como nos demais estatutos, entre eles da Criança e do Adolescente, o do Idoso, ou o Código de Defesa do Consumidor, a sua plena vigência não é automática. Será preciso lutar para esta lei pegar. Com a dinâmica das lutas é que as leis se consolidam, se aperfeiçoam, ampliam direitos. A licença maternidade, por exemplo, instituída em 1932, na Era Vargas, estabelecia apenas dois meses. Acaba de ser ampliada para 6 meses. Em Cuba, há décadas, a licença maternidade é de um ano, e beneficia também o pai por um certo período.
Afinal, aqui estamos numa sociedade capitalista, com desigualdades trágicas, e onde a lei ainda é presa fácil do poder econômico e onde nem a própria Constituição alcançou ainda sua plenitude. Sem contar que tratam-se de textos legais rigorosamente desconhecidos da grande massa do povo brasileiro. Está escrito na lei que é crime matar, mas a taxa de homicídios impunes no Brasil alcança a tenebrosa estatística de 93 por cento dos casos, que ficam sem solução, são arquivados. Assim, transpondo para o Estatuto, para que ele realmente vire um texto a ser cumprido é indispensável a convocação da cidadania, dos sindicatos, dos movimentos sociais, para conscientizarem-se de sua existência, de seus alcances e limites. E também da necessidade de protagonismo e militância caso queiramos empreender uma inadiável batalha contra esta praga social do racismo. Talvez por isso mesmo a grande mídia não divulga, esconde, quando era tema para se fazer do Estatuto um grande fato comunicativo.
A insensibilidade social da mídia
Dois episódios me ocorrem para provar a insensibilidade social das oligarquias que dominam estes meios de comunicação como se administrassem um latifúndio do espectro eletromagnético ou impresso informativos. Quando Monteiro Lobato, revoltado com o analfabetismo de nossa gente, apelou a uma família proprietária de grande jornal paulista para que a imprensa realizasse uma cruzada contra este subproduto da deseducação, da ignorância e da pobreza. A resposta que recebeu deveria estar em todos os cadernos de alfabetizadores para lembrar que a alfabetização sempre teve inimigos nas oligarquias. “ Ô Lobato, mas se todos os negros analfabetos forem aprender a ler, quem é que vai pegar na enxada??”, ouviu um atônito Lobato, registrando-se no episódio uma soma de elitismo com racismo.
No outro episódio, ocorrido décadas depois, o diretor de redação deste mesmo jornalão paulista mata a sua namorada com três tiros, confessa o crime, é condenado e continua absolutamente livre. O motivo para o crime? A jovem jornalista, de origem pobre, meio mulata, queria terminar o namoro. Pena de morte! Ou seja, mesmo sendo proibido matar, mesmo tendo havido a confissão, mesmo tendo sido condenado, o tal jornalista, está desfilando sua impunidade livremente, indicando que tipo de ódio social pode estar sendo cultivado nas cúpulas de quem faz a comunicação no Brasil e a maneira muito especial que o Judiciário tem para julgar casos assim!. Quem será a próxima? Por isso, sem uma convocação da sociedade para transformar este Estatuto em muito mais que uma referência longínqua e teórica, nós poderemos talvez constatar que o racismo ainda irá resistir por mais tempo, mesmo sem qualquer razão para existir, pois trata-se de um crime.
Brasil tem novo rumo
A outra lição a ser tirada, orgulhosamente, é que o Brasil está na contra-mão das ondas de racismo e xenofobia que grassam pelos grandes países capitalistas, sobretudo naqueles países que se arrogam avançados. Ondas que vêm acompanhadas da demolição de uma série de direitos trabalhistas e sociais conquistados na edificação do Estado do Bem-Estar Social. Tudo isto em razão da crise do capitalismo que está sendo descarregada impiedosamente sobre os trabalhadores. O Brasil está ampliando direitos sociais!
Países como Suíça, Áustria ou mesmo França, debatem-se entre a tomada de medidas legais que restringem, agridem, desrespeitam trabalhadores negros e árabes que por lá trabalham. E em outros países como Itália, Espanha e Inglaterra, na prática o racismo vai mostrando seus dentes criminosos, seja nas condutas dos agentes públicos, dos agentes de emigração, e, muito especialmente dos agentes policiais. Estes, chegam ao ponto até há não hesitar em matar em caso de dúvida para com um negro, um mulato, um árabe, sempre que houver a dúvida, como dolorosamente ocorreu com o mineiro Jean Charles Menezes, executado em pleno metrô de Londres com 7 tiros na cabeça. Foi considerado terrorista por ter a pele amorenada e o cabelo não liso!!! Recentemente, o primo de Jean Charles, que também trabalhou na Inglaterra e luta para que se faça justiça de fato neste caso - o governo inglês deu uma indenização à família pela morte, como se fosse uma mala extraviada - acaba de ser deportado ao tentar entrar novamente naquele país que também está empilhando cadáveres no Afeganistão e no Iraque, além de ameaçar a Argentina com nova agressão militar ilegal pelas Ilhas Malvinas.
Basta uma consulta sobre quem anda preso hoje na Europa e encontraremos, na maioria, um contingente de jovens negros, árabes, pobres, recebendo o castigo da prisão. As estatísticas judiciárias nos EUA também revelam uma população carcerária predominantemente negra, pobre, asiática e hispânica. O mesmo ocorrendo sobre quem hoje está no corredor da morte para ser executado lá. Entre eles, o jornalista negro Múmia Abu Jamal, condenado num processo repleto de irregularidades e exatamente por Juiz conhecido por ser o campeão em enviar negros para a cadeira elétrica, onde fica claro que o crime principal de Múmia é o de ter nascido com a pele negra.
O Estatuto da Igualdade Racial é um passo forte nesta luta contra o racismo no Brasil, indicando direção oposta ao que ocorre no mundo. Da mesma forma que muitos países chamados de desenvolvidos estão fechando-se aos emigrantes, punindo-os, o Brasil adota política de abertura jurídica de espaços generosos aos estrangeiros que aqui vivem, linha oposta à xenofobia. Assim como nos EUA, em 1963, o Presidente Kennedy teve que enviar tropas do exército para garantir a matrícula de dois jovens negros na Universidade do Alabama, então vetada a negros, um estatuto aqui deverá ser alavanca para mobilizar vontades conscientes e dar bases jurídicas para que os que praticam racismo sejam condenados. Depois daquele episódio no Alabama, muitos massacres de negros houve nos EUA, e ainda os há. Executaram Martin Luther King e Malcon X. Aqui no Brasil os massacres se acumulam. Entre eles o massacre do Carandiru, dos 111 presos, quase todos pretos, como diz a música do Caetano. A Chacina da Candelária, a de Acari, a de Vigário Geral. Negros são os primeiros a tombar.
É preciso parar o Carandiru diário
O Estatuto da Igualdade Racial também desafia e estimula a criação de ações concretas por parte da Secretaria Especial de Direitos Humanos no sentido de coibir a prática diária de torturas nos estabelecimentos prisionais brasileiros. Houve uma concentração de esforços na apuração de tortura e assassinatos ocorridos durante a ditadura, mas não tem havido uma política eficiente da Secretaria contra a tortura diária, prática corriqueira, que atinge sobretudo pobres e negros agora mesmo na maioria destes órgãos judiciais.
Se o Estatuto dá as bases jurídicas para a punição da prática de racismo na internet, se protege os direitos das comunidades quilombolas, se proíbe às empresas a prática de critérios étnicos para preenchimento de vagas de emprego e, entre outras, torna obrigatório o ensino de história geral da África e da população negra do Brasil em escolas públicas e privadas do ensino fundamental e médio - e todos estes são pontos muito positivos para uma nova realidade de luta global contra o racismo - mesmo assim, só uma militância vigorosa, atenta, fortalecida fará com que a transformação pretendida seja a mais rápida, a mais profunda, a mais ampla.
O Estado brasileiro, ainda marcado por todos os vícios e deformações inerentes a um estado com as características da burguesia, vem experimentando por meio da convocação de Conferências Públicas, as mais variadas formas de democratização. Desde a primeira Conferência Nacional de Saúde, ocorrida também na Era Vargas, em 1942, e sobretudo durante o governo Lula, um torrencial de demandas e propostas está sendo perfilado, organizado, tornado visível, proclamado, muito embora, em vários casos, ainda sem conseguir a relação de forças adequadas para as mudanças mais radicais, mesmo sendo absolutamente necessárias. Algumas das bandeiras do movimento negro e dos movimentos sociais em geral, somente serão realidade com uma transformação social muito mais aprofundada, algo que um governo de composição como o atual ainda não reúne todas as condições de implementar e consolidar. Mas, as bases estão lançadas para um patamar superior destas lutas. Em vários casos, são os próprios movimentos sociais que não adotam também uma tática capaz de condicionar, o governo, por meio de um apoio crítico, a realizar mudanças concretas em muitos setores. Por exemplo, não se justifica que a TV Brasil - mesmo com toda abertura e visibilidade que já oferece às questões ligadas à África - não tenha ainda horários definidos e ampliados de sua programação que contemplem os diferenciados aspectos da luta contra o racismo. Ou da luta geral dos trabalhadores.
Distribuição massiva e gratuita
Exemplo disso é que, se não houver uma atitude decidida e vigorosa por parte dos movimentos que lutam contra o racismo, por parte dos sindicatos, dos intelectuais, corremos o risco do texto do Estatuto da Igualdade Racial sequer receber uma massiva divulgação, como se faz necessário. Os trabalhadores, ainda hoje, não conhecem seus direitos inscritos na CLT, a população brasileira em geral desconhece o texto da Constituição, não há consciência ampla ou sequer informação sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente, muito embora já tenha completado 20 anos. É fundamental que seja cobrada do estado brasileiro uma edição massiva deste Estatuto da Igualdade Racial, algo na casa de dezenas de milhões de exemplares. E distribuição gratuita. Há capacidade gráfica ociosa para isto e há um povo que não tem acesso à leitura destes textos. Mas tem direito! Se não é dado ao cidadão o direito de desconhecer o texto de uma lei, em contrapartida, vemos que no Brasil o estudo e a divulgação ampla e gratuita da Constituição, para dar um exemplo, numa foram sistematicamente promovidas.
Todos estes textos legais devem merecer edições simples, popularizadas em sua forma e alcance, com a linguagem mais acessível e mais comunicativa possível, superando o intransponível juridiquês. Mas, estas edições massivas devem ser distribuídas gratuitamente, como se faz na Venezuela, por exemplo, com a divulgação de milhões de exemplares de bolso da Constituição Bolivariana, proporcionando um aprendizado importante para a população. Num país como o Brasil, que ainda registra formas de trabalho análogas ao trabalho escravo, o conhecimento dos direitos trabalhistas contidos na CLT deveria ser uma prioridade dos meios de comunicação e não apenas restrito a advogados trabalhistas e círculos de dirigentes sindicais. E os meios de comunicação, concessões de serviço público, deveriam sim priorizar horários específicos para o conhecimento das leis, no mínimo proporcionalmente ao tempo que desperdiça para estimular o consumo de álcool e a ingestão de comidas maléficas à saúde.
Universidade da África versus Navios Negreiros
Por fim, vale registrar que no mesmo dia da sanção do Estatuto da Igualdade Racial, o presidente Lula também sancionou a lei que cria a Universidade Federal da Integração Luso-Africana e Brasileira, a Unilab, que terá sede na cidade de Redenção, no Ceará, primeira cidade brasileira a abolir o escravagismo no Brasil, 5 anos antes da Lei Áurea. A criação desta universidade tem o mesmo simbolismo de outras iniciativas que colocam o Brasil em rumo oposto ao de muitos países que estão registrando endurecimento e perversidade no trato da questão racial.
Com a Unilab, que receberá estudantes africanos que aqui estudarão gratuitamente, o Brasil se aproxima do gesto de Cuba adotado há 12 anos, quando criou a Escola Latinoamericana de Medicina destinada a formar médicos para oferecer aos países mais necessitados do continente, inclusive aos Estados Unidos. Cerca de 500 jovens negros e pobres estadunidenses estudam medicina em Cuba, gratuitamente. Quando voltarem formados para os EUA, poderão praticar medicina social nos bairros negros do Harlem e do Brooklin onde viviam; Segundo disseram estes próprios estudantes, se tivessem lá continuado provavelmente teriam sido capturados pelas perversas redes e garras do narcotráfico. Nos EUA dificilmente poderiam estudar medicina. Em contraponto ao bloqueio econômico e às agressões que sofre há décadas dos EUA, Cuba “contra-ataca” doando ao povo norte-americano a generosa formação humanizada de centenas de seus filhos.
Consciência generosa e solidária
O Brasil vai nesta direção. Além da Unilab, que dará oportunidade para que jovens africanos formem-se em nível superior, ombro a ombro com estudantes brasileiros, proporcionando mutuamente a formação de uma consciência generosa e solidária, marcada pelo reconhecimento que todos os povos do mundo e nós brasileiros em particular temos em relação aos povos africanos! Para além da Unilab, também na linha de pagar nossa dívida, está a instalação de unidades da Embrapa em território africano, e vem sendo mencionado por Lula o propósito de estimular a produção de agroenergia, permitindo a autonomia,a independência e a soberania tanto energética quanto alimentar dos povos africanos, em sua maioria ainda dependentes da importação de petróleo, ou ainda sem capacidade para a geração de energia elétrica.
Mandela , Cuba e a Mama África
No final do ato de sanção do Estatuto da Igualdade Racial, Lula disse que agora somos uma nação um pouco mais negra, um pouco mais branca e , sobretudo, um pouco mais igual. Perante o mundo, comparecemos com uma iniciativa que nos coloca em diferencial positivo e generoso. De certo modo, tomamos de Cuba uma parte de sua solidariedade para com os africanos, muito embora Cuba tenha chegado ao ponto de pegar em armas para defender a independência de Angola, derrotando o exército racista da África do Sul na Batalha de Cuito Cuanavale, e, com isto, derrotando o próprio regime do apartheid, como reconhece Mandela, dedicando esta conquista ao povo cubano.
Mesmo que ainda tenhamos tantas dívidas não pagas internamente e tantas desigualdades ainda não resolvidas, agora somos nós brasileiros a nos lançar, como nação, ao pagamento da gigantesca e dolorosa dívida que temos para com os povos da África. E com ações concretas: uma universidade, a presença de uma estatal como a Embrapa, políticas e convênios etc. Vamos apostando, como nação, num mundo mais justo, mais solidário, mais humano, incorporando a África, quando muitos países a consideram continente descartável. Muito breve, poderemos estar fazendo como o generoso povo cubano, enviando médicos, técnicos e professores para a Mama África. Construindo as bases para que se faça o trajeto contrário dos navios negreiros, humanizando o retorno na forma de conhecimento, tecnologia, saber e solidariedade.
Enquanto isto, muitos países, sobretudo os ricos que apoiaram o animalesco regime do apartheid no passado, seguem o vergonhoso exemplo de espalhar tropas e morte pelo mundo. O Brasil está em outra direção!
(*) Beto Almeida é Diretor da Telesur
Pois bem, apesar do obscurantismo midiático, saibam que um grande marco jurídico foi edificado para ajudar a reparar séculos de racismo, desigualdade étnica e marginalização sócio-econômica. Como informa com abrangência o artigo, iniciativas paralelas, em diversas searas, estão sendo levadas a cabo, inclusive aqui no Ceará, onde boa parte dos destinatários desta mensagem desenham suas pegadas existenciais. Nem a recente Copa do Mundo em solo africano, num país símbolo do racismo mais explícito e brutal, foi suficiente para convidar os jornalistas comerciais a darem publicidade social ao Estatuto da Igualdade Racial.
(Comentários do Grito Pacífico, mudando o mundo com você)
ESTATUTO DA IGUALDADE RACIAL: SONEGAÇÃO INFORMATIVA E AS NOVAS BASES PARA ENFRENTAR O RACISMO
FONTE: Carta Maior - 24/07/2010
LINK: http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=16819
O Estatuto da Igualdade Racial foi sancionado esta semana pelo presidente Lula. O episódio mereceria um destaque muito maior por parte dos meios de comunicação. Mas, sem surpreender, a grande mídia comercial noticiou apenas discretamente o evento. Nenhum grande jornal deu na primeira página. E o Jornal Nacional da TV Globo fez apenas uma notinha curtíssima para a importância do fato, sem imagens. Ou seja, na proporção inversa da ampla divulgação que deu, por meses, à campanha do DEM contra as cotas para alunos pobres e negros na universidade. O artigo é de Beto Almeida.
Beto Almeida (*)
“Uma notícia ta chegando lá do interior
Não deu no rádio, no jornal ou na televisão...”
( Milton Nascimento e Fernando Brant )
Nesta semana que termina o Estatuto da Igualdade Social foi sancionado pelo presidente Lula. Para um país que teve quase 4 séculos de escravatura, sendo o último a abolir este opróbrio, e , tendo ficado 112 anos à espera de uma legislação que consolidasse bases para um enfrentamento mais vigoroso ao racismo ainda vigente em nossa sociedade tão desigual, o episódio mereceria um destaque muito maior por parte dos meios de comunicação. Mas, sem surpreender, a grande mídia comercial noticiou apenas discretamente o evento. Nenhum grande jornal deu na primeira página. E o Jornal Nacional da TV Globo fez apenas uma notinha curtíssima para a importância do fato, sem imagens. Ou seja, na proporção inversa da ampla divulgação que deu, por meses, à campanha do DEM contra as cotas para alunos pobres e negros na universidade.
Já a Voz do Brasil, programa radiofônico que também nesta semana fez mais um aniversário, cobriu decentemente a sanção do Estatuto da Igualdade Racial, mesmo estando sob ataque da ideologia mídia de mercado, que quer mais uma hora para entupir os ouvidos do povo, predominantemente, com mais baixaria e publicidade. Portanto, nos grotões, nos quilombos, nos assentamentos da reforma agrária onde a Voz do Brasil alcança, a notícia até que chegou. Mas, como diz a música “Notícias do Brasil”, de Milton Nascimento e Fernando Brant, a depender da grande mídia comercial, a informação ou é nula ou é a mais resumida possível. Será nostalgia das senzalas e do pelourinho por parte dos barões da mídia?
É preciso lutar para a lei pegar
Muitas conclusões podem ser tiradas da entrada em vigor do Estatuto da Igualdade Racial. Entre elas, certamente, a de que como nos demais estatutos, entre eles da Criança e do Adolescente, o do Idoso, ou o Código de Defesa do Consumidor, a sua plena vigência não é automática. Será preciso lutar para esta lei pegar. Com a dinâmica das lutas é que as leis se consolidam, se aperfeiçoam, ampliam direitos. A licença maternidade, por exemplo, instituída em 1932, na Era Vargas, estabelecia apenas dois meses. Acaba de ser ampliada para 6 meses. Em Cuba, há décadas, a licença maternidade é de um ano, e beneficia também o pai por um certo período.
Afinal, aqui estamos numa sociedade capitalista, com desigualdades trágicas, e onde a lei ainda é presa fácil do poder econômico e onde nem a própria Constituição alcançou ainda sua plenitude. Sem contar que tratam-se de textos legais rigorosamente desconhecidos da grande massa do povo brasileiro. Está escrito na lei que é crime matar, mas a taxa de homicídios impunes no Brasil alcança a tenebrosa estatística de 93 por cento dos casos, que ficam sem solução, são arquivados. Assim, transpondo para o Estatuto, para que ele realmente vire um texto a ser cumprido é indispensável a convocação da cidadania, dos sindicatos, dos movimentos sociais, para conscientizarem-se de sua existência, de seus alcances e limites. E também da necessidade de protagonismo e militância caso queiramos empreender uma inadiável batalha contra esta praga social do racismo. Talvez por isso mesmo a grande mídia não divulga, esconde, quando era tema para se fazer do Estatuto um grande fato comunicativo.
A insensibilidade social da mídia
Dois episódios me ocorrem para provar a insensibilidade social das oligarquias que dominam estes meios de comunicação como se administrassem um latifúndio do espectro eletromagnético ou impresso informativos. Quando Monteiro Lobato, revoltado com o analfabetismo de nossa gente, apelou a uma família proprietária de grande jornal paulista para que a imprensa realizasse uma cruzada contra este subproduto da deseducação, da ignorância e da pobreza. A resposta que recebeu deveria estar em todos os cadernos de alfabetizadores para lembrar que a alfabetização sempre teve inimigos nas oligarquias. “ Ô Lobato, mas se todos os negros analfabetos forem aprender a ler, quem é que vai pegar na enxada??”, ouviu um atônito Lobato, registrando-se no episódio uma soma de elitismo com racismo.
No outro episódio, ocorrido décadas depois, o diretor de redação deste mesmo jornalão paulista mata a sua namorada com três tiros, confessa o crime, é condenado e continua absolutamente livre. O motivo para o crime? A jovem jornalista, de origem pobre, meio mulata, queria terminar o namoro. Pena de morte! Ou seja, mesmo sendo proibido matar, mesmo tendo havido a confissão, mesmo tendo sido condenado, o tal jornalista, está desfilando sua impunidade livremente, indicando que tipo de ódio social pode estar sendo cultivado nas cúpulas de quem faz a comunicação no Brasil e a maneira muito especial que o Judiciário tem para julgar casos assim!. Quem será a próxima? Por isso, sem uma convocação da sociedade para transformar este Estatuto em muito mais que uma referência longínqua e teórica, nós poderemos talvez constatar que o racismo ainda irá resistir por mais tempo, mesmo sem qualquer razão para existir, pois trata-se de um crime.
Brasil tem novo rumo
A outra lição a ser tirada, orgulhosamente, é que o Brasil está na contra-mão das ondas de racismo e xenofobia que grassam pelos grandes países capitalistas, sobretudo naqueles países que se arrogam avançados. Ondas que vêm acompanhadas da demolição de uma série de direitos trabalhistas e sociais conquistados na edificação do Estado do Bem-Estar Social. Tudo isto em razão da crise do capitalismo que está sendo descarregada impiedosamente sobre os trabalhadores. O Brasil está ampliando direitos sociais!
Países como Suíça, Áustria ou mesmo França, debatem-se entre a tomada de medidas legais que restringem, agridem, desrespeitam trabalhadores negros e árabes que por lá trabalham. E em outros países como Itália, Espanha e Inglaterra, na prática o racismo vai mostrando seus dentes criminosos, seja nas condutas dos agentes públicos, dos agentes de emigração, e, muito especialmente dos agentes policiais. Estes, chegam ao ponto até há não hesitar em matar em caso de dúvida para com um negro, um mulato, um árabe, sempre que houver a dúvida, como dolorosamente ocorreu com o mineiro Jean Charles Menezes, executado em pleno metrô de Londres com 7 tiros na cabeça. Foi considerado terrorista por ter a pele amorenada e o cabelo não liso!!! Recentemente, o primo de Jean Charles, que também trabalhou na Inglaterra e luta para que se faça justiça de fato neste caso - o governo inglês deu uma indenização à família pela morte, como se fosse uma mala extraviada - acaba de ser deportado ao tentar entrar novamente naquele país que também está empilhando cadáveres no Afeganistão e no Iraque, além de ameaçar a Argentina com nova agressão militar ilegal pelas Ilhas Malvinas.
Basta uma consulta sobre quem anda preso hoje na Europa e encontraremos, na maioria, um contingente de jovens negros, árabes, pobres, recebendo o castigo da prisão. As estatísticas judiciárias nos EUA também revelam uma população carcerária predominantemente negra, pobre, asiática e hispânica. O mesmo ocorrendo sobre quem hoje está no corredor da morte para ser executado lá. Entre eles, o jornalista negro Múmia Abu Jamal, condenado num processo repleto de irregularidades e exatamente por Juiz conhecido por ser o campeão em enviar negros para a cadeira elétrica, onde fica claro que o crime principal de Múmia é o de ter nascido com a pele negra.
O Estatuto da Igualdade Racial é um passo forte nesta luta contra o racismo no Brasil, indicando direção oposta ao que ocorre no mundo. Da mesma forma que muitos países chamados de desenvolvidos estão fechando-se aos emigrantes, punindo-os, o Brasil adota política de abertura jurídica de espaços generosos aos estrangeiros que aqui vivem, linha oposta à xenofobia. Assim como nos EUA, em 1963, o Presidente Kennedy teve que enviar tropas do exército para garantir a matrícula de dois jovens negros na Universidade do Alabama, então vetada a negros, um estatuto aqui deverá ser alavanca para mobilizar vontades conscientes e dar bases jurídicas para que os que praticam racismo sejam condenados. Depois daquele episódio no Alabama, muitos massacres de negros houve nos EUA, e ainda os há. Executaram Martin Luther King e Malcon X. Aqui no Brasil os massacres se acumulam. Entre eles o massacre do Carandiru, dos 111 presos, quase todos pretos, como diz a música do Caetano. A Chacina da Candelária, a de Acari, a de Vigário Geral. Negros são os primeiros a tombar.
É preciso parar o Carandiru diário
O Estatuto da Igualdade Racial também desafia e estimula a criação de ações concretas por parte da Secretaria Especial de Direitos Humanos no sentido de coibir a prática diária de torturas nos estabelecimentos prisionais brasileiros. Houve uma concentração de esforços na apuração de tortura e assassinatos ocorridos durante a ditadura, mas não tem havido uma política eficiente da Secretaria contra a tortura diária, prática corriqueira, que atinge sobretudo pobres e negros agora mesmo na maioria destes órgãos judiciais.
Se o Estatuto dá as bases jurídicas para a punição da prática de racismo na internet, se protege os direitos das comunidades quilombolas, se proíbe às empresas a prática de critérios étnicos para preenchimento de vagas de emprego e, entre outras, torna obrigatório o ensino de história geral da África e da população negra do Brasil em escolas públicas e privadas do ensino fundamental e médio - e todos estes são pontos muito positivos para uma nova realidade de luta global contra o racismo - mesmo assim, só uma militância vigorosa, atenta, fortalecida fará com que a transformação pretendida seja a mais rápida, a mais profunda, a mais ampla.
O Estado brasileiro, ainda marcado por todos os vícios e deformações inerentes a um estado com as características da burguesia, vem experimentando por meio da convocação de Conferências Públicas, as mais variadas formas de democratização. Desde a primeira Conferência Nacional de Saúde, ocorrida também na Era Vargas, em 1942, e sobretudo durante o governo Lula, um torrencial de demandas e propostas está sendo perfilado, organizado, tornado visível, proclamado, muito embora, em vários casos, ainda sem conseguir a relação de forças adequadas para as mudanças mais radicais, mesmo sendo absolutamente necessárias. Algumas das bandeiras do movimento negro e dos movimentos sociais em geral, somente serão realidade com uma transformação social muito mais aprofundada, algo que um governo de composição como o atual ainda não reúne todas as condições de implementar e consolidar. Mas, as bases estão lançadas para um patamar superior destas lutas. Em vários casos, são os próprios movimentos sociais que não adotam também uma tática capaz de condicionar, o governo, por meio de um apoio crítico, a realizar mudanças concretas em muitos setores. Por exemplo, não se justifica que a TV Brasil - mesmo com toda abertura e visibilidade que já oferece às questões ligadas à África - não tenha ainda horários definidos e ampliados de sua programação que contemplem os diferenciados aspectos da luta contra o racismo. Ou da luta geral dos trabalhadores.
Distribuição massiva e gratuita
Exemplo disso é que, se não houver uma atitude decidida e vigorosa por parte dos movimentos que lutam contra o racismo, por parte dos sindicatos, dos intelectuais, corremos o risco do texto do Estatuto da Igualdade Racial sequer receber uma massiva divulgação, como se faz necessário. Os trabalhadores, ainda hoje, não conhecem seus direitos inscritos na CLT, a população brasileira em geral desconhece o texto da Constituição, não há consciência ampla ou sequer informação sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente, muito embora já tenha completado 20 anos. É fundamental que seja cobrada do estado brasileiro uma edição massiva deste Estatuto da Igualdade Racial, algo na casa de dezenas de milhões de exemplares. E distribuição gratuita. Há capacidade gráfica ociosa para isto e há um povo que não tem acesso à leitura destes textos. Mas tem direito! Se não é dado ao cidadão o direito de desconhecer o texto de uma lei, em contrapartida, vemos que no Brasil o estudo e a divulgação ampla e gratuita da Constituição, para dar um exemplo, numa foram sistematicamente promovidas.
Todos estes textos legais devem merecer edições simples, popularizadas em sua forma e alcance, com a linguagem mais acessível e mais comunicativa possível, superando o intransponível juridiquês. Mas, estas edições massivas devem ser distribuídas gratuitamente, como se faz na Venezuela, por exemplo, com a divulgação de milhões de exemplares de bolso da Constituição Bolivariana, proporcionando um aprendizado importante para a população. Num país como o Brasil, que ainda registra formas de trabalho análogas ao trabalho escravo, o conhecimento dos direitos trabalhistas contidos na CLT deveria ser uma prioridade dos meios de comunicação e não apenas restrito a advogados trabalhistas e círculos de dirigentes sindicais. E os meios de comunicação, concessões de serviço público, deveriam sim priorizar horários específicos para o conhecimento das leis, no mínimo proporcionalmente ao tempo que desperdiça para estimular o consumo de álcool e a ingestão de comidas maléficas à saúde.
Universidade da África versus Navios Negreiros
Por fim, vale registrar que no mesmo dia da sanção do Estatuto da Igualdade Racial, o presidente Lula também sancionou a lei que cria a Universidade Federal da Integração Luso-Africana e Brasileira, a Unilab, que terá sede na cidade de Redenção, no Ceará, primeira cidade brasileira a abolir o escravagismo no Brasil, 5 anos antes da Lei Áurea. A criação desta universidade tem o mesmo simbolismo de outras iniciativas que colocam o Brasil em rumo oposto ao de muitos países que estão registrando endurecimento e perversidade no trato da questão racial.
Com a Unilab, que receberá estudantes africanos que aqui estudarão gratuitamente, o Brasil se aproxima do gesto de Cuba adotado há 12 anos, quando criou a Escola Latinoamericana de Medicina destinada a formar médicos para oferecer aos países mais necessitados do continente, inclusive aos Estados Unidos. Cerca de 500 jovens negros e pobres estadunidenses estudam medicina em Cuba, gratuitamente. Quando voltarem formados para os EUA, poderão praticar medicina social nos bairros negros do Harlem e do Brooklin onde viviam; Segundo disseram estes próprios estudantes, se tivessem lá continuado provavelmente teriam sido capturados pelas perversas redes e garras do narcotráfico. Nos EUA dificilmente poderiam estudar medicina. Em contraponto ao bloqueio econômico e às agressões que sofre há décadas dos EUA, Cuba “contra-ataca” doando ao povo norte-americano a generosa formação humanizada de centenas de seus filhos.
Consciência generosa e solidária
O Brasil vai nesta direção. Além da Unilab, que dará oportunidade para que jovens africanos formem-se em nível superior, ombro a ombro com estudantes brasileiros, proporcionando mutuamente a formação de uma consciência generosa e solidária, marcada pelo reconhecimento que todos os povos do mundo e nós brasileiros em particular temos em relação aos povos africanos! Para além da Unilab, também na linha de pagar nossa dívida, está a instalação de unidades da Embrapa em território africano, e vem sendo mencionado por Lula o propósito de estimular a produção de agroenergia, permitindo a autonomia,a independência e a soberania tanto energética quanto alimentar dos povos africanos, em sua maioria ainda dependentes da importação de petróleo, ou ainda sem capacidade para a geração de energia elétrica.
Mandela , Cuba e a Mama África
No final do ato de sanção do Estatuto da Igualdade Racial, Lula disse que agora somos uma nação um pouco mais negra, um pouco mais branca e , sobretudo, um pouco mais igual. Perante o mundo, comparecemos com uma iniciativa que nos coloca em diferencial positivo e generoso. De certo modo, tomamos de Cuba uma parte de sua solidariedade para com os africanos, muito embora Cuba tenha chegado ao ponto de pegar em armas para defender a independência de Angola, derrotando o exército racista da África do Sul na Batalha de Cuito Cuanavale, e, com isto, derrotando o próprio regime do apartheid, como reconhece Mandela, dedicando esta conquista ao povo cubano.
Mesmo que ainda tenhamos tantas dívidas não pagas internamente e tantas desigualdades ainda não resolvidas, agora somos nós brasileiros a nos lançar, como nação, ao pagamento da gigantesca e dolorosa dívida que temos para com os povos da África. E com ações concretas: uma universidade, a presença de uma estatal como a Embrapa, políticas e convênios etc. Vamos apostando, como nação, num mundo mais justo, mais solidário, mais humano, incorporando a África, quando muitos países a consideram continente descartável. Muito breve, poderemos estar fazendo como o generoso povo cubano, enviando médicos, técnicos e professores para a Mama África. Construindo as bases para que se faça o trajeto contrário dos navios negreiros, humanizando o retorno na forma de conhecimento, tecnologia, saber e solidariedade.
Enquanto isto, muitos países, sobretudo os ricos que apoiaram o animalesco regime do apartheid no passado, seguem o vergonhoso exemplo de espalhar tropas e morte pelo mundo. O Brasil está em outra direção!
(*) Beto Almeida é Diretor da Telesur
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quinta-feira, 22 de julho de 2010
Consistências e Precariedades
A Consistência das Crises e a Precariedade de Respostas
O debate das eleições presidenciais começa aos poucos a engrenar. Chegou a hora de conhecermos melhor as propostas, biografias, pontos de vista, ideologias sócio-políticas, motivações partidárias e bastidores institucionais de cada candidato ou candidata. Aliás, deveria inverter a seqüência, pois duas dentre as três candidaturas mais bem posicionadas são de mulheres. Isso seria um indicador de novidade? Um sinal de surpresa? Provavelmente sim. Se mudanças e avanços pairam no ar, retrocessos e mesmices ameaçam tudo desmanchar.
A mídia televisiva, felizmente, já não reina sozinha. E quando tenta publicar sua opinião privada (pautada pelos empresários de comunicação), o povo já não engole tão cegamente as versões maquiavelicamente forjadas pelos jornalistas escravizados pela vontade de seus patrões. Ou seja, a opinião pública, hoje em dia, tornou-se menos homogênea, menos previsível e menos manipulável. O povo pode não entender de macroeconomia, mas tem – muitas vezes - sensibilidade suficiente para perceber as mudanças microeconômicas que afetam seu bolso.
É mais do que sabido que os problemas, inclusive os de longe, não podem mais ser assistidos de camarote, nem escondidos tão facilmente debaixo do tapete como se fazia outrora. Por exemplo, jorra-se descontroladamente petróleo no Golfo do México, mas as magnitudes dessa tragédia não recebem a devida atenção e seriedade da mídia, diferentemente dos casos de violência envolvendo pessoas famosas, que viram espetáculos à parte. “Desde o dia 20 de abril e até a quinta-feira passada o poço jogou nas águas do Golfo entre 35 mil e 60 mil barris de petróleo, no que se tornou a maior catástrofe ecológica da história dos EUA.”, alerta uma matéria recente do Portal Ig.
E se uma tragédia do tipo ocorresse no quintal da Venezuela, toda a cobertura seria negativamente amplificada e ganharia colorações forçosamente políticas, pois imagino que a imagem do presidente deste país seria atacada sem piedade pelos mesmos EUA e suas marionetes apaniguadas (como a TV Globo e a revista Veja), arrastando no rodapé das reportagens, por tabela labiríntica, fulanos, sicranos e beltranos (de nossa política doméstica).
Primeiro detalhe: os EUA protagonizaram a crise econômica internacional iniciada em 2008, cujas seqüelas em cascata vieram a jorrar estragos na economia grega (as pátrias do saudoso José Samarago e da atual campeã do Mundo de Futebol que se cuidem). Segundo detalhe: os EUA continuam jorrando soldados impotentes para o Afeganistão e Iraque, enterrando no fundo da lama da política internacional estadunidense o último Nobel da Paz. Eis a equação silenciosa do caos, em uma versão tríplice/tridimensional para não causar cegueira sistêmica: crise ecológica + crise econômica + crise militar = crise ética do paradigma “imperial”.
A voz norte-americana está cada vez mais desautorizada a governar o mundo, assim como a voz da mídia tradicional está cada vez mais enfraquecida para tanger os rebanhos de sua audiência, apesar da eloqüência dos apresentadores de plantão. A América Latina e a mídia alternativa ganharam maior respeito e influência no imaginário dos povos e cidadãos que tentam reciclar sentidos, costurar respostas e reajustar sua missão coletiva neste mundo carcomido por um rodízio renovável de crises. Aquelas que citei, obviamente, foram só uma amostra, das mais visíveis. As crises social, acadêmica e espiritual, por outro lado, caminham na surdina, metabolizando outras incógnitas e inspirando outros pesadelos.
Se há esperanças, devemos mergulhar e transcender nelas para ajudar a desmascarar e salvar o mundo... dos governos desgovernados, dos indivíduos descoletivizados, da identidade submissa das nações, das comunicações desumanas, das candidaturas suicidas, das relações insensíveis, dos prêmios inglórios, dos saberes impotentes, das crenças omissas, das palavras calculadamente inúteis, das propostas retoricamente vazias e até dos medos da desesperança.
O debate das eleições presidenciais começa aos poucos a engrenar. Chegou a hora de conhecermos melhor as propostas, biografias, pontos de vista, ideologias sócio-políticas, motivações partidárias e bastidores institucionais de cada candidato ou candidata. Aliás, deveria inverter a seqüência, pois duas dentre as três candidaturas mais bem posicionadas são de mulheres. Isso seria um indicador de novidade? Um sinal de surpresa? Provavelmente sim. Se mudanças e avanços pairam no ar, retrocessos e mesmices ameaçam tudo desmanchar.
A mídia televisiva, felizmente, já não reina sozinha. E quando tenta publicar sua opinião privada (pautada pelos empresários de comunicação), o povo já não engole tão cegamente as versões maquiavelicamente forjadas pelos jornalistas escravizados pela vontade de seus patrões. Ou seja, a opinião pública, hoje em dia, tornou-se menos homogênea, menos previsível e menos manipulável. O povo pode não entender de macroeconomia, mas tem – muitas vezes - sensibilidade suficiente para perceber as mudanças microeconômicas que afetam seu bolso.
É mais do que sabido que os problemas, inclusive os de longe, não podem mais ser assistidos de camarote, nem escondidos tão facilmente debaixo do tapete como se fazia outrora. Por exemplo, jorra-se descontroladamente petróleo no Golfo do México, mas as magnitudes dessa tragédia não recebem a devida atenção e seriedade da mídia, diferentemente dos casos de violência envolvendo pessoas famosas, que viram espetáculos à parte. “Desde o dia 20 de abril e até a quinta-feira passada o poço jogou nas águas do Golfo entre 35 mil e 60 mil barris de petróleo, no que se tornou a maior catástrofe ecológica da história dos EUA.”, alerta uma matéria recente do Portal Ig.
E se uma tragédia do tipo ocorresse no quintal da Venezuela, toda a cobertura seria negativamente amplificada e ganharia colorações forçosamente políticas, pois imagino que a imagem do presidente deste país seria atacada sem piedade pelos mesmos EUA e suas marionetes apaniguadas (como a TV Globo e a revista Veja), arrastando no rodapé das reportagens, por tabela labiríntica, fulanos, sicranos e beltranos (de nossa política doméstica).
Primeiro detalhe: os EUA protagonizaram a crise econômica internacional iniciada em 2008, cujas seqüelas em cascata vieram a jorrar estragos na economia grega (as pátrias do saudoso José Samarago e da atual campeã do Mundo de Futebol que se cuidem). Segundo detalhe: os EUA continuam jorrando soldados impotentes para o Afeganistão e Iraque, enterrando no fundo da lama da política internacional estadunidense o último Nobel da Paz. Eis a equação silenciosa do caos, em uma versão tríplice/tridimensional para não causar cegueira sistêmica: crise ecológica + crise econômica + crise militar = crise ética do paradigma “imperial”.
A voz norte-americana está cada vez mais desautorizada a governar o mundo, assim como a voz da mídia tradicional está cada vez mais enfraquecida para tanger os rebanhos de sua audiência, apesar da eloqüência dos apresentadores de plantão. A América Latina e a mídia alternativa ganharam maior respeito e influência no imaginário dos povos e cidadãos que tentam reciclar sentidos, costurar respostas e reajustar sua missão coletiva neste mundo carcomido por um rodízio renovável de crises. Aquelas que citei, obviamente, foram só uma amostra, das mais visíveis. As crises social, acadêmica e espiritual, por outro lado, caminham na surdina, metabolizando outras incógnitas e inspirando outros pesadelos.
Se há esperanças, devemos mergulhar e transcender nelas para ajudar a desmascarar e salvar o mundo... dos governos desgovernados, dos indivíduos descoletivizados, da identidade submissa das nações, das comunicações desumanas, das candidaturas suicidas, das relações insensíveis, dos prêmios inglórios, dos saberes impotentes, das crenças omissas, das palavras calculadamente inúteis, das propostas retoricamente vazias e até dos medos da desesperança.
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